“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

SUICÍDIO

Filed Under (contos) by Tânia on 12-02-2003

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            Olhei o chão longínquo. Meus pés chegariam até ele depois de dois ou três metros de queda livre… chegariam até ele. Aquela imagem parecia me chamar. Queria encontrá-la. Algo além da gravidade impulsionava-me para baixo. O chão.

            Brilhava refletindo a luz do sol. Enganava meus olhos com sombras que pareciam se mover sozinhas. A distorção causada pelo calor me causava arrepios. As árvores balançavam suavemente, mas não podia sentir o frescor da brisa. Só o que sentia era a força de uma tempestade me empurrar para além da grade da varanda.

            altura6 Havia atravessado-a quando um pensamento súbito me ocorreu: conseqüências! Não havia pensado nisso até então. Poderiam ser dramáticas, irreversíveis… fatais. Pensar em tais circunstâncias me fez segurar com força a grade de proteção. Era de uma madeira frágil, suja e mal cuidada. Era minha segurança.

            Novamente as conseqüências voltaram a me perturbar. Não me assustariam dessa forma se não tivesse uma última coisa a fazer. Mas o que? Não adiantava me enganar. Sabia exatamente o que era.

            Fui encontrá-la.

Quando cheguei, pude vê-la dentro da casa, dançando alegremente enquanto ouvia sua banda preferida tocar no último volume do aparelho. Era uma imagem tremendamente graciosa…

 Ela me recebeu com um caloroso abraço. Passamos juntos toda a tarde. Ríamos. Ela estava com a cabeça apoiada em meu colo; os cabelos espalhados em volta de mim e um sorriso angelical. Era linda! A música ainda continuava:

-   Eu adoro essa música!

 

Ela falou bastante empolgada. O que me perturbou foi que tocava “Suicidal Dream”. Ela continuou falando animadamente:

            -   Sabia que é impossível se suicidar prendendo a respiração? O nosso bulbo manda estímulos para o diafragma quando começa a faltar oxigênio. Aí esse músculo do abdome nos obriga a respirar fazendo com que o ar entre em nossos pulmões.

-   Acho que você está estudando demais!

            Ela riu encantadoramente.

            -   Sei disso porque foi a questão que eu errei! Escrevi que a traquéia mandava estímulos para os pulmões!! – continuou a rir divertidamente. Eu a acompanhei, vivendo um momento de plena alegria e entusiasmo.

            Quando ela parou de sorrir, eu a fitei por alguns minutos. Como era linda! Beijei-lhe os lábios quentes.

                “I killed myself from holding my breath”.

            -   Mas, quando alguém “takes you breath away”…

            Ela se debateu por alguns instantes, mas logo perdeu as forças.

            Ela pareceu ainda mais bela morta. Não podia parar de olhar para ela: esparramada em meus braços: tão minha. Por alguma horas, fantasiei que ela dormia confortavelmente sobre mim como fizera tantas vezes.

Agora que já faz alguns dias que a vejo imóvel, perdi as esperanças de vê-la abrir novamente os olhos.

            Como ela começasse a se decompor, me dei conta do que havia feito. Mas… ela ainda estava tão linda! Era melhor beijar-lhe os lábios quentes do que os agora frios.

            Agora que a tenho morta em meus braços, já não temo qualquer conseqüência… Já não tenho mesmo qualquer motivo para viver.

            Posso, enfim, atender ao insistente chamado do chão luminoso abaixo de mim.


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