RAÇA E IDENTIDADE NACIONAL: uma nação mestiça
Filed Under (opinião) by Tânia on 28-12-2002
Tagged Under : identidade nacional, mestiçagem, raça
1. Mestiçagem e identidade nacional
A questão da mestiçagem de raças é considerada um dos principais elementos que compõe a identidade nacional. Mas será essa questão tão simples?
A idéia de raça em si já parece ser bastante controversa. Quais os critérios utilizados para se distinguir as diferentes raças? A cor? O tamanho do crânio? As feições do rosto? Seriam esses critérios científicos ou meramente “achismo”?
Hoje ou há séculos atrás, certamente houve mestiçagem entre povos diferentes, vindos de regiões diferentes; então, como falar em pureza de raça? Não existindo tal pureza, a própria idéia da existência de raças da forma como se pensa é insustentável. Sendo assim, percebe-se que esta, obviamente, não é uma questão biológica.
É uma questão social. Se acreditarmos que existem raças diferentes, torna-se possível distanciar de si qualquer outro grupo diferente em qualquer aspecto que se deseje delinear. Mas deixemos essa questão para ser discutida posteriormente.
As razões que se buscaram para validar a idéia da existência de raças são, em geral, físicas, embora não se estabeleçam critérios muito precisos. A diferença sustentaria os argumentos, mesmo os aparentemente absurdos. É claro que se deve considerar que esses pensamentos foram fruto de uma época específica, quando as idéias e conhecimentos que se tinham eram bastante diversos dos que se tem hoje. Esses pensamentos, como parte do passado, influenciaram o presente e, por isso, nos permitem entender o caminho que se percorreu até que se chegasse aos pensamentos da atualidade; existem também as antigas teorias que persistem até hoje. Algumas dessas teorias e pensamentos serão analisados mais adiante.
Então, se a mestiçagem pode ser considerada um fato, seja no Brasil, seja em qualquer lugar do mundo, por que é tida como um dos traços da identidade nacional brasileira numa busca de unir os brasileiros em algo comum?
Essa não é uma questão fácil de ser respondida e nem se pretende fazê-lo aqui, mas é importante que se reflita sobre o assunto para que não se tenha a idéia de nação mestiça como algo natural, mas sim construída historicamente por um processo bastante contraditório.
Uma dessas contradições toca a questão de, ao mesmo tempo em que se admite os elementos negro e indígena como partes importantes na constituição da nacionalidade através da mestiçagem, se lhes negar igualdade na hierarquia social, seja explicita ou implicitamente. Vejamos de que forma isso aconteceu ao longo da história.
2. A questão das raças no Brasil do século XIX
A questão racial foi insistentemente abordada ao longo do século XIX. Muitas idéias foram colocadas a esse respeito. A seguir veremos a questão sob a perspectiva de diferentes autores, os quais Lilia Moritz Schwarcz, Sílvio Romero, Nina Rodrigues e Lima Barreto, através de ensaios dos três primeiros e do romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” do último.
O texto aqui abordado, “Uma história de diferenças e desigualdades – as doutrinas raciais do século XIX” do livro “O espetáculo das raças” trata das principais teorias raciais do século XIX e da influência dos pensadores do século XVIII.
Primeiramente, a autora discute as idéias de alguns pensadores sobre os selvagens da América no século XVIII. É neste século que são vistos como primitivos, tornando-se “objetos privilegiados para a nova percepção que reduzia a humanidade a uma espécie, uma única evolução e uma possível ‘perfectibilidade’”.
Rosseau acreditava na superioridade dos selvagens em detrimento da sociedade civilizada. Os “vícios” da civilização causariam as desigualdades entre os homens, por isso os selvagens seria possuidores da “bondade original da natureza humana”.
A partir da segunda metade do século XVIII, idéias opostas surgem: “ a da suposta inferioridade física do continente, e de uma conseqüente debilidade natural de suas espécies… todos condenados por natureza a uma decadência irresistível, a uma corrupção fatal” (Gerbi 1982: IX apud Schwarcz, 1993: 46) Os pensadores citados são Buffon, com sua tese da “infantilidade do continente” e o mais radical De Pauw com a da “degeneração americana”.
No século XIX, a última postura, baseada nas diferenças entre os homens e não na igualdade, como na época da Revolução Francesa, torna-se mais influente. É no início desse século que surge o termo raça na literatura especializada; assim introduz-se a idéia da existência de heranças físicas permanentes entre os grupos humanos.
