“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

SENSAÇÃO

Filed Under (contos) by Tânia on 13-05-2004

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     A passos largos, porém lentos, ela caminhava pelas ruas do bairro, rotina de todo final de tarde . Cabelos ao vento, pensamento longe e expressão vaga. Deliciando-se com uma barra de chocolate. Tinha recheio líquido. Adorava chocolates, principalmente os que tinham recheios líquidos. Laranja, uva, morango. Este era de morango. Colorido artificialmente. Sim, claro! Que morango teria aquela cor… tão vermelho quanto sangue, mas o cheiro era bom, ainda que não fosse realmente cheiro de morango. Talvez nem o gosto fosse real. Mas era bom.

   images Por que mesmo havia pensado nisso? Ah, sim. Como era artificial aquela imagem, aquelas palavras. Por que será que ele mentia? Não, ele não mentia, representava. Era um ótimo ator, excepcional! Mas pareceu tão natural. Por isso era um bom ator, óbvio! Até havia chegado a acreditar. Como saberia o que viria depois? Se soubesse teria dito “Eu preferiria que você não dissesse o que não tem certeza de que realmente quer e pretende fazer.”

   Na verdade, havia sido melhor assim. As coisas estão sempre melhores exatamente como são. Ela sentia-se feliz. Talvez um pouco só, mas com isso já estava acostumada. Sentir-se só… Você é sempre você, só você e você mesmo, mergulhado no mundo. Que engraçada essa idéia! É como a imagem de uma pessoa, meio boba, ingênua… tapada, mergulhada num líquido viscoso, denso, como nesses filmes de ficção!! Bobagens! Sempre pensava em bobagens, pensamentos absurdos. Quis afastá-los. Foi feliz por alguns minutos, mas depois, naturalmente, sem que notasse, os pensamentos voltaram.

   Nesse momento, terminava de comer deliciosamente a eterna barra de chocolate. O papel… o que faria com o papel? Essa calça não tem bolsos…

   É óbvio que seguraria até voltar para casa e jogaria na lixeira. Sim, a lixeira da rua, claro. Personalidade metódica, politicamente correta! E daí, pro inferno!

   Continuava caminhando… Olhava o chão. Todos os dias caminhava e olhava para o chão, mas nunca o tinha visto. Qual a diferença? A cada dia tem novas folhas, insetos asquerosos, provavelmente alguma cuspida! Como as pessoas são anti-higiênicas… nojentas! Lá vinha mais uma vez a maldita personalidade! “Anti-higiênica”!! Que tipo de pessoa usa esse vocabul… essa palavra, bastava dizer “porcas”! Sem que percebesse, novas expressões de seu vocabulário “formal” ressurgiam por entre as vilosidades  de seu cérebro atípico!

   Enrolava a embalagem do chocolate terminado nos dedos. Fazia cachos, dobrava, depois voltava a esticar. O papel rasgou numa das pontas. Pegou o pedaço rasgado e guardou dentro da própria embalagem restante. Não poderia sujar as ruas. Eram ruas sujas.

   Ainda olhava para o chão. Porque nada de novo acontece? Se o encontrasse na rua! Ele seria grosseiro. Não, grosseiro não, engraçado. Riria. Falaria sobre aquela noite. Ele mentiria. Não, representaria. Era um ator! Brigaria com ele. Ele acharia que era uma tola. Descobriria, na verdade. E realmente era verdade, sabia disso.

   Ouviu um barulho, passos. Levantou os olhos e viu uma silhueta, vinha em sua direção. Olhava contra a luz, por isso a sombra escondia a expressão. Hum, alguém passando na rua. Já era alguma coisa. Lembrava de outra vez que pensara que algo diferente podia acontecer: um homem apareceu por causa do barulho que faziam os cachorros das casas vizinhas. Ele pensou que estivesse levando um cachorro para passear. Veio falar sobre cachorros. Depois foi embora. Havia visto o tal homem outras vezes, mas apenas o cumprimentara.

   O homem que vinha pela rua se aproximava mais.

 

Seria alguém conhecido? Talvez alguém desagradável! Alguma daquelas pessoas que não param de falar; suas pernas doem pelo prolongado tempo que a inconveniente figura obriga-lhe a ficar de pé, parado. E, mesmo que se faça menção de continuar seu caminho, o absurdo ser acompanha-lhe os tímidos passos.

   Também podia ser alguém muito simpático e agradável, carismático mesmo, que lhe acompanharia por todo o trajeto numa conversa animada, lhe deixaria em casa e se tornaria um amigo. Sentia-se só.

