“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

SOBRE CASIMIRO DE ABREU

Filed Under (livros) by Tânia on 26-06-2009

Tagged Under : ,

        Casimiro de Abreu foi o poeta da mocidade brasileira, que fez de seu livro um dos mais lidos no país inteiro. Sente-se, em quem soube tão bem cantar a sua “infância querida que os anos não trazem mais”, uma ligação profunda com a alma do povo, traduzindo esse sentimento de forma que se tornaria um dos vultos exponenciais da literatura brasileira com um só e pequeno livro, expressão poética da alma adolescente.

cASIMIRO DE aBREU        Foi o poeta sobre o qual recaiu o maior número de preconceitos e lendas. Tido como o poeta da morte, do amor contrariado ou infeliz, imbuído de dramas espirituais que teriam dado em saturnais e bordéis; era considerado incorreto na linguagem, descuidado quanto às regras da prosódia e metrificação.

            Hoje, porém, tanto as lendas biográficas, quanto os preconceitos literários, estes últimos difundidos, sobretudo, pelos poetas e críticos parnasianos, estão completamente destruídos. Dotado de um estilo espontâneo, conciso e claro, Casimiro se caracteriza pela sensibilidade quase infantil, pela meiguice, pelos sentimentos comuns de amor ingênuo, de saudade, de gosto pela natureza, de sonhos e devaneios adolescentes, de recordações infantis. É um poeta das emoções simples, à flor da pele ou da imaginação, das murmurações tímidas, das tristezas leves provocadas pelos desencantos, mas sem pessimismo doentio. Sua melhor característica está na atração da vida natural, entre árvores e flores. Os acontecimentos se sucedem sem violências, envolvidos em névoa, misto de saudade e tristeza. Tal é sua maneira característica de poetar e viver em poesia.

            A seguir se fará uma apresentação biográfica sumária e uma análise de alguns de seus poemas das Primaveras para se tentar explicitar o mundo desse poeta, as belezas e os limites de sua poesia.

Apresentação Biográfica

 

            Casimiro de Abreu nasce em 1939 na Barra de São João, no Rio de Janeiro. Filho de pai português e mãe brasileira unidos sob circunstâncias curiosas, já que sua mãe era casada com um parceiro comercial do pai que morre de forma misteriosa, sendo que ela engravida poucos meses depois.

            Casimiro estudou no Instituto Colegial, conhecido como Colégio Freese. Era um internato para jovens ricos onde se ensinava educação religiosa, moral, física e intelectual. Essa é a primeira vez em que Casimiro fica longe da família manifestando seus sentimentos de saudade. Aí faz importantes amigos que se tornarão próximos mais tarde. Nessa época tem como ídolos poéticos Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo.

            Como seu pai quisesse que seguisse carreira comercial, manda-o para Portugal em 1853.  Lá, aos dezessete anos, estréia sua peça “Camões e o Jau” sendo bem recebida pelo fato de ter sido escrita por um autor iniciante. Segue-se a publicação de poemas em jornais portugueses, o principal deles é Ilustração Luso-brasileira para o qual escreviam também Camilo Castelo Branco e Alexandre Herculano. Faz parte do meio intelectual português e tem sucesso como poeta, mas mesmo assim não se adapta a terra do pai.

            Depois de três anos e meio em Portugal, volta doente para a fazenda em Indaiaçu. Lá recebe os cuidados da mãe e depois da melhora vai para o Rio trabalhar com escrituração mercantil. Nesse momento procura fazer contatos na Corte e com o meio literário brasileiro.

            O jornal Correio Mercantil publica “Camões e o Jaú” que é bem recebido pela crítica apesar de seu sucesso em Lisboa não ser sequer comentado. Colabora também com os jornais A Marmota, O Espelho e Revista Popular.

            Apesar do sucesso que passa a ter no Brasil, não consegue publicar As Primaveras por falta de recursos financeiros. Fica muito frustrado e revoltado com a contrariedade do pai a suas aspirações. Porém, depois de algum tempo, seu pai lhe dá o dinheiro para a publicação do livro desde que ele continue no ramo do comércio com dedicação. Alguns anos depois, o pai, mesmo contrariado, permite que o filho abandone o comércio.

            Conhece Joaquina de Alvarenga Silva Peixoto através do irmão dela, seu amigo Luís d’Alva. Com o amor, torna-se mais alegre, humorístico e até mesmo burlesco.

            Recebe algumas críticas negativas quanto ao seu “descuido” na linguagem que fazem com que se esforce para renovar, mas seus versos tornam-se menos espontâneos e melodiosos.

            Em 1860 morre seu pai. Sente-se arrependido dos transtornos e contrariedades que lhe causara e compreende seu ponto de vista. Volta para o Rio já sentindo fortemente a tuberculose.

            Fica noivo e prepara a fazenda em Indaiaçu para morar depois de casado. Tenta a cura da tuberculose em Nova Friburgo e sua morte é falsamente anunciada em 19 de agosto de 1860 o que lhe traz grande consagração e publicações em sua homenagem. Lê as manifestações de carinho nos jornais. Envia desmentido à imprensa. Vê que está perto da morte e faz seu testamento, no qual pede um funeral simples e para ser enterrado perto do pai. Ainda em 1860, um mês e um dia depois da morte do pai, Casimiro morre.

