“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

LITERATURA HOJE

Filed Under (opinião) by Tânia on 01-02-2009

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          Quando me pergunto o que faz um profissional da área de literatura nos tempos atuais, logo me vem à cabeça a piada sobre matar dragões. Esclareço: havia um tempo em que dragões voavam entre nós e havia homens especializados em matá-los; quando os dragões foram todos mortos, o que restou a esses homens foi ensinar outros a matar dragões para que estes ensinassem a outros e assim por diante. Às vezes ainda me parece esta a função dos estudiosos de literatura, especialmente no Brasil, agora sendo cuspidos, de 20 em 20, todos os anos, pelo novo curso de Estudos Literários oferecido pela UNICAMP.images

            Mas será que não existe mesmo um papel social exercido pela literatura em nossa época? Afinal, são produzidas cada vez mais edições baratas de “clássicos” da literatura universal nunca se vendeu tantos livros, nunca tantas pessoas tiveram acesso à leitura, tanto no que diz respeito à decodificação da escrita, como quanto aos preços aplicados.

            Para tentar responder a essa pergunta, devemos, antes, fazer duas observações. A primeira delas se refere à afirmação mesma de que a literatura deve ter um papel. Alguns estudiosos já defenderam, como Oscar Wilde, que “toda arte é completamente inútil”, logo ocorreria apenas em função da beleza, do prazer. Outros, como Sartre, acreditam na literatura “engajada”, exercendo papel transformador no ser humano e, por conseqüência, na sociedade.

            Apesar de me terem sempre dito, na universidade, para não juntar opiniões opostas, mas sim me alinhar a uma ou outra, continuo sendo teimosa e acreditando na possibilidade de equilíbrio entre os opostos numa proposta intermediária, mais razoável, que considera um e outro aspecto. A literatura ocupa ambos os lugares, o de exercício de beleza e prazer assim como o de transformador do pensamento, influência e acréscimo às idéias circulantes de um período.

            A segunda observação está relacionada a que tipo de coisa estamos nos referindo quando usamos a palavra literatura. Podemos considerar tudo o que é escrito como literatura? Mas e os jornais e revistas, são literatura? Podemos considerar somente os “grandes clássicos”? Mas quem decide quais desses “clássicos” serão lembrados e quais serão esquecidos? E se só “clássicos” são literatura, tudo de contemporâneo não faz parte da lista? Como se pode ver, a questão não é simples.

            Não tenho a pretensão de resolver a questão que, creio, exige ainda muito estudo e pesquisa que não tem sido feita com muito entusiasmo pelos profissionais da área, mas creio que um caminho para essa resposta esteja nessa primeira observação logo acima sobre o papel da literatura. Como penso que para haver literatura deve haver tanto a beleza e o prazer quanto uma atividade transformadora do pensamento (é bom deixar claro que não necessariamente num sentido político de transformação, por vezes, apenas uma nova perspectiva para o pensamento de um indivíduo), logo acredito que esses dois elementos estando presentes, há literatura.

É claro que essas duas características não ocorrem sempre na mesma medida tanto numa mesma obra quanto comparando uma obra a outra e, portanto haveria uma espécie de continuum entre o que pode e não pode ser considerado literatura, e que para definir literatura estou me baseando na recepção, no leitor e não no texto em si ou no autor, mas essas são discussões para outro texto.

            De qualquer forma, faz-se notória a importância de mais estudos na própria essência dessa arte de matar dragões. Enquanto a lingüística se revolucionou com a sociolingüística, os conservadores literatos ainda relutam a se envolver em estudos interdisciplinares a exemplo dos que ocorrem na área de sociologia e psicologia da leitura, como o IGEL (Internationale Gesellschaft für Empirische Literaturwissensschaft ou Associação Internacional para Estudo Empírico de Literatura). No Brasil, a UFRJ possui um departamento que possui relações com o IGEL e desenvolve alguma pesquisa na área, mas creio que seja uma exceção no cenário acadêmico brasileiro.

            Por isso temo que, se os matadores de dragão profissionais não inovarem suas técnicas conservadoras, eles nunca perceberão que ainda hoje os dragões existem, transformados, é claro, e é exatamente por isso se faz necessária uma redefinição do que é um dragão, para não se tornarem uma piada sobre o obsoleto.

Comments:

One Response to “LITERATURA HOJE”


  1. “Apesar de me terem sempre dito, na universidade, para não juntar opiniões opostas…”
    Por isso nunca me dei bem com a academia

    “Mas quem decide quais desses “clássicos” serão lembrados e quais serão esquecidos?”
    Harold Bloom?

    “Associação Internacional para Estudo Empírico de Literatura”
    Palpiteiros profissionais? ;-)

    beijos

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