Surgem, então, de forma mais definida, modelos opostos aos do Iluminismo sobre as origens da humanidade. De um lado, temos a visão monogenista que pensava a humanidade como um gradiente que ia do mais perfeito ao menos perfeito, e a visão poligenista que paria da crença na existência de vários centros de criação correspondentes às diferenças raciais.
A última hipótese foi fortalecida pelo surgimento da frenologia e antropometria que interpretavam a capacidade humana pelo tamanho e proporção do cérebro de diferentes povos. Outra hipótese, também de modelo determinista, era a antropologia criminal que acreditava que a criminalidade fosse um fenômeno físico e hereditário.
Esses cientistas queriam comprovar, através da análise do crânio, a relação entre inferioridade física e mental. Pretendiam reconstruir as “raças puras” e condenavam a hibridização humana sob o argumento de uma suposta esterilidade das “espécies miscigenadas”.
A autora assim resume o debate entre monogenistas e poligenistas na tentativa de explicar a origem humana:
“A divisão institucional explicitava, portanto, diversidades fundamentais na definição e compreensão da humanidade. Enquanto as ‘sociedades antropológicas’ pregavam a noção da ‘imutabilidade dos tipos humanos’ – e no limite das próprias sociedades –, os estabelecimentos ‘etnológicos’ mantinham-se fiéis à hipótese do ‘aprimoramento evolutivo das raças’.”
Em 1859, com a divulgação de A Origem das Espécies de Charles Darwin, diminuíram essas antigas disputas. Os monogenistas continuam a hierarquizar povos em função de seus níveis mentais e morais de acordo com o suposto evolucionista da origem da humanidade. Os poligenistas, por sua vez, admitiam a existência de ancestrais comuns, mas afirmavam que as espécies humanas tinham se separado há muito tempo e por isso configurado “heranças e aptidões diversas”.
As idéias de Darwin tiveram grande impacto na época e foram além da biologia, sendo aplicadas nas áreas sociais como a sociologia, economia, antropologia, história e teoria política. Inclusive, muitas vezes, as interpretações da obra se desviavam do perfil original e os conceitos eram utilizados para que se analisasse o comportamento das sociedades humanas.
A questão da mistura de raças na versão poligenista apontava para a “degeneração” devido ao cruzamento de diferentes espécies. Alguns diziam serem, os mestiços, inférteis a exemplo da mula; outros lastimavam sua extrema fertilidade e acreditavam que os híbridos herdavam sempre as características negativas das raças cruzadas. De qualquer forma, a miscigenação não era bem vista.
A cultura vista sob a ótica evolucionista através da antropologia cultural ou etnologia social, era tida como um desenvolvimento progressivo que desembocava na civilização. Esse desenvolvimento não eram vistos como específicos de uma sociedade, mas como passagem obrigatória para todas elas.
Juntamente ao evolucionismo social, tornaram-se influentes o determinismo geográfico e o racial. O primeiro defendia a idéia de que o meio condicionaria o desenvolvimento cultural, enquanto o segundo acreditava que “não se transmitiriam caracteres adquiridos” mesmo que por meio de um processo de evolução social, portanto, a miscigenação era vista de maneira pessimista.
Havia três proposições que se opunham à visão etnológica. A autora assim as resume:
“A primeira tese afirmava a realidade das raças, estabelecendo que existiria entre as raças humanas a mesma distância encontrada entre o cavalo e o asno, o que pressupunha também uma condenação ao cruzamento racial. A segunda máxima instituía uma continuidade entre caracteres físicos e morais, determinando que a divisão do mundo entre raças corresponderia a uma divisão entre culturas. Um terceiro aspecto desse mesmo pensamento determinista aponta para a preponderância do grupo “racio-cultural” ou étnico no comportamento do sujeito, conformando-se enquanto uma doutrina de psicologia coletiva, hostil à idéia do arbítrio do indivíduo.”
Dessas idéias sobre as raças surgiu o ideal político da eugenia que visava intervir na reprodução das populações humanas. Francis Galton, autor de Hereditary genius, considerado fundador da eugenia, procurava provar que a capacidade humana dependia da hereditariedade.
