“I Can Resist Everything except Temptation” Oscar Wilde
Filed Under (livros) by Tânia on 01-05-2009
Aqueles que já se fartaram do Romantismo e suas influências não podem deixar de ler essa obra do filósofo e ensaísta suíço Denis de Rougemont – L’Amour et L’Occident, publicado no Brasil com o título “História do Amor no Ocidente”.
O livro foi escrito em 1938 e revisto em 1956, período de guerra e grandes mudanças nos valores e instituições sociais. Por este motivo, o autor aborda a questão da construção da idéia atual de amor falando da crise do casamento, tentando mostrar que os motivos para a mesma estão justamente na herança cultural que faz com que pensemos que o amor desejado é o amor de Eros e não o de Ágape, ou seja, o amor erótico e não o cristão.
Para tanto, Rougemont utiliza-se do mito de Tristão e Isolda para desenvolver sua linha de pensamento, além de uma série de dados literários e religiosos que recuperam o século XII, como por exemplo, a questão do amor cortês lindamente exemplificado nas “Correspondências de Abelardo e Heloísa”. Dessa forma procura tornar o leitor consciente de que seus desejos e sonhos amorosos estão ligados a uma herança cultural e, portanto, não são inerentes ao próprio amor.
Além disso, o conceito de amor construído privilegiaria o que o autor chama de “amor recíproco infeliz”. Rougemont afirma que se ama mais ao próprio amor, ao fato de amar, do que propriamente ao ser amado – o que tornaria o amor interessante seria a impossibilidade de sua realização efetiva, a realização do amor deveria ocorrer após a morte, daí a idéia de “morrer de amor” e de uma união que só seria possível e completa com a morte dos amantes. Um exemplo claro de tal predileção seriam os romances que terminam com a morte, como Romeu e Julieta ou o próprio mito de Tristão e Isolda, ou, no caso dos finais felizes, não se ter nada a dizer sobre o “felizes para sempre”, mas sim a história se desenrolar sobre o impedimento da união. Haveria na humanidade um desejo da morte, pois esta seria a única forma de realização do amor. Há, inclusive, um capítulo muito interessante no qual o autor relaciona o amor à guerra, dizendo que esta estaria ligada ao desejo da morte humano que o levaria a preferir o amor-paixão.
Assim, a idéia central do livro é que nosso conceito de amor foi condicionado culturalmente e daí seria proveniente o insucesso do casamento na sociedade atual. O casamento seria o amor realizável e, conseqüentemente, chato, monótono, tedioso. Haveria, então, uma constante busca pela emoção do enamoramento, pelo amor de Eros, o impossível. A conseqüência dessa busca seria a infidelidade.
Mas o autor atenta para o fato de que o/a amante só seria mais interessante que a/o esposa/o enquanto fosse amante, ou seja, enquanto houvesse uma impossibilidade de realização efetiva da paixão. A partir do momento em que o/a amante se tornasse esposo/a, o mesmo processo de desinteresse ocorreria intermitentemente.
Para combater essa insatisfação constante e, conseqüentemente, a infidelidade no casamento, Rougemont propõe que se tome essa angústia do amor-paixão como sintoma e se tenha consciência de que ela é proveniente de toda uma construção cultural e, portanto, externa ao amor. Quanto à manutenção do casamento, propõe que só seria possível se o mesmo fosse colocado como escolha, ou seja, que as pessoas não se casassem esperando viver a excitação do amor-paixão eternamente, mas sim se fizesse a escolha de dividir com alguém a própria vida, compartilhar da maneira cristã, isto é, trocar o amor de Eros pelo de Ágape.
Essa é sem dúvida uma idéia bastante interessante e consciente de se encarar o amor e o casamento, embora pretender encarar e explicar a infidelidade de maneira tão simplista não seja uma atitude muito realista; há muito mais motivos do que os explicitados que levam à infidelidade e que não se pode combater com uma receita, nem mesmo com um esforço ou uma escolha. Mas deixemos essa questão para uma próxima análise e voltemos ao texto referido.
