GRATIFICAÇÕES E DESAFIOS DE SER PROFESSORA
Filed Under (opinião) by Tânia on 10-11-2009
Tagged Under : educação; democracia; professor;desafios; frustrações; gratificações
Hoje, mais do que em qualquer outro dia, vivenciei muito explicitamente o que é ser uma professora e, mais especificamente, no Brasil – ao mesmo tempo incrivelmente gratificante e frustrante, num caminho repleto de dúvidas e desafios. Para ilustrar essas observações e torná-las mais claras, narrarei dois acontecimentos deste dia que ainda me faz refletir sobre essa profissão curiosa que escolhi, depois desisti, depois fui escolhida por ela…
Além do meu trabalho regular como professora numa escola de idiomas, dou aulas de inglês numa instituição de cunho social (que prefiro não citar o nome) onde presencio sempre as situações mais curiosas dessa estranha carreira. Hoje uma dessas situações foi a seguinte: estava eu esperando no corredor para entrar na sala onde daria aula quando alguém abre a porta de uma das salas e lá está uma aluna cujo hábito de sempre me dar um forte abraço quando chego, mesmo não me conhecendo nem sendo minha aluna, me deixa sempre um tanto embasbacada. Ela chama o professor e pede para sair para me dar o corriqueiro abraço e me diz que quer fazer aulas comigo. Bem, isso já é suficiente para que eu pense o quanto esse trabalho é reconfortante e agradável. Mas ainda não acaba aqui, entro na sala de vídeo e começo a explicar para os alunos o que ia fazer, o que queria que eles fizessem e o que pretendia com aquele exercício quando alguém bate na porta; vejo que é a aluna do abraço e a deixo entrar, ela me dá outro abraço e um pedaço de papel amassado escrito a lápis com letras um pouco tortas de quem está aprendendo a escrever: “professora de inglês eu te amo”. Quando li aquilo me dei conta de que ela talvez nem sequer saiba meu nome ou se eu sou mesmo uma boa pessoa ou mesmo se minha aula é “legal”, mas ela sabe que toda vez que chego e ela vem falar comigo eu dou atenção ao que ela me diz e sempre retribuo os abraço mostrando que aprecio a demonstração de carinho dizendo “nossa, que abraço gostoso!” ou algo parecido. Nunca tinha me dado conta de que uma atitude simples como essa pudesse causar tanta alegria e afeição naquelas pequenas pessoas com quem convivo. Creio que poucos trabalhos deem o privilégio da vivência de situações como esta e, nesses momentos tenho certeza absoluta de que estou exatamente onde queria estar e faço exatamente o que queria fazer – diferença na vida de alguém.
Mas, como tudo na vida, tem seu lado frustrante… Continuo com meu vídeo, faço o exercício pretendido, o mesmo funciona muito bem, tudo caminha como planejado, porém, para minha satisfação, mais depressa do que esperava. “Sem problemas”, penso, passo o filme no restante da aula até onde der tempo. Parecia um bom plano até o CD ficar travado e os alunos começarem a rolar no chão por não terem nada com que se distraírem enquanto eu tentava resolver o problema. O CD não funcionou, mas a escola possuía uma pilha de filmes que estavam ao lado da TV, pedi que eles escolhessem um que todos concordassem em assistir, afinal, não queria impor minha vontade, até porque se fossemos assistir o que me agrada, estaríamos vendo Lars Von Trier, o que não seria exatamente apropriado… bem, o fato é que escolheram um filme da coleção “Crianças diante do trono” chamado “Arca de Noe” (sim, “ai meu deus” foi exatamente o que pensei!).