Com a eugenia, a hipótese evolucionista acaba sendo deixada de lado já que a idéia de degeneração tomava o lugar da de evolução para explicar os caminhos do progresso ocidental. A miscigenação ‘definitivamente vista como sinal de decadência enquanto a “perfectibilidade” seria atributo das “raças civilizadas”, enquanto as demais raças seriam “não-civilizáveis”.
Além disso, dois conceitos são redefinidos: o de desigualdade e o de diferença. A autora assim os explica:
“A noção de desigualdade implicaria a continuidade da concepção humanista de uma unidade humana indivisível, somente marcada por dissimilitudes acidentais contingentes. As diversidades existentes entre os homens seriam apenas transitórias e remediáveis pela ação do tempo ou modificáveis mediante o contato cultural. Já o conceito de diferença levaria à sugestão de que existiriam espécies humanas ontologicamente diversas, as quais não compartilhariam de uma única linha de desenvolvimento. As diferenças observadas na humanidade seriam, portanto, definitivas e irreparáveis transformando-se a igualdade em um problema ilusório.”
Esses conceitos servem as escolas da época, sendo que os evolucionistas sociais acreditam na “desigualdade” entre os homens em seu desenvolvimento e os darwinistas sociais diziam serem os homens divididos pela “diferença” como espécie. Assim, temos esses dois grupos bem delineados; os primeiros adeptos ao monogenismo e os últimos ao poligenismo.
Em torno da noção de “diferença”, alguns teóricos raciais poligenistas farão “uma ponte entre a interpretação darwinista social e as conclusões racistas”. A autora comenta a respeito de quatro deles: Renan, Le Bon, Taine e Gobineau.
Renan acreditava na existência de três raças (branca negra e amarela)e que os miscigenados, negros e amarelos seriam inferiores por serem incivilizáveis. A teoria de Le Bon relacionava as raças humanas com espécies animais, além de ser adepto da “psicologia social” que entendia o grupo como determinante do comportamento do indivíduo. Taine teorizava que nenhum fenômeno poderia ocorrer sem que fosse motivado por uma causa exterior. Gobineau também condenava o arbítrio do indivíduo, mas incluía a noção de “degeneração da raça” que ocorreria devido à miscigenação. Este último autor ia ainda mais além dizendo que as raças mestiças, ao contrário das raças “puras” (mesmo as consideradas inferiores), eram desequilibradas e instáveis.
É interessante observar que essas visões sobre a mestiçagem caracterizam uma ruptura com Darwin já que este chegou a afirmar, no caso da biologia, que as espécies híbridas seriam mais resistentes. As idéias que surgem sobre o assunto tomam caminhos diferentes da proposição original, inclusive até sendo incoerentes com relação a ela.
Enfim, a partir dessas discussões, podemos notar que a questão das diferenças entre os seres humanos passa a ser freqüentemente abordada e a preocupação com o assunto arrasta o debate por caminhos muitas vezes conflitantes e contraditórios.
Veremos, a seguir, através de diferentes autores que o Brasil participava desses debates de maneira bastante peculiar. Isso porque o darwinismo social combinou-se à perspectiva evolucionista e monogenista; o modelo racial era utilizado na explicação das diferenças e hierarquias, mas tentava-se viabilizar a idéia de uma nação mestiça.
2.2 Sílvio Romero
O texto em questão é o capítulo sobre as raças que se encontra no livro “História da Literatura Brasileira”. Nele estão contidas algumas idéias que circulavam na época, embora não fossem consensuais.
Nesse texto, o autor questiona a idéia, muito discutida na época, de que a própria Europa era miscigenada pelo fato de haver misturas entre as diferentes etnias. Para ele, essas seriam variantes da raça ariana, por isso teriam algo em comum, ao contrário das raças negra e indígena.
É bastante curioso que se agrupem todos os europeus como fazendo parte da raça ariana; não se sabe quais os critérios utilizados para que isso seja feito já que as diferenças físicas entre os diferentes grupos europeus são bastante perceptíveis. Parece-me que, mesmo tais diferenças sendo óbvias para nós, não o fossem para eles.
O contato entre europeus diferentes uns dos outros era muito próximo, tomando-se suas feições como aparentemente comuns, sendo algo ligado a um passado comum. Os negros e indígenas não tinham esse contato histórico tão fortemente constituído, por isso considerá-los realmente diferentes, sem uma ligação real com os chamados arianos. Sendo assim, parece que o critério de separação entre arianos e outras raças é terem um passado comum lembrado e/ou acreditado pelos europeus. O que hoje nos parece, no mínimo, vago.