   Agora podia ver a face do tal homem.

-          Boa noite.

-          Oi!

   Aquela voz! Conhecia aquela voz. E, por que dissera “oi”, “boa noite” é mais formal, mais adequado quando não se conhece a pessoa! O que importa!!

   Claro! Era a voz dele! Também se parecia muito com ele. Quer dizer, podia ser um pouco diferente. Não era boa fisionomista, nem do rosto dele podia se lembrar exatamente. Mas tinha certeza de que era parecido. E a voz… Seria algum parente? Perguntaria para ele mais tarde, quando o encontrasse.

   Ouviu um barulho. Água. Olhou em volta e percebeu a torneira aberta. Era um terreno baldio. Que desperdício! Entrou e fechou a torneira. A seu sapato, foram acrescentados alguns centímetros de barro, mas tinha valido a pena, a torneira parara de pingar. Se todas as pessoas fizessem o mesmo…

   Olha para trás. O transeunte havia desaparecido numa curva. A noite começava a mostrar suas feições. Algumas poucas estrelas desenhavam o céu, mas a lua não aparecera.

   Começa a esfregar e contorcer os dedos e a embalagem do delicioso chocolate. As pernas ficam amolecidas como se fossem feitas de areia macia e suave. Como se tivesse bebido um vinho doce. Num delírio mole, açucarado. Mas as mãos agitam-se e os olhos se movem de um lado para outro rápida e atentamente, como os de um animal predador.

   Segue seu caminho original com passos ágeis e firmes. Aquele homem…

   Agora já não lhe era mais possível tirá-lo do pensamento. Por que lhe enganavam? Por que ele precisava representar? Ele mentia. Mentiu para mim o tempo todo. Odiava aquele homem. Queria nunca tê-lo visto. Queria ser poupada de conhecer tão desprezível criatura. Podia não existir. Podia deixar de existir. A morte podia encontrá-lo no caminho de volta para casa. O inferno devia ser sua morada.

   O rancor contorcia sua face lisa e angelical. Seus olhos exprimiam ódio. Todo o erro, todo o egoísmo, toda a mágoa, toda a culpa possível a um ser humano perverso estavam em seu olhar faiscante.

   Onde estava? Que lugar era aquele? Que ruas eram aquelas? Estava perdida? Ele a fizera perder-se naquele labirinto de quarteirões! Como a fizera perder-se? Seu caminho era tão simples e óbvio. A segurança que a rotina sempre proporciona às pessoas, insanas ou não, desaparecera!

   Sentia medo! Tanto medo! Perseguiam-na! Observava desesperadamente em volta, sentindo-se espionada, constantemente vigiada, violada, por alguém, ou algum ser mitológico que sua consciência perturbada criara.

   Mas o ódio ainda corroe-lhe o pensamento. Seu raciocínio concentra-se em arquitetar crueldades. Idéias violentas tomam-lhe a alma num delírio demoníaco. Criativos instrumentos de tortura: dor, sofrimento. Crânio fraturado, miolos derramados, vômito de órgãos, sangria, múltiplas perfurações: Morte. Quantas opções!! Deliciar-se pela arte do homicídio!!

   Lá está ele! Aquela maldita figura cínica! Aquele sorriso patético que traduz o sarcasmo! A ironia de seu olhar arrogante é desprezível! Sua filosofia de vida!!

   Aproxima-se em passos ágeis e silenciosos. Percebe seus olhos felinos a mirá-la com desprezo arrogante. Não pôde conter sua ira diante daquele olhar, a indiferença.

   Ataca-o. Esgana-o furiosamente. Delicia-se com seu novo olhar. Agora é surpreso, assustado! Submeta-se, batráquio!

   Sente seu espírito completar-se enquanto suas mãos, com força descomunal, sugam-lhe a vida por entre os dedos, lentamente. Era como se penetrasse as mãos em seu interior. Ele tosse desesperadamente com feições de desespero e pavor liberando, pelas narinas, pedaços de cartilagem de sua traquéia. Os olhos, com vasos pavorosamente dilatados, arregalados diante dos seus, altivos. Ele baba incessantemente. Suas roupas ficam encharcadas de saliva e sangue, obtendo-se um líquido naturalmente colorido e doce, ferroso, o cheiro suave penetrava-lhe extasiadamente atingindo-lhe os pulmões, a purificação. Sente a paz dominar-lhe a alma num êxtase entorpecente. Solta-lhe a jugular, deixando-o cair, já sem vida. Através da dormência dessa sensação entrega-se à semiconsciência encantadoramente.

