ANÁLISE DE TRÊS ADAPTAÇÕES DE ‘HAMLET’ PARA CINEMA
Filed Under (filmes) by Tânia on 05-02-2003
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ADAPTAÇÃO – HAMLET POR FRANCO ZEFFIRELLI
A adaptação da peça de Shakespeare ‘Hamlet’ por Franco Zeffirelli e Christopher de Vore parece bastante prejudicada pelas supressões.
Este é o principal problema da adaptação. Na tentativa de “encurtar” o filme, acabou-se suprimindo cenas indevidamente, por um critério duvidoso. Cenas inteiras foram consideradas desnecessárias, como se Shakespeare as tivesse posto em sua peça sem motivação, sem que houvesse por trás da cena uma intenção. Embora, talvez, os adaptadores acreditassem que essas intenções não eram as mesmas que pretendiam eles. Seja qual for o motivo, a adaptação não foi o mais fiel possível e, talvez, nem pretendesse o ser.
As cenas suprimidas foram o aparecimento inicial do Espectro do rei Hamlet, a menção de Hamlet a Horácio de que fingiria loucura, o questionamento do Rei sobre seu arrependimento diante do altar, o mando de Polônio para que vigiassem Laertes e descobrissem seus hábitos, o diálogo de Hamlet com os atores da companhia sobre teatro, a representação de Hamlet e de um dos atores do episódio da morte de Príamo, as intenções e a invasão da Dinamarca por Fortimbrás, o povo querendo invadir o castelo e querendo que Laertes seja rei, o diálogo dos dois coveiros, quase todo o diálogo de Osric com Hamlet, a intenção de Horácio de matar-se junto com Hamlet.
Por serem muitas e o espaço que pode ser dedicado a esta questão é reduzido, tomemos somente as mais problemáticas: o questionamento do Rei sobre seu arrependimento, o diálogo de Hamlet com os atores, Fortimbrás e o diálogo de Osric e Hamlet.
A personagem do Rei fica bastante prejudicada em sua caracterização sem a cena em que se diz arrependido, mas questiona o próprio arrependimento por ainda possuir os benefícios que lhe proporcionou o crime. (Ato III – cena III) O conflito da personagem entre o remorso e o usufruto dos benefícios, que tão bem retratam aspectos tão presentes no pensamento humano que no fundo são o interesse da peça, jamais poderiam ter sido desprezados por qualquer adaptação que tenha o interesse de retratar Shakespeare, o que nos parece ser o objetivo desta. Deixar de retratar o humano é deixar de lado todo o objetivo e a graça dessa peça fascinante.
Sobre esse aspecto também encaixa-se as supressões de Fortimbrás e do curto diálogo de Hamlet e Osric, este talvez considerado um detalhe dispensável pelos adaptadores, mas que tem implícita uma forte crítica e divertida sátira aos “capachos”. Quando Osric vai contar a Hamlet sobre a aposta do Rei, o rico senhor é ridicularizado por Hamlet e Horácio como alguém que tenta “falar difícil” e quando Hamlet o deixa confuso sobre qual atitude tomar para satisfazê-lo, concordando sobre estar frio e calor. (Ato V – cena II) Quanto a Fortimbrás, deixou-se, por conseqüência, de incluir o diálogo de Hamlet com um capitão de sua tropa, no qual fala-se sobre as terras a serem conquistadas na Polônia que, apesar de valerem muito pouco seriam sangrentamente disputadas através da perda de vidas humanas. (Ato IV – cena IV) Critica-se aí a ambição humana por glória e a importância desta ser maior do que a própria vida humana. Mais uma vez, os adaptadores deixam de retratar características tipicamente humanas e, por conseqüência, de criticá-las.
Com relação ao diálogo de Hamlet com os atores, a intenção de Shakespeare era criticar o teatro da época, as maneiras de atuar de certos atores e o público somente interessado nas disputas entre as companhias. (Ato II – cena II/ Ato III – cena II)
Talvez os adaptadores tenham considerado que tais críticas não eram de interesse atualmente e, portanto, tendo que retirar alguns trechos decidiram-se por este. Deixaram de retratar um aspecto interessante da obra de Shakespeare, seu envolvimento com o teatro da época e seu ponto de vista crítico sobre ele, por pura economia de tempo, preocupação bastante indigna para quem pretende adaptar uma das melhores obras de um dos maiores artistas de todos os tempos.
A personagem Ofélia é retratada como uma mulher bastante jovem e ingênua; uma visão romântica da personagem. Tal interpretação é muitas vezes questionada por estudiosos que acreditam que Ofélia seja, como o pai, interesseira e compartilhe da podridão que ronda o reino da Dinamarca.
As personagens Guildenstern e Rosencrantz são representados sem caricaturização de suas atitudes.
Embora, apesar dos problemas, a adaptação da obra é elogiável em muitos aspectos. Entre eles, a caracterização da personagem de Polônio, que é retratado com ridicularidade, mas também como um pai interesseiro, um “rufião”; embora a legenda o tenha chamado simplesmente “peixeiro”. A Rainha Gertrudes é também bem representada em seus conflitos. O cenário do castelo é bastante apropriado à peça. O Espectro do Rei Hamlet nos mostra perfeitamente sua angústia e sofrimento, sua presença nos causa horror e angústia.
Outro aspecto interessante a ser comentado diz respeito à idade de Hamlet. Apesar de haver na peça um momento em que se diz que Hamlet teria 30 anos, isso é muito discutido devido ao início da peça, pois nesse momento a impressão é de que teria por volta de 18 anos. Estudiosos afirmam ser tal contraste proposital; Hamlet envelheceria ao longo da peça, consumindo-se em seu martírio. A opção do adaptador foi por um Hamlet de 30 anos, mas, ao longo do filme, percebe-se a inconstância da personagem que, aliás, é muito bem retratada pelo diretor, especialmente durante o célebre monólogo do qual faz parte o também célebre “ser ou não ser, eis a questão”. (Ato III – cena I)