A madrugada caminhava lenta, segundo a segundo, nos ponteiros do relógio da cabeceira. Podia ver as horas se arrastarem na penumbra do quarto. O movimento incessante daqueles pequenos pedaços de metal a passarem vagarosamente por cada um daqueles pontinhos reluzentes, depois tornar a fazê-lo outra vez… outra vez… outra vez… eternamente.
A cabeça pousada sobre o macio travesseiro… e os olhos fixos no relógio… não o via mais; apenas estavam direcionados para eles, autista… Podia ouvir às batidas do próprio coração… SÍSTOLE… diástole… SÍSTOLE… diástole… Átrios e ventrículos cansados. Sentia o sangue circular por todo o corpo. Podia realmente senti-lo passando por cada artéria, cada veia. Não movia nenhum músculo voluntariamente, relaxamento total do corpo, que pesava sobre o volumoso colchão.
Ouvia a própria respiração. Lenta. Comprida. Também sentia o ar entrando pelas narinas. Quente e suave adentrando o corpo até os pulmões inflados. Sentia o oxigênio chegar ao cérebro inativo…
Apenas via o tempo passar naquela posição imóvel. E os ponteiros caminhavam.
Inspirava… expirava… sístole… diástole…
Tudo num mesmo ritmo… hum…ahh…
Tum… tum… Tum… tum…
TIC… TAC… TIC… TAC…
Cessa a respiração.
Cessa o ritmo cardíaco.
O relógio continua com seus ponteiros infinitos…
TIC… TAC… TIC… TAC…