Outra questão comentada pelo autor são as diferenças entre a colonização anglo-saxã e ibero-latina no tocante à integração das diferentes raças. No Brasil, por exemplo, os negros e indígenas teriam se integrado ao restante da população através do cruzamento entre as diferentes raças, daí a idéia de uma nação mestiça. No caso norte-americano, os negros e indígenas teriam ficado isolados e/ou marginalizados da sociedade criada pelos originariamente europeus. Essa é uma idéia que ainda hoje tem força quando se discute racismo, por exemplo.
A partir dessa noção de nação mestiça, o autor diz que o Brasil estaria construindo o que chama de “raça histórica”, já que raças muito diferentes se misturaram. Estaria havendo a formação de uma nova raça a partir da miscigenação ocorrida devido ao processo histórico que o país atravessou.
Com isso, passa a descrever as características das três raças consideradas como constituintes dessa miscigenação ocorrida no país em busca de recuperar os traços que descreveriam a nova raça formada.
Os portugueses são vistos como “um povo serenamente equilibrado, docemente alegre e expansivo”, “gente farta e feliz, sem extravagâncias de temperamento, sem monstruosidades de caráter” e “povo apaziguado, brando de índole, avesso a tiranias e crueldades”, mas “não muito inventivos e empreendedores”. Além disso, deveríamos a eles a língua, a religião, o direito, a arte, a poesia, a literatura, etc.
Os índios são tomados como um povo bastante atrasado; são descritas sua religião, política, indústria como formas precárias de organização social e cultural. Mas, o mais interessante é a descrição de seu “lado psicológico”: com sentidos aguçados, tratando-os da mesma forma de quando se fala , por exemplo, do olfato de um cachorro.
O autor enumera as heranças culturais vindas dos índios:
“Aos índios deve a nossa gente atual, especialmente nas paragens em que mais cruzaram, como é o caso no centro, norte, oeste e leste e mesmo sul do país, muitos dos conhecimentos e instrumentos da caça e da pesca, várias plantas alimentares e medicinais, muitas palavras da linguagem corrente, muitos costumes locais, alguns fenômenos da mítica popular, várias danças plebéias e certo influxo na poesia anônima, especialmente no ciclo de romances de vaqueiros …”
É interessante notar que a contribuição dos índios é vista, ao contrário dos portugueses (a quem devemos a língua, a religião, o direito, a arte, a poesia, a literatura…), como algo inferior, restringindo-se ao âmbito regional e sempre popular, nunca a áreas consideradas eruditas.
Com relação aos traços de personalidade, os índios teriam influenciado os sertanejos que teriam “o ânimo triste, resignado, resistente, mas com tendência à depredação” e teriam herdado a já referida “acuidade dos sentidos, extraordinária em tais gentes.”
E, finalmente, os negros. Esses são descritos como mais adiantados do que os indígenas. São considerados “mais expansivos”, de “ânimo mais alegre, mais sadios, mais robustos, mais resistentes”.
O autor admite que são, juntamente com os mestiços, a maior parte da população, mas não sem dizer que o elemento português e europeu deve ser espalhado pelas diversas regiões para que se mude tal situação.
A contribuição dos negros para o país viria através dos mestiços: alguns jornalistas, oradores, jurisconsultos, poetas, artistas. É interessante notar que o autor faz questão de colocar que são os mestiços os envolvidos com a arte e a erudição e não os negros.
Com relação à mestiçagem, o autor diz ser ilusão de “românticos fantasistas” que os “tipos cruzados” sejam superiores. Discute a questão da infecundidade dos mestiços: os portugueses e espanhóis seriam “morenos do meio-dia”, por isso menos afastados de negros e índios, por isso seriam fecundos.
O mestiçamento é tido como vantajoso pelos motivos apontados pelo autor:
“a) para a formação de uma população aclimada ao novo meio; b) para favorecer a civilização das duas raças menos avançadas; c) para preparar a possível unidade da geração futura, que jamais se daria se os três povos permanecessem isolados em face um do outro sem se cruzarem; d) para desenvolver as faculdades estéticas da imaginativa e do sentimento…”
Por outro lado, o autor diz que o mestiçamento é uma das causas “de certa instabilidade moral na população, pela desarmonia das índoles e das aspirações do povo”. As raças inferiores teriam trazido para o povo mestiçado a sua marca de inferioridade suavizada pela presença das marcas da raça superior. O autor diz, ainda, que esses “defeitos” poderiam ser “reduzidos por uma severa educação”.