O livro discute especialmente as formas de amor, o casamento e a infidelidade muito profundamente, utilizando-se de uma argumentação densa e com grande embasamento cultural e intelectual, o que não só a torna interessante, como também não impede que a leitura flua deliciosamente como em todo bom livro.
Além disso, o autor coloca grande tendência pessoal no desenrolar do texto, o que torna curioso notar como, muito provavelmente, Rougemont seja um desiludido com a paixão e tenha, possivelmente, tido um cônjuge infiel, já que preocupa-se particularmente em consolar os apaixonados infelizes dizendo estar lhes mostrando a cura para sua doença – a consciência da causa de seu mal. Ou seja, uma cura através do intelecto. E o faz brilhantemente – é um daqueles livros que nos transformam.
Filed Under (livros) by Tânia on 07-10-2005
O livro “Jamais Fomos Modernos – ensaio de antropologia simétrica” de Bruno Latour, publicado pela editora 34 com tradução de Carlos Irineu da Costa, trata da modernidade a partir de uma perspectiva que questiona a existência da própria modernidade.
O autor diz que, após a queda do muro de Berlim em 1989, assistimos à derrota do socialismo e ao mesmo tempo a realização das conferências sobre o estado global do planeta que nos levaria à observação de que o capitalismo não tem conquistas ilimitadas de dominação total do planeta, ao contrário do que parecia ocorrer anteriormente com a explosão tecnológica do século XX. Diante disso, Latour coloca três correntes de pensamentos: a dos modernos, que ainda acreditariam nas propostas da suposta modernidade, os anti-modernos, que tem uma postura reacionária diante da modernidade e os pós-modernos, que seriam os céticos que recusando as duas posições anteriores ficariam em dúvida a esse respeito. Dito isso, Latour questiona esses pensamentos discutindo se algum dia já fomos modernos. Para analisar essa hipótese, o autor parte de uma investigação da constituição moderna e da construção ideológica que fundamenta a sociedade e propões novas possibilidade de pensamento sobre a sociedade que não possua essa divisão entre modernos e não-modernos.
O livro é dividido em cinco capítulos. Devido à complexidade e a forma truncada e teórica do texto, esses capítulos serão tratados de forma relativamente superficial e resumida, considerando-se também a necessidade de brevidade do presente texto.
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Filed Under (livros) by Tânia on 16-12-2004
Na época do Iluminismo, na França, a circulação de idéias novas foi constante e trouxe muitas mudanças para o pensamento dos homens do período. A filosofia vinha se desprendendo um pouco da Igreja depois de séculos de domínio quase total, devido à influência católica na organização do Antigo Regime; os valores considerados começaram a mudar, adaptando-se à nova realidade histórica. Com a burguesia cada vez mais poderosa economicamente, seu lugar na política e a valorização de sua organização social e cultural passaram a ser reivindicados.
Em meio a tais inovações, novos valores misturavam-se aos antigos ao mesmo tempo em que se tentava combatê-los, cada qual defendendo seus interesses. A burguesia se baseava nos padrões da aristocracia (que ainda era a classe mais alta) para promover suas mudanças, e esta desprezava o que viesse da classe baixa que ascendia (inclusive naquilo que a burguesia havia se apropriado, culturalmente ou ideologicamente, da herança aristocrata).
Dessa forma, a burguesia tomou para si o fervor religioso (especialmente com Robespierre) que antes pertencera à aristocracia, sendo que esta, inclusive, justificava seu poder político pelo direito divino. Assim, o ateísmo passa a, cada vez mais, ser associado à aristocracia.
O Marquês de Sade segue essa mesma aparente incoerência do período: é aristocrata, ateu e, ao mesmo tempo, revolucionário e republicano. Mas essa aparente incoerência se desfaz quando pensamos que é um aristocrata insatisfeito tanto com o Antigo Regime como com a organização política e social vigente no período imediatamente após a Revolução, que é exatamente quando é publicado “A Filosofia na Alcova”.
