“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

LANGOR

Filed Under (contos) by Tânia on 13-05-2009

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     O dia era quente e o ar seco, com o sol, parecia abrir fissuras no chão duro; a pele dele estava seca e repuxada, às vezes, parecia flácida como a de um velho, mas era só o calor que distorcia a imagem de seu rosto diante dos meus olhos. Os engulhos e o langor do tédio ainda me vinham à cabeça enquanto ele ainda falava. Como falava! Sua implicância e rabugisse me tinham feito pensar que era um velho – era isso! Quando ele comentava, eu movia levemente a cabeça duas ou três vezes e semi-sorria; minha indiferença aumentava, o monólogo dele se expandia. As paredes esmagavam e as portas e janelas fechadas me sorriam debochadamente. Ele continuava impassível – reclamava e criticava insistentemente, não valia a pena discordar. Deixava-o falar e, calada, olhava seu rosto e seus lábios subindo e descendo, como se visse o nada materializado diante de mim. Mesmo assim, ele argumentava para si mesmo, possivelmente para se convencer de seus próprios absurdos ou para deliciar-se com sua inteligência afetada ou, talvez, para provar que ela existia. Apenas conseguia declarar arrogância, estupidez e preconceito.

     O seu rosto se contorcia de acordo com a movimentação de seus lábios, e sua voz parecia também contorcer-se quando chegava aos meus ouvidos cansados daquele zumbido inconstante e estridente. Para zombar de meu tédio, comecei a observar-lhe os dentes levemente amarelados e desalinhados. Vez ou outra um fio de saliva unia os lábios numa consistência pegajosa, como a dos argumentos de seu discurso. A língua passeava pela boca lembrando-me de um animal ruminante. Uma leve espuma acumulava-se nos cantos da boca e algumas gotas pulavam desesperadas de dentro dele para se depositarem hora em meus braços, hora em meu rosto. Ruminava com palavras. Eu disfarçadamente as limpava com os dedos, mas não sem sentir-me infectado para sempre.

     Obsessivamente concentrado no movimento de seus lábios deslizando sobre os dentes, notei que ficavam vermelhos – suas gengivas sangravam. O sangue escorria por cima dos dentes e, enquanto ele falava, seus lábios espalhavam-no por toda a boca. O asco que a cena me causou não foi suficiente para que desviasse o olhar, que permaneceu fixo nos movimentos daqueles lábios infectos.

     Aos poucos pareceu-me que caiam-lhe os dentes e escorriam-lhe pelo corpo ensangüentado até o chão. Depois eram seus lábios que desgrudavam-se da boca esticando-se como se fossem feitos de goma de mascar. E ele os mascava ainda ruminando mesmo com as gengivas muito vermelhas e molhadas. Sua língua estava mole e desgovernada em meio a cuspidelas de dentes e sangue, quase como os seus pensamentos. Seu maxilar pareceu desprende-se do rosto e balançar pendurado enquanto ele continuava a falar. Lágrimas desceram de seus olhos e, em pouco tempo, tornaram-se os próprios olhos escorrendo pouco a pouco e misturando-se ao que lhe restava da boca. Os cabelos ondulados foram percorrendo-lhe o corpo como vermes desprendendo-se da terra; até que sua cabeça passou a resumir-se a um grosso e ululante punhado de lama. Seu corpo desfez-se em barro e espalhou-se no chão junto com as paredes, janelas, portas e tudo o mais que nos circundava. Tudo aquilo misturou-se tornando-se uma geléia viscosa e catarrenta que se arrastava pelo chão. Em pouco tempo, o próprio chão foi absorvido por aquele nada e tudo aquilo escorreu rumo a um enorme ralo que se formara aos meus pés. Depois que tudo pareceu desmantelar-se ralo a baixo, notei que a sola de meus sapatos estava ensopada porque o ralo entupira deixando toda a sujeira ainda na borda, sem ser escoada.

     Não me lembro ao certo quanto tempo mantive-me naquele estado de semi-consciência gerada por meu profundo desprezo e indiferença por tudo quanto estivesse ali presente, mas quando acreditei voltar a mim, tudo estava imóvel e sólido, de maneira que senti em mim uma dureza dolorosa e esmagadora. Não havia mais ninguém ali e eu continuava sem me mover olhando atabalhoadamente para aquilo que a pouco fora uma massa disforme.melting