É bastante curioso notar nesse texto o esforço feito pelo autor para abrandar as idéias negativas sobre as raças chamadas inferiores e os mestiços. O autor analisado a seguir, pelo contrário, parece ver tais questões com mais negatividade e de forma menos branda.
2.3 Nina Rodrigues
Aqui trataremos dos capítulos “A população brasileira do ponto de vista da psicologia criminal. Índios e negros” e “A população brasileira do ponto de vista da psicologia criminal. Os mestiços” do livro “As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil”.
Mais radical e pessimista em suas idéias sobre negros, índios e mestiços do que Silvio Romero, Nina Rodrigues defende que as pessoas de raças inferiores não poderiam ser julgadas da mesma forma que as da raça superior, já que não teriam o discernimento para tomar decisões como a de cometer ou não um crime. Isso ocorreria por não serem civilizados.
No caso de índios domesticados e negros escravos, o autor vai além: não acredita que a simples convivência com o branco pudesse civilizá-los; eles teriam medo de reprimendas, mas não teriam consciência de seus atos. Acredita na inferioridade cultural do negro e do indígena; seriam raças incivilizáveis.
Para apoiar sua tese, o autor utiliza várias das teorias já discutidas anteriormente. Une várias das teses dos pensadores evolucionistas sociais e darwinistas sociais que estavam em voga na época, além de idéias de brasileiros também influenciados por esse debate.
Ainda com relação à possibilidade de civilização do negro, o autor faz uma interpretação ligada aos pensamentos de darwinistas sociais muito interessante do seguinte trecho: “um negro disse um dia a viajantes brancos, que a civilisação branca era boa para os brancos, má para o negros.” (pg. 120). O autor toma tal fala do negro como se ele admitisse ser incivilizável, não como se sua civilização fosse apenas diferente.
Ao mesmo tempo, repete as idéias do evolucionismo social, como no trecho “… a desigualdade biologica e social com que a natureza marcou os differentes graos da evolução dos povos”(pg. 129).
O autor ainda afirma que a imposição da adaptação de uma população inferior à convivência numa civilização superior causaria perturbações:
“O desequilibrio, a perturbação phychica provocada por uma adaptação imposta e forçada de espiritos ainda tão atrazados a uma civilisação superior: a solicitação do grande esforço mental, exigido pela actual lucta pela existencia social, com certeza hão de crear entre nós nas raças inferiores, vestidas de um momento para outro a povos civilisados, typos muito menos normaes do que era o do caso dos Dsr. Motet e Brouardel.” (pg. 129)
Com relação aos mestiços, são considerados degenerados devido ao fato de serem fruto do cruzamento de duas raças supostamente muito dessemelhantes. As características transmitidas seriam as piores das raças cruzadas. Além disso, acredita na esterilidade do tipo mestiço.
A hibridização de raças muito diferentes geraria indivíduos que não poderiam viver nem como a raça superior nem como a inferior:
“A julgar por certos factos, a mistura entre raças de homens muito dessemelhantes parece produzir um typo mental sem valor, que não serve nem para o modo de viver da raça superior, nem para o da raça inferior, que não presta emfim para genero algum de vida” (pg. 133).
O autor diz que “o mestiçamento no Brazil confirma e exemplifica estas previsões”. A “psicologia do brasileiro” explicaria o atraso do país. Por outro lado, os mestiços de negros são considerados intelectualmente superiores a todos os outros mestiços e os que “tendem a voltar a qualquer das raça puras, quer a branca principalmente, quer mesmo a negra” seriam superiores aos “verdadeiros mulatos”. Estaria aí a salvação do país: o branqueamento.
Ainda, segundo ele, os mestiços seriam distribuídos em três grupos: mestiços superiores, mestiços evidentemente degenerados e mestiços comuns. Nos primeiros, predominaria a raça civilizada ou teria havido uma “combinação mental feliz”; os segundos seriam as “variedades doentias da espécie”; e os terceiros seriam “socialmente aproveitáveis”, superiores aos selvagens dos quais provieram, mas ainda não equiparáveis à raça superior.