Sade vê na Revolução uma oportunidade de mudar, porém, não a maneira que os revolucionários pretendiam, mas de forma ainda mais radical que os próprios radicais de seu tempo. A pornografia e o sadismo são utilizados como forma de transgressão aos valores vigentes, os quais pretende combater em favor de sua proposição de organização social utópica, baseada no que ele chama de “natureza” que não é nada mais que os desejos humanos e, antecipadamente, num sentido que lembra o freudiano.
Em “A Filosofia na Alcova”, De Sade coloca na boca dos “preceptores imorais” as suas idéias e, especialmente em “franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos”, desenvolve argumentos que, ao mesmo tempo em que justificam seus valores, apontam críticas aos vigentes e suas conseqüências para a convivência social e para a felicidade e satisfação do indivíduo, pois acredita que só um cidadão com seus desejos satisfeitos não causaria problemas para seus governantes.
A seguir veremos essas idéias e críticas relacionadas à religião, juntamente com o processo de racionalização que lhe é conseqüente e sua relação com a fundamentação da moral que deixa de ser religiosa.
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Filed Under (livros) by Tânia on 25-06-2004
Entre os ensaios escritos por Charles Baudelaire está Les Paradis Artificiels (Os Paraísos Artificiais) que fala a respeito da ingestão de drogas e seus efeitos estéticos. A primeira parte ‘Um comedor de ópio’ não será aqui tratada, sendo a segunda parte ‘O Poema do Haxixe’ o objeto desta análise. A edição utilizada é a da Editora Aquariana, coleção B, com tradução e notas de Eduardo Brandão.
O livro Os Paraísos Artificiais é dedicado a J.G.F., uma amiga de Baudelaire que não se sabe quem era. É uma dedicatória bastante interessante na qual o autor explica porque dedica “um quadro de volúpias artificiais” a uma mulher, já que esta seria “a fonte mais comum das volúpias naturais”; mas o faz questionando se é importante que se explique já que a compreensão só importaria àquele para quem a obra foi escrita. Acrescenta, bem à sua ácida maneira, que “teria o maior prazer em só escrever para os mortos”.
‘O Poema do Haxixe’ começa com o capítulo “O Gosto do Infinito” que é uma introdução ao tema abordado. Aí Baudelaire fala dos momentos em que o homem parece inexplicavelmente ter os sentidos exaltados, o que ele chama de “um estado paradisíaco” se comparado às “pesadas trevas da existência comum e cotidiana”. Acrescenta que desses momentos “deveríamos tirar, se fôssemos sensatos, a certeza de uma existência melhor e a esperança de alcançá-la mediante o exercício cotidiano da nossa vontade”. Segue dizendo que o homem buscou na “ciência física, na farmacologia, nas bebidas mais grosseiras, nos perfumes” uma maneira de fugir, mesmo que temporariamente de seu estado natural, que seria lodoso, e atingir as paradisíacas sensações desses momentos imprevistos. Esses usos viciosos seriam uma prova do gosto do homem pelo infinito; isso porque o levariam ao estado em que teriam se estivessem no paraíso, na eternidade. Mas o homem empregaria para o mal o excesso de paixão que teria dentro de si buscando “criar o paraíso” através dos efeitos de drogas terrenas que o levariam à perdição. Dessas drogas, escolhe o haxixe para estudo, fazendo uma análise dos “efeitos misteriosos e dos prazeres mórbidos que essas drogas podem engendrar, dos castigos inevitáveis que resultam de seu uso prolongado e, enfim, da própria imortalidade implícita nessa busca de um falso ideal”.
