“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

O FOCO NARRATIVO EM “DOM CASMURRO”

Filed Under (livros) by Tânia on 09-12-2004

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Escrito em primeira pessoa, o romance Dom Casmurro nos apresenta o narrador como uma personagem que relata sua própria vida através de sua visão particular da mesma, tentando convencer ao leitor e a si mesmo da traição que sua mulher teria cometido.

           dom-casmurro Essa estrutura narrativa tem importantes implicações para a interpretação do romance, já que o narrador nos conta uma versão sua da história, dando margem à desconfiança de que seja realmente o que teria acontecido, não só por tentar provar determinado ponto de vista, mas também por fazer parecer, subjetiva e implicitamente em alguns momentos, que ele mesmo (o narrador) não pensa exatamente o que diz, mas sim tenta se convencer, através do convencimento do leitor, de que agiu corretamente estragando seu casamento, pois Capitu o havia realmente traído. Como ele mesmo não parece certo disso, precisa de constante reafirmação de sua versão construída, pois assumir que poderia estar enganado implicaria na possibilidade de ter causado sua própria infelicidade à toa, por ciúme e excesso de imaginação.

            Para criar tal complexidade no esquema de narração, Machado utilizou-se da humanidade e, portanto, falibilidade de seu personagem colocando-o como um narrador parcial e portador de características em sua personalidade que tornam seu depoimento duvidoso. Dessa forma, consegue uma enorme quantidade de interpretações possíveis da questão central do romance e da caracterização das personagens, sendo que nenhuma consegue ser definitiva. Tudo são possibilidades; a dúvida é a impressão geral alcançada.

            Duas características da narrativa são especialmente importantes para esse efeito: a questão do narrador que é uma personagem e a organização temporal do romance. Ambas serão mais cuidadosamente analisadas a seguir.

NARRADOR-PERSONAGEM

 

            Como já foi dito, o fato de o narrador ser também uma personagem nos leva a desconfiar do que diz e também perceber o desespero trazido pela dúvida que o leva à tentativa de tornar sua visão uma conclusão definitiva. Porém essa tentativa passa por momentos de falta de firmeza em suas convicções, principalmente quando Dom Casmurro é tomado pelas emoções da recordação de determinados momentos de seu passado. Nesses momentos, por alguns instantes, parece se esquecer do objetivo de provar a traição da mulher e deixa que essas emoções transpareçam para o leitor que tem a oportunidade de ver em Dom Casmurro, o Bento Santiago adolescente, tão apaixonado e imaginativo.

            Se, em alguns momentos, Dom Casmurro e Bento Santiago parecem personagens diferentes – um ingênuo e apaixonado, o outro ensimesmado e ciumento – em outros, parecem indissociáveis. A tentativa de distanciá-los nos aparece como mais uma das manipulações de Dom Casmurro para tornar seu ponto de vista mais verossímil, já que se víssemos Dom Casmurro em Bento Santiago adolescente veríamos nesse último também o ciúme e a malícia, que são características que lhe tirariam o status de vítima que Dom Casmurro pretende construir ao longo de seu relato.

            Assim, Dom Casmurro parece estar dentro de Bento Santiago da mesma forma como Dom Casmurro acredita que a Capitu mulher estava dentro da de Matacavalos; e isso torna sua narrativa ainda menos certa e definitiva e mais duvidosa e parcial.

            Devido à construção de personagens complexas e cheias de jogos psicológicos, vemos na narração dos acontecimentos uma pluralidade de interpretações geradas pela sensação de conflito interno de Dom Casmurro. Um conflito que tenta sufocar através da afirmação incisiva da traição, sem possibilidade de engano. É a própria certeza com que afirma o adultério que gera no leitor a dúvida e a desconfiança de que ele mesmo duvida de si.

            A complexidade psicológica e a humanidade da personagem que narra é construída de maneira tão interessante e realista que faz parecer ao leitor que ouve uma pessoa contar uma história e, por falar partindo de seu lugar nela, deve ser vista com suspeita, devendo-se considerar aspectos da história que vão além do que é efetivamente relatado; como ocorreria no caso de uma pessoa real e não uma personagem, já que a tendência de todos os romances é tornar o narrador completamente confiável e sua narração de credibilidade indiscutível.