É interessante notar a contradição presente na afirmação de que os mestiço seriam degenerados, mas mesmo assim, superiores à “raça pura” inferior que o teria gerado. Seria uma degeneração da raça superior, mas talvez uma “melhora” da inferior.
É curiosa a posição do autor, já que se vê como um defensor dos interesses dessas raças inferiores; afinal, ele acredita que, por motivos que os inferiorizam e tiram-lhes o arbítrio, negros, índios e mestiços devem ter sua responsabilidade penal atenuada.
2.4 Lima Barreto
Falemos aqui, primeiramente, um pouco a respeito do autor, já que “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” possui traços nitidamente autobiográficos. Lima Barreto tinha grande admiração pelo pai que desejava vê-lo doutor, assim como seu personagem Isaías Caminha. Ambos têm em comum, também, a desilusão com a imprensa e os “intelectuais” que dela fazem parte.
O pai de Lima Barreto, João Henriques, não conseguiu completar seus estudos para tornar-se médico, então queria ver o filho com o título de doutor. Para isso, Lima Barreto freqüentou o curso de engenharia civil na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, o qual não chegou a completar. Foi lá que tomou consciência do peso das diferenças de classe social. Por ser um estranho naquele meio, sentiu de perto a hostilidade e o preconceito. Essa tomada de consciência parece também transposta para seu personagem Isaías Caminha quando chega ao Rio de Janeiro para estudar.
Outro dado interessante é o fato de Lima Barreto ter trabalhado no jornal Correio da Manhã, ao qual, como parte importante da imprensa da época, critica no romance através do jornal O Globo, no qual Isaías passa a trabalhar e perceber a hipocrisia do meio intelectual que tanto admirava. O personagem nota como era falsa a suposta intelectualidade dos membros de O Globo. São vistos pelo escrivão como inferiores a ele, satirizados por não possuírem a cultura que ele adquirira. Mesmo assim, gozavam de um status do qual ele não desfrutava.
Isaías Caminha considerava-se culto e, portanto, diferente. Quando chega ao Rio de Janeiro e vê-se em determinadas situações, não compreende porque aquilo acontece; procura razões e não as enxerga. Ao longo do tempo, percebe que os negros não são vistos nem tratados da mesma forma que os brancos. As pessoas envolta dele espantavam-se quando dizia ser estudante e olhavam-no com desprezo como se fosse um arrogante tentando ser o que jamais seria pelo fato de ser negro.
Algumas passagens do livro mostram bem esse preconceito. No início do romance, quando Isaías viaja rumo ao Rio de Janeiro, pára numa estação para tomar café e lá demoram a entregar-lhe o troco. Quando reclama, respondem-lhe grosseiramente. Também demoram a entrega-lo a um “alourado” que também reclama, mas o tratamento dados a ele é bastante diverso. Isaías procura em si razões para tal diferença, suas roupas, sua pessoa.
Mais adiante, quando Isaías está sentado num banco no Passeio Público lendo e uma “rapariga de cor” senta-se a lado dele, Isaías a olha e volta a ler indiferente. Ela pergunta-lhe algo que ele responde sem se voltar, ela debocha dele dizendo que “pensa mesmo que é doutor”.
Já no final do romance, Isaías, por ter presenciado uma cena de orgia do dono do jornal, torna-se seu amigo e protegido. Enquanto se conhecem melhor, Isaías percebe o quanto é espantoso para o outro que, mesmo sendo negro, possa ter tido família e educação:
“Percebi que o espantava muito o dizer-lhe que tivera mãe, que nascera num ambiente familiar e que me educara. Isso, para ele, era extraordinário. O que me parecia extraordinário nas minhas aventuras, ele achava natural; mas ter eu mãe que me ensinasse a comer com o garfo, isso era excepcional. Só atinei com esse seu íntimo pensamento mais tarde. Para ele, como para toda a gente mais ou menos letrada do Brasil, os homens e as mulheres do meu nascimento são todos iguais, mais iguais ainda que os cães de suas chácaras. Os homens são uns malandros, planistas, parlapatões quando aprendem alguma coisa, fósforos dos politicões; as mulheres (a noção mais simples) são naturalmente fêmeas.”
