Era um olho, mas não apenas um olho qualquer. Era um olho que piscava, mas era um olho aberto, no meio do nada. Se é que se pode saber que era o nada, pois era apenas um fundo preto. E se era um fundo preto, era alguma coisa e não nada. E se nele havia um olho não se pode dizer que havia o nada. Um olho e mais nada ou não-nada e era só. E o olho olhava sem olhar nenhum olho, pois, sendo apenas um, não olhava para si mesmo, nem para qualquer outra coisa que não fosse o fundo preto que não sabia que não era nada, ou era.
O olho continuava olhando para os lados sem olhar nada, nem o nada, tanto que nem sequer pode-se dizer que olhava, mesmo sendo um olho. Como mencionado anteriormente, piscava. Mas, ao piscar, também não via nada, assim como o nada enquanto de olhos abertos. Logo, piscaria ele, de fato? Se o olho não olha quando aberto, da mesma forma que quando pisca, estaria ele aberto? Se não está aberto, nem pisca, estaria ele fechado? Não. Mas, mesmo assim, não faz a menor diferença: um olho que não olha, nem é olhado, nem pisca, nem está aberto, nem fechado, no meio do nada que não é nada porque possui um olho, seria mesmo um olho?
Das duas, uma: ou o nada é nada porque o olho é também nada, ou o olho é alguma coisa porque o nada é alguma coisa, mesmo que somente para o olho. Qual você prefere?