            Além disso, a própria construção das demais personagens partem da visão que o narrador-personagem tem delas; mas o que um leitor atento pode apreender dessas personagens vai além disso, já que olha com cuidado o que Dom Casmurro tem como suas características e também desconfia de sua intenção ao contar determinados fatos que nos levariam a uma imagem de uma ou outra personagem, paramos para pensar em qual seria o interesse de Dom Casmurro em mostrar determinados fatos.

            Toda situação parece muito relativa e nos faz analisar com cuidado aquilo que nos é contado, sem que o tomemos por fato indiscutível. Essa característica do romance o torna extremamente original e realista, principalmente com essa humanização das personagens que nos trazem exemplos dos pensamentos e comportamentos humanos; além de trazer originalidade à forma de narrar, onde o foco que se tem num acontecimento se dá pelas lentes de uma personagem construída e caracterizada através da própria narração da história.

ORGANIZAÇÃO TEMPORAL

            Outra questão importante do ponto de vista narrativo é a organização temporal do romance; por ser o relato de memórias, começa no tempo presente, quando Dom Casmurro, já depois de todo o ocorrido, relembra seu passado. Isso torna esse passado também visto sob uma perspectiva particular, já que procura nele vestígios de comportamentos que pudessem comprovar seu ponto de vista.

            Podemos nos perguntar se o Bento do início, ainda adolescente, via os fatos da mesma forma que Dom Casmurro os coloca. A resposta provavelmente seria não. Mas Dom Casmurro conta com essa pergunta e conseqüente resposta e a justifica pela ingenuidade que faz parecer atributo de Bento adolescente. Dom Casmurro constrói uma visão de si mesmo no passado que se encaixe bem à defesa de sua perspectiva.

            Além disso, procura convencer a si e ao leitor de que tornou-se o Dom Casmurro ensimesmado do presente por causa de todo o ocorrido em seu passado, isentando-se de qualquer responsabilidade sobre sua infelicidade, sua melancolia e “casmurrisse” do presente. É como se quisesse fazer crer que a situação desagradável na qual se encontra fosse devido à malícia de todas as outras personagens e ele fosse somente a vítima indefesa de sua esperteza e nada pudesse fazer a respeito, pois era ingênuo demais para perceber os interesses mesquinhos de todos a sua volta.

            Outra questão concernente à organização temporal são os capítulos do romance que apresentam uma ruptura na progressão cronológica da narrativa. Esses capítulos, geralmente, nos dão características do narrador e o aproximam do leitor, oferecendo a este último uma imagem do primeiro que, como já dissemos, nos faz suspeitar de sua narração.

            Um exemplo disso é o capítulo “A ópera” que nos dá uma idéia de como Dom Casmurro vê a vida e como lida com ela; tem uma perspectiva religiosa e pessimista, já que a ópera tem sua parte feita imperfeitamente pelo diabo.

            Outro exemplo é o capítulo “O Imperador”, no qual Bento, excessivamente imaginativo tem a idéia de pedir ao Imperador que interceda a seu favor. Vê-se,através desse capítulo, a falta de realismo de Bento, pois não somente essa idéia lhe passou pela cabeça, como ele realmente pretendia que aquilo ocorresse.

            O fato desse ter sido um episódio lembrado por Dom Casmurro nos diz alguma coisa sobre ele e sobre que pretende. Além de nos mostrar, mais uma vez, um Bento ingênuo e com idéias irrealizáveis e não calculistas e meticulosamente pensadas para atender a interesses particulares.

            Assim, utilizando-se de recursos narrativos originais, Machado consegue criar uma obra que enfoca bastante fielmente os comportamentos humanos, além de construir dúvida sobre o que conta seu narrador tornando-o psicologicamente complexo a ponto de se pensar a respeito do que ele pretende e questionar se acredita realmente no que diz com afirmações tão incisivas.

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