 

Sobre alguns poemas de ‘As Primaveras’

           

            O livro As Primaveras foi publicado em 7 de setembro de 1859 e teve calorosa recepção dos críticos. Drumond assim resume a temática de Casimiro no suplemento ‘Autores e Livros’ do jornal “A Manhã”:

“a) o homem recorda da infância e fica triste;

b) o homem tem um amor que não pode realizar-se e também fica triste;

c) o homem está longe da terra natal e sente saudade.”

 

Através dessa graciosa descrição, escolheu-se aqui três poemas constantes desse livro que abordam o tema da saudade da terra natal, o medo do amor e a saudade da infância. São esses poemas ‘Canção do Exílio’, ‘Amor e Medo’ e ‘Meus oito anos’.

No primeiro poema, percebe-se um nacionalismo de caráter diferente daquele de Gonçalves Dias, por exemplo. Em Casimiro, a saudade da pátria é muito mais relacionada a seus sentimentos por estar longe da família, principalmente da mãe e da irmã, do que propriamente uma exaltação de sua nação em nome de um projeto de criação da nacionalidade brasileira. Até o nacionalismo em Casimiro de Abreu é ingênuo e inocente de uma maneira quase infantil evocando imagens bucólicas de sua infância, lugares onde brincava ou cenários que contemplava em tempos dos quais sente saudade.

Quanto ao amor, assim como outras obras dos ultra-românticos, ‘Amor e Medo’ apresenta uma visão dualista, que envolve atração e medo, desejo e culpa. Segundo Mário de Andrade, os românticos, e principalmente os ultra-românticos, temiam a realização amorosa. Por isso, o ideal feminino é normalmente associado a figuras incorpóreas ou assexuadas, como anjo, criança, virgem, etc., e as referências ao amor físico se dão apenas de modo indireto, sugestivo ou superficialmente. Como se observa, o medo de amar, nesse poema, traduz-se no receio de macular a virgem, no temor de se entregar ao apelo dos sentidos e ferir a pureza da mulher amada. A imagem de “anjo enlodado” dá a medida exata do ideal feminino para os românticos: mulher virgem, assexuada e incorpórea.

No último poema escolhido, Casimiro fala da infância como algo muito feliz e a nostalgia que sente desses tempos nos mostra como o poeta ainda quer permanecer criança, com a mesma pureza, superficialidade e felicidade infantis. Sua tristeza pelo fim desse período nos dá a noção de como encara a vida, através de olhos inocentes de quem não quer crescer.

Vê-se nesses três poemas a questão da ingenuidade e inocência infantil, uma visão do mundo através de uma personalidade sensível, mas sem amplitude ou profundidade. Na fase final de sua vida escreveu alguns poemas melancólicos que refletiam a perda da inocência infantil, mas sem a habilidade e o sarcasmo com que outros poetas, como Álvares de Azevedo, o fizeram.

 

Considerações Finais

 

            Apesar de ligado à Segunda geração da poesia romântica, Casimiro, quando surgiu no cenário literário carioca, ajudou a desanuviar o ambiente noturno que Álvares de Azevedo deixara ao morrer, sete anos antes.

            Diferentemente da obra de Azevedo, em que amor se confunde com morte, na poesia de Casimiro o amor associa-se sempre à vida e à sensualidade – e este é um dos pontos altos de sua poesia.

            Contudo essa sensualidade de Casimiro – mais natural que a de Álvares de Azevedo, porque mais concreta – ainda não atinge sua plena maturação. É uma sensualidade ainda ligada ao medo de amar, sempre disfarçada, fruto de insinuações e do jogo de mostrar e esconder.

            Casimiro de Abreu se destaca, principalmente, pela abordagem graciosa de certos temas, como a infância, a pátria, a saudade, a solidão, a natureza, o amor – temas que agradavam ao público, já acostumado a eles.

            Aproveitando-se de certas novidades introduzidas pela primeira geração, como as variações métricas e rítmicas, a forte musicalidade e o emprego de uma língua brasileira, Casimiro se utiliza até o esgotamento, numa época em que essas inovações já não eram ruptura, por estarem incorporadas ao gosto do público.

            Com o tratamento brando que deu aos temas, Casimiro de Abreu não ampliou nem modificou os horizontes do Romantismo brasileiro – a inovação por ele proporcionada ficou circunscrita à abordagem mais natural da sensualidade. Entretanto sua poesia contribuiu para a consolidação e para a popularização definitiva do Romantismo no Brasil.

 

Bibliografia

ABREU, Casimiro. As Primaveras

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. SP: Cultrix, 1994.

CÂNDIDO, Antônio. Presença da Literatura Brasileira: das origens ao realismo. RJ: Bertrand Brasil, 1997.

ROMERO, Silvio. História da Literatura Brasileira. Tomo 2. RJ: Imago editora, 2001.

VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira. RJ: José Olimpio, 1954.

Leave a Reply