Quando me pergunto o que faz um profissional da área de literatura nos tempos atuais, logo me vem à cabeça a piada sobre matar dragões. Esclareço: havia um tempo em que dragões voavam entre nós e havia homens especializados em matá-los; quando os dragões foram todos mortos, o que restou a esses homens foi ensinar outros a matar dragões para que estes ensinassem a outros e assim por diante. Às vezes ainda me parece esta a função dos estudiosos de literatura, especialmente no Brasil, agora sendo cuspidos, de 20 em 20, todos os anos, pelo novo curso de Estudos Literários oferecido pela UNICAMP.
Mas será que não existe mesmo um papel social exercido pela literatura em nossa época? Afinal, são produzidas cada vez mais edições baratas de “clássicos” da literatura universal nunca se vendeu tantos livros, nunca tantas pessoas tiveram acesso à leitura, tanto no que diz respeito à decodificação da escrita, como quanto aos preços aplicados.
Para tentar responder a essa pergunta, devemos, antes, fazer duas observações. A primeira delas se refere à afirmação mesma de que a literatura deve ter um papel. Alguns estudiosos já defenderam, como Oscar Wilde, que “toda arte é completamente inútil”, logo ocorreria apenas em função da beleza, do prazer. Outros, como Sartre, acreditam na literatura “engajada”, exercendo papel transformador no ser humano e, por conseqüência, na sociedade.
Apesar de me terem sempre dito, na universidade, para não juntar opiniões opostas, mas sim me alinhar a uma ou outra, continuo sendo teimosa e acreditando na possibilidade de equilíbrio entre os opostos numa proposta intermediária, mais razoável, que considera um e outro aspecto. A literatura ocupa ambos os lugares, o de exercício de beleza e prazer assim como o de transformador do pensamento, influência e acréscimo às idéias circulantes de um período.
A segunda observação está relacionada a que tipo de coisa estamos nos referindo quando usamos a palavra literatura. Podemos considerar tudo o que é escrito como literatura? Mas e os jornais e revistas, são literatura? Podemos considerar somente os “grandes clássicos”? Mas quem decide quais desses “clássicos” serão lembrados e quais serão esquecidos? E se só “clássicos” são literatura, tudo de contemporâneo não faz parte da lista? Como se pode ver, a questão não é simples.