SHAKESPEARE – SONNET XLVII
Filed Under (tradução) by Tânia on 04-03-2009
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Betwixt mine eye and heart a league is took, (a)
Entre meu olho e coração uma aliança é formada,
And each doth good turns now unto the other. (b)
E cada benefício de um volta-se agora para o outro.
When that mine eye is famish'd for a look, (a)
Quando meu olho está faminto por um olhar,
Or heart in love with sighs himself doth smother, (b)
Ou o coração apaixonado com suspiros ele mesmo a ambos sufoca,
With my love's picture then my eye doth feast (c)
Com o retrato de meu amor então a ambos banqueteia
And to the painted banquet bids my heart. (d)
E para o banquete pintado meu coração convida.
Another time mine eye is my heart's guest, (c)
Outra vez meu olho é convidado de meu coração,
And in his thoughts of love doth share a part. (d)
E em seus pensamentos de amor ambos tomam uma parte.
So, either by thy picture or my love, (e)
Assim, tanto por teu retrato ou meu amor,
Thyself away [art] present still with me; (f)
Tu mesmo longe estás ainda presente comigo;
For thou [no] farther than my thoughts canst move, (f)
Pois tu não podes mover-te para mais longe que meus pensamentos
And I am still with them, and they with thee. (e)
E eu estou ainda com eles, e eles contigo.
Or, if they sleep, thy picture in my sight (g)
Ou, se eles adormecem, teu retrato em minha visão
Awakes my heart to heart's and eye's delight. (g)
Desperta meu coração para o deleite do coração e do olho.
O soneto de Shakespeare apresentado acima fala da relação intrínseca entre olho e coração. Ambos estariam ligados no enamoramento e manteriam esse amor, mesmo que seu objeto estivesse longe, já que possuía um retrato da amada com o qual podiam banquetear-se tanto os olhos, quanto o coração. Este último chamando os olhos para que apreciem a imagem da amada no retrato.
No primeiro quarteto, o poeta fala do pacto estabelecido entre os olhos e o coração e coloca a condição em que se encontrariam ambos, os primeiros famintos para ver a amada e o segundo sufocando-se em suspiros de amor.
No segundo quarteto, já vendo o retrato, o poeta diz que o coração chama os olhos a olhar a imagem e estes últimos banqueteiam a si mesmos e ao coração com a vista daquela figura. Os olhos são convidados do coração para o banquete e tanto olho como coração tomam parte dos pensamentos de amor do poeta diante da amada em retrato.
No último quarteto, explica à amada que, por isso, tanto através do retrato dela quanto através do amor dele, ela está sempre presente, mesmo quando está longe. Isso porque ela não é capaz de ir para mais longe do que os pensamentos dele e estes estariam sempre com ela, pois seu amor faria com que ele sempre estivesse pensando nela.
No dístico, o poeta diz que mesmo que seus pensamentos, voltados para ela, adormecessem, o retrato dela estaria a vista para despertar seu coração para que deleitasse tanto aos olhos como ao próprio coração. Assim, ocorre a impressão de uma imagem cíclica, pois sempre que os pensamentos estivessem adormecendo, o coração chamaria os olhos para o banquete proporcionado pela imagem e estes últimos, sempre que vissem a imagem, banquetearia a ambos, pois seria através dos olhos que o amor chegaria ao coração, já que ele ocorreria pela visão do objeto de amor.