Como tento ser democrática e respeitar as ideias alheias por mais absurdas que me pareçam, tentei manter a mente aberta e ver do que se tratava o tal filme. Quando a “estória” começou pensei que seria terrível pela imagem a la “castelo ra-tim-bum”, falas horrivelmente forçadas, movimentos extremamente caricatos, como de teatro infantil (algo que está em minha lista de coisas mais odiadas do mundo desde a segunda série do ensino fundamental, quando assisti Pinóquio…). Mas não, era muito pior do que isso! Quando me dei conta estava sem sapatos, deitada naqueles tapetes de borracha coloridos que parecem quebra-cabeça envolta por crianças aprendizes de evangélicos que cantavam “e foi no quinto dia que deus criou os pássaros para voar pelo céu” (sim, com erro de concordância e tudo!). Nesse momento, me perguntei o que diabos estava fazendo da minha vida e achei completamente desesperador olhar para aquelas crianças a quem eu gostava sempre de incentivar o pensamento democrático e o respeito às ideias alheias (inclusive permitindo que escolhessem o que queriam assistir) repetindo aquilo que uma escola evangélica lhes enfiava guela a baixo, em vez de induzi-las ao pensamento crítico para que escolhessem, por elas mesmas, quando estivessem preparadas para tanto se concordavam com as ideias cristãs, se acreditavam naquilo por escolha e livre pensamento e não por que foram doutrinadas a fazê-lo desde muito novas quando a maturidade de seu raciocínio hipotético-dedutivo ainda não havia sequer se completado.
Foi nesse momento, também, que percebi que estava dentro de uma escola que não acredita em educação laica, preceito que acredito ser tão absolutamente imprescindível a ponto de não entregar currículos em escolas católicas ou protestantes, mesmo quando são as melhores escolas que posso encontrar na cidade.
Isso me fez pensar em duas coisas – se o fato de trabalhar lá significava que não estava agindo de acordo com aquilo que acredito e quão despreparada eu estava para agir naquela situação, afinal, uma pregação criacionista estava ocorrendo no meio da minha aula, bem na minha cara.
Primeiramente, reavaliei minha postura de não aceitar empregos em instituições não-laicas, afinal, fugir de onde está o problema não é maneira de resolvê-lo, estaria apenas me omitindo diante de um problema sério. É claro que, geralmente, devemos buscar empresas cujos valores se adequem melhor aos nossos para uma convivência mais agradável e pacífica, mas isso não significa que a vida deva ser sempre agradável e pacífica; experiências em ambientes diferentes daqueles que nos são confortáveis contribuem muito mais para nosso crescimento pessoal e profissional através do contato com a diversidade de pontos de vista a que somos expostos.
Além disso, para combater um problema, é necessário estar no meio dele, de maneira atuante, buscando a troca de ideias e experiências entre os diferentes; argumentando e não impondo, mostrando e não criticando pura e simplesmente, pois caso contrário estaria apenas comprando uma briga sem propósito e agindo da mesma maneira impositiva daqueles de quem discordo tão veementemente.
Com relação à segunda questão, pensei que “estar despreparada” tem feito parte de minha rotina desde que comecei a atuar nessa área. Não vou aqui me ater aos problemas de formação prática que os professores (e quase todas as profissões) enfrentam, pois não é esse o foco deste texto, mas certamente lidar com essas circunstâncias seria muito mais fácil se diminuíssemos o excesso de bla bla bla teórico e tivéssemos um mínimo de preocupação com o ensino prático. De qualquer forma, durante a vivência de professor, aprendemos a lidar com determinadas situações desagradáveis como esta. Naquele momento, deixei o vídeo até que a aula acabasse – era o momento de esperar e ouvir, não de falar, espernear, ser intransigente e acabar com a palhaçada. Na próxima aula, usarei todo o tempo para gerar uma discussão a respeito do filme, deixá-los cientes de que existem outras ideias além daquelas e fazê-los perceber que cada uma deve ser igualmente respeitada.
Só agindo democraticamente podemos conseguir de fato fazer com que a democracia exista como valor primordial em nossa sociedade. O Brasil, infelizmente, ainda não é um país democrático, pois para tanto é necessário que haja escolha e não existe escolha sem pensamento crítico, assim como não existe pensamento crítico sem educação que lhe estimule e desenvolva, o que definitivamente não é o que fazemos em nossas escolas, sejam elas públicas ou privadas. Espero estar contribuindo para que seja diferente, foi para isso que escolhi estar onde estou e acredito que seja esse o meu papel de educadora.