Mesmo Isaías estando numa melhor posição por ter se tornado amigo de Loberant, o dono de O Globo, ainda percebe o quanto é diferente e não se encaixa naquela sociedade:
“Eu sentia bem o falso da minha posição, a minha exceção naquele mundo; sentia também que não me parecia com nenhum outro, que não era capaz de me soldar a nenhum e que, desajeitado para me adaptar, era incapaz de tomar posição, importância e nome.”
A posição do negro na sociedade brasileira da época era bastante complicada; era marcante a forte influência das teorias raciais no pensamento dos integrantes da sociedade. Alguns mestiços já conseguiam algum espaço no meio intelectual, como é, por exemplo, o caso do próprio Lima Barreto; mas, como explicita bem a fala do personagem Isaías Caminha transcrita acima, havia algo de falso nessa situação e esses negros e mulatos eram vistos como exceções a uma regra criada para privilegiar aos brancos.
Talvez o negro citado por Nina Rodrigues tivesse razão: “a civilização branca é boa para o branco, má para o negro”, mas não porque os negros não eram capazes de viver em uma sociedade civilizada, e sim porque os brancos tiravam-lhes o direito de serem como eles, tiravam-lhes a igualdade da qual se falava na época do Iluminismo.
3. A imagem da nação mestiça de hoje
O Brasil, hoje, é tido como um país onde a miscigenação foi bastante presente; não só de negros, índios e portugueses como de outros que, posteriormente, migraram para o país. Porém, quando se fala em miscigenação o que se tem em mente, em geral, é a do negro com branco, sendo, por exemplo, a mulata considerada o modelo da mulher brasileira.
São, também, as heranças culturais negras as mais lembradas, mesmo que não sejam propriamente africanas. É o caso, por exemplo, da capoeira e do samba. São vistos como algo tipicamente nacional, mas com forte influência negra. Vê-se, assim, o negro como o principal elemento de miscigenação.
Ao contrário, os índios são freqüentemente esquecidos. Pensa-se neles como uma presença regional ligada à Amazônia e à região norte do país; muitas vezes, não como algo propriamente nacional. É como se o índio não se tivesse miscigenado, mas sido exterminado no passado, e os resquícios de sua sociedade que restaram estivessem perdidos nas reservas indígenas e nomes de rodovias e estradas.
Mas, ainda que os negros sejam considerados como essenciais na formação do tipo nacional brasileiro, eles são freqüentemente discriminados na sociedade brasileira. Algumas vezes, através dos velhos discursos racistas que bem conhecemos; mas, na maioria das vezes, são hipocritamente aceitos nos discursos politicamente corretos e excluídos no funcionamento real da sociedade.
Exemplo disso é o fato do salário de um negro, ocupando a mesma posição do que um branco, ser consideravelmente menor. Ou, pior ainda, a maior parte dos mais altos cargos serem ocupados por brancos enquanto os mais baixos o são por negros. Na hora de dividir a sociedade hierarquicamente, ela não é exatamente miscigenada, mas sim mulata e branca.
Uma outra idéia de miscigenação também povoa hoje os pensamentos das pessoas. Atualmente, tanto quanto ao tipo físico como ao cultural, inclui-se não só a visão de miscigenação do negro com branco, mas também de diversos povos europeus imigrantes, em especial em São Paulo e nos estados do sul do país; além, é claro, de japoneses, chineses e coreanos que têm freqüentemente migrado principalmente para esses estados, o que também fortalece a idéia de povo mestiço. Além da idéia de ser, o Brasil, um país que está sempre disposto a receber com hospitalidade qualquer um que deseje aqui se instalar.
O Brasil, então, passa a ser visto como uma nação mestiça não só por sua formação histórica que unia portugueses, índios e negros, mas também por receber povos de todos os lugares do mundo sem segregacionismos, sendo que esses povos rapidamente se misturavam e mesmo se auto-intitulavam como “brasileiros”.
Bibliografia
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 2002.
RODRIGUES, Nina. A população brasileira do ponto de vista da psicologia criminal. Índios e negros e A população brasileira do ponto de vista da psicologia criminal. Os mestiços, in: As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. Bahia: Imprensa Econômica 1894.
ROMERO, Sílvio. As Raças, in: Compêndio de História da Literatura Brasileira. Organização Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro: Imago, Universidade Federal do Sergipe, 2001.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Uma História de “diferenças e desigualdades” – As doutrinas raciais do século XIX, in: O Espetáculo das Raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.