   Vaga pelas ruas sentindo lentamente que voltava a raciocinar logicamente. Nota que o papel do chocolate está no chão.

    Nossa! Como estava distraída! Volta a pegar a infinda embalagem e enrola-la entre os dedos suados. Nem estava atenta ao caminho percorrido. Estranho! Não. Comum. Sempre a perder-se em pensamentos, divagando inconscientemente e esquecendo do caminho para entregar-se plenamente a devaneios. Mas as pernas nunca traem a confiança que se as deposita, levam-nos sempre pelas mesmas ruas!!

   Sente-se bem. A endorfina dominava-lhe o corpo e essa sensação confortante durou algum tempo.

   Depois de ter flutuado na leve nuvem da entorpescência, gradativamente, volta ao estado anormal de sua consciência…  

   Apressa os passos. Olha em volta com desconfiança. Era tarde, precisava voltar. As ruas podiam ser perigosas àquela hora.

   Ouve passos acompanharem os seus num eco constante. Volta-se para trás. Ninguém… Nada… Lembra-se da letra de uma música. Sente-se parte daquelas palavras! Apavora-se. No escuro iluminado das ruas. Sempre tivera receio no escuro! Onde tudo o que há parece não igualmente haver. Onde o desconhecido é sempre desconfiado. Onde o mistério está em não se saber o que há realmente, mesmo se até de olhos fechados, durante a radiante luz do sol, pudesse andar tranqüilamente sem nem mesmo tropeçar, sem temer…

    Há um carro alguns metros à frente. Um carro cinza. Ou talvez não. Talvez seja a noite contorcendo-lhe o colorido, levando-o ao inevitável cinza dos bastonetes, que insistem em enganar-nos todas as noites! Estava sempre ali parada, inerente, inexorável. Uma lâmpada piscava…

   Os passos mantinham seu eco. Talvez aquele ser pudesse mimetizar-se no sombrio movimento das sombras noturnas. Podia meter-se por entre as árvores da calçada quando virasse.

    Passa a caminhar mais rápido. Talvez não houvesse apenas um! Sente-os por toda a parte, como olhos introspectivos a observá-la hipnoticamente esperando o exato momento do bote! Olhos ofídicos no escuro.

   Aumenta ainda mais a velocidade de seus passos chegando num estado frenético de “quase-correr”. As pernas tremem, o enorme esforço que faz para movê-las eleva sua respiração ao ofegante. Os músculos, estafados, já não obedecem. Falseia e cai.

    Rastejante, mantém o curso pelo impulso dos braços, com as garras plenamente inerentes ao solo. O carro estava próximo…

    Muito próximo…

    Está ao seu lado!

    Na rua, a lâmpada ainda piscava… Bruscamente, a lâmpada do poste seguinte à que piscava se apaga. Uma chama azul risca o céu.

   Escorrendo-se, entra no carro. Trava as portas. Segura.

   Lentamente recuperando as forças, respirando ar quente e seco do interior do carro cinza. Pende a cabeça para trás num sinal de relaxamento, alívio. Pousa a mão esquerda ao lado e sente entre os dedos que toca uma mão. Ele está aqui!! Encorajada pela fúria, dirige, violentamente, seus olhos para o lado. O que avista é um corpo humano imundo. Morto.

   A sensação daquela mão! Gélida, mole, ensangüentada! Não suportava o sangue! Aterroriza-a. Num desespero compulsivo, joga-se contra a porta, desesperadamente a destrava. Desaba no chão e, com agonia terrível, corre inconscientemente o mais rápido que suas pernas lhe permitem.

   Cansando-se e acalmando-se, diminui a velocidade lentamente, até que pára. A embalagem do suave chocolate escorre-lhe por entre os dedos. Observa-o por alguns segundos. Abaixa-se e, novamente, o tem nas mãos. O açúcar pode ter estranhos efeitos adversos sobre o corpo, efeitos colaterais.

    Passa a caminhar lenta e gostosamente pela rua. Avista a lixeira da rua. Enfim poderá livrar-se da perecível embalagem.

   Talvez pergunte se ele tem algum parente parecido. Ou não…

   Chegando, abre a lixeira e nela deposita a finita embalagem e a esquece.

    Precisa entrar. Fecha o portão com o cadeado. É tarde. Nunca se sabe quem anda pelas ruas à essa hora… 

 

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