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Filed Under (livros) by Tânia on 11-04-2003
Resenhar um clássico como “Crime e Castigo” me parece ser uma tarefa tão difícil quanto pretensiosa, mas a obra me causa um fascínio tão grande que não pude resistir à tentação de proferir pelo menos algumas palavras a respeito de minhas mais fortes impressões sobre essa obra-prima de separe uns 2 ou 3 paragrafos e divida, fica como um abstract.
Por ser um texto tremendamente rico, obviamente, muitas questões serão deixadas de lado; aliás, acredito que o livro diz mais do que qualquer comentário que se possa fazer sobre ele; mas, os pontos selecionados chamaram-me, especialmente, a atenção.
Primeiramente, gostaria de comentar sobre o texto em geral para depois voltar-me para questões específicas, como a relação estabelecida entre racionalidade e emoção (o que estou inclinada a pensar como central na obra), a questão da ambigüidade do personagem Roskólnikof, a culpa, a caridade, o arrependimento do personagem; e uma espécie de resposta ao comentário que algumas pessoas fazem a respeito de Dostoiévski e, em especial, de “Crime e Castigo”, de que seria uma obra deprimente, com o que discordo completamente. Mas, deixemos as introduções e vamos logo ao assunto.
Começo descrevendo a leitura do romance com as palavras que escrevi poucos momentos depois de finalizá-la: “É uma experiência absurdamente mágica e indescritível”. As cenas são muito intensas, marcantes. Há momentos sufocantes, ansiosos, nervosos, tristes, emocionantes e emocionados. Todos têm em comum o fato de serem incrivelmente belos. Alguns, apesar da relutância, nos levam, inexoravelmente, às lágrimas.
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Filed Under (livros) by Tânia on 27-05-2002
A Mitologia do Preconceito Lingüístico
Atualmente existe uma constante luta contra as mais variadas formas de preconceito, afirmando que ele não tem nenhum fundamento racional ou justificativa. Este é apenas o resultado da ignorância, intolerância ou da manipulação ideológica.
Infelizmente, no que se diz referente à língua, estas lutas não tem sido muito difundidas, pelo contrário, vemos que esse tipo de preconceito tem sido reafirmado principalmente através dos meios de comunicação e instrumentos de ensino.
É apresentado no livro Preconceito Lingüístico – o que é e como se faz, de Marcos Bagno, a mitologia do preconceito lingüístico, examinando os principais mitos e refletindo para encontrar os meios mais adequados de combater esse preconceito no nosso dia-a-dia e no exercício de nossa profissão como professor de língua portuguesa.
Mito n° 1 – “A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente.
Acredita-se que, no Brasil, a língua portuguesa não apresenta dialetos, que é mesma em todo território. Esse mito prejudica a educação, já que ao não reconhecer a diversidade lingüística do país, a escola impõe sua norma lingüística.
Os brasileiro tem sua língua variando de acordo com idade,
origem geográfica, situação socioeconômica, grau de escolarização, etc. Isso não só por causa da extensão territorial do país, mas, principalmente, por causa da trágica injustiça social.
A Constituição afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei, mas essa mesma lei é regida numa língua que só uma parcela pequena de brasileiros consegue entender. Todos s brasileiros a que ela se refere deveriam te acesso mais amplo e democrático a essa espécie de língua oficial que, restringindo seu caráter veicular a uma parte da população, exclui necessariamente uma outra, talvez a maior.
Muitas vezes, os falantes das variedades desprestigiadas deixam de usufruir diversos serviços a que têm direito simplesmente por não compreendem a linguagem empregada pelos órgãos públicos.
O reconhecimento da existência de muitas normas lingüísticas diferentes é fundamental para que o ensino em nossas escolas seja conseqüente com o fato comprovado de que a norma lingüística ensinada em sala de aula é, em muitas situações, uma verdadeira “língua estrangeira” para o aluno que chega à escola proveniente de ambientes sociais onde a norma lingüística empregada no quotidiano é uma variedade de português não-padrão.
Não se deve confundir “monolingüismo” com a de “homogeneidade lingüística”.
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