Aproveito-me desse doce castigo sem crime para me fatigar em pensamentos torturantes que continuam a rondar-me apesar de tentar esgotá-los repetindo-os exaustivamente. A espera tediosa a que me submeto é inevitável. As horas lentamente escorrem pelos ponteiros do relógio pendurado na parede suja da sala. A espera se prolonga indefinidamente. Permaneço sentada olhando o nada. Incomodo-me na cadeira. Glúteos dormentes simplesmente conformam-se em permanecer ali parados.
Uma chuva fina, quase imperceptível, lentamente derrama-se do lado de fora. É suave e calma. Incapaz de me perturbar. É somente uma longínqua imagem que ainda me parece favorável. O sol ainda brilha algumas vezes, embora as finas nuvens o encubram delicadamente por alguns instantes. O ar é úmido, mas leve e agradável. Continuo ali inerte mesmo depois de já ter me cansado de olhar a janela. A tola chuva.
Percebo o quanto pareço patética ali imóvel como a própria cadeira. As pessoas, incomodadas, parecem olhar-me pelos cantos dos olhos, depois voltá-los para as páginas das revistas para que em sua mente suja e perfeita possam concluir o quanto sou medíocre e que, felizmente, não estão em meu lugar. Hesito ao pensar em levantar e pegar uma revista para que possa, eu também, julgá-los por olhares superiores e arrogantes. Condeno minha tolice e, um tanto falsamente, minha crueldade e implicância. Resoluta, levanto e apanho a maldita revista. Os olhares intimidantes me seguem enquanto faço isso. Mostro-me segura e decidida, mas minhas mãos tremem ligeiramente e minha face cora indisfarsavelmente. Indefesa, volto a sentar-me, mas não antes de ter em minhas trêmulas mãos, vitoriosa, a revista.
Folheio aquelas páginas sem lê-las. O tédio ao fazê-lo é ainda mais sufocante. Ao menos, agora, não me sentia ridícula olhando o nada. Agora, o que era o nada para mim, não o era para os que assistiam ou mesmo fingiam que não o fosse. Tudo estava bem assim. Os olhares cessaram finalmente. O incômodo não. Nunca.