“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

FERMENTANDO

Filed Under (contos) by Tânia on 31-03-2004

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      Era domingo. Lá estava a mesa da sala de jantar levemente iluminada pelos resquícios de luz que vinham da sala. Era uma bela mesa de vidro e mármore. De muito bom gosto. Sobre ela estava uma toalha muito sóbria, mas também extremamente elegante. E um vaso de cristal. Apenas um vaso. Tão incrivelmente transparente. Finíssimo. Lindíssimo. Caríssimo. Mas sem flores. Nem mesmo artificiais.

 

     images Perto dali, na sala de estar, estava ele lendo seu jornal. Comodamente deitado sobre a chaise longgue no canto direito da sala. Lendo não. Não se pode dizer que lia; apenas fingia ler para espantar o tédio de mais um dia que se arrastava através das horas… minutos… segundos… Já havia pensado em tudo de agradável possível, mas nada mais podia animá-lo, nem mesmo sua preciosa coleção de vinhos, preciosamente guardada na adega alguns metros abaixo de onde estava, conseguia entretê-lo naquele momento. Ao lado dele, um abajour que o amparava na leitura e, em cima da mesinha de imbuia, um copo de whisky esperava pelo próximo gole que, certamente, viria em breve.

 

      Mais à esquerda, preguiçosamente deitada no sofá de couro marrom, estava ela. Vestia um hobby vermelho de seda e, suavemente, com a ponta dos dedos, massageava a pele nua e macia com um creme levemente perfumado. Doce. Erótico. Começava pelos calcanhares e subia lentamente ao longo de suas pernas bem torneadas; o tecido que as cobria ia escorrendo-lhe fazendo com que cada vez mais centímetros de sua pele ficassem nus.

 

      Ele, com o jornal em mãos e olhos aparentemente atentos, pensava no porque uma mulher precisa usar cremes. Todos esses ungüentos que causam engulhos, pegajosos. Quem se atreveria a tocar tão asquerosa substância? E ela espalhava aquilo por todo o corpo. Mal podia olhar para ela. E aquele cheiro, pelo amor de deus, era insuportável! Dava-lhe dores de cabeça e enjôos terríveis. Era cheiro de perfume barato, cheirava como uma vagabunda! Aquela situação tornava-se insustentável. Pedia desesperadamente para que alguém tocasse a campainha. Isso! Seria perfeito. Não teria que começar qualquer conversa com ela, poderia fingir que tudo estava bem. O jornal parecia não ser mais eficiente nessa tarefa. Ela parecia notar que ele não lia realmente. Parecia cobrar-lhe uma atitude. Uma reação… ou uma ação.

 

    Sim, realmente ela lançava-lhe olhares de tempos em tempos, mas não pelo motivo que ele pensava, mas sim por estar entregue a devaneios. O mais doce e envolvente desejo de sua mente e de seu corpo. Fingia que não era o marido quem estava destraidamente sentado lendo o jornal, mas sim o amante. Aquele perfeito “latin lover”. Ah! Como gostava das tardes durante a semana em que o marido não estava em casa… Delirava que era o amante sentado na chaise longgue e que fingia estar distraído com o jornal para provocá-la. Então ela o provocava com sua sensualidade. E assim distraía-se e o tempo ia passando. Logo seria segunda-feira e poderiam encontrar-se novamente.

 

     O homem, quase vomitando, com um mal estar incômodo devido ao nojo que sentia daquela situação, estava pálido e suava frio. Até que toda aquela sensação desgastante subitamente deixou-o. Ele levantou os olhos, pela primeira vez desviando-os do jornal. Olhou-a ali deitada e sentiu-se incrivelmente reanimado e empolgado. Uma idéia, uma vontade, percorreu-lhe todo o corpo e excitou-lhe a iminência de realizá-las.

Ela, percebendo seu olhar sedutor e ainda pensando que era o amante, fitou-o, olhando-o nos olhos por alguns minutos. E com aquele olhar que aprecia dizer tudo, levantaram-se.

-         Vista-se. Vamos ter uma noite muito especial hoje! – disse ele.

   

     Ela sorriu provocante e foi trocar de roupa. Colocou seu melhor vestido, prendeu parte de seus longos cabelos negros e, com seu maior decote voltou para a sala. Sobre a mesa da sala de jantar, que já não mais sustentava o vaso sem flores, estava a melhor e mais cara louça da casa. Os talheres de fondue de prata perfeitamente posicionados ao lado da panela do réchaud  que era aquecida por uma chama não muito intensa. Havia pequenos pedaços de pão italiano em um prato de porcelana chinesa, assim como presunto em pequenos cubos, palitos de cenoura e salsão, picles variados e azeitonas recheadas. Taças de cristal tão incrivelmente brilhantes acompanhavam a tão decorativa mesa. Ele sempre cozinhara muito bem, tão cuidadoso e atento aos detalhes… Lindas velas há muito esquecidas numa gaveta estavam acesas com suas chamas dançando conforme a suave música que percorria o ambiente perfumado por odores de especiarias. A lareira também estava acesa tornando a temperatura irresistivelmente agradável. Ela caminhava lentamente envolta da mesa observando encantada. Ele apareceu vindo da cozinha.

-         Falta o champagne! -  disse ela sorrindo.

Ele olhou-a com um leve sorriso nos lábios.

    -    Não, champagne, não! Vinho! Combina melhor com nós dois. – disse ele com uma voz doce e suave.

-         Tinto!

-         Tinto.

    Caminhou, então, em direção à sala, onde ficava a escada circular que ia até à adega subterrânea, a qual mantinha cuidadosamente como uma paixão. Obviamente era um lugar escuro e úmido, havia salitre em alguns cantos, mas no geral era bastante limpo, ele mesmo cuidava disso; ninguém podia jamais entrar ali. Tinha ali os melhores e mais variados tipos de vinhos. Um hobby que lhe custava largas somas constantemente. Mas, para ele, era mais do que um simples hobby, era apaixonante, orgulhava-se de sua adega e buscava sempre inovações e novidades que a pudessem tornar cada vez mais completa, mais perfeita. Assim como queria que fosse sua vida. Mas, evidentemente, manter uma boa e completa adega é incrivelmente mais simples e alcançável do que manter uma boa e completa vida.

    Os vinhos estavam organizados meticulosamente; tintos de um lado, brancos de outro. Secos em uma prateleira e suaves noutra. Os anos das safras em ordem decrescente da entrada para o fundo cada vez mais escuro e úmido. Caminhou lentamente olhando suas preciosidades com cuidado adentrando cada vez mais a adega. Quando chegou ao fundo olhou uma das garrafas; estava em posição privilegiada, em destaque. Sabia que era o que procurava e parou por alguns instantes. Retirou, assim, de sua incrível coleção o melhor dos vinhos. Sim, fazia isso com certo pesar, mas seria por um bom motivo. Poderia conseguir outro daquele vinho com alguma dificuldade, mas se estivesse disposto a pagar… e com certeza estava. Mas o que teria naquela noite nenhum dinheiro poderia pagar. Tinha que ser aquele vinho!

     O fondue e o melhor dos vinhos foram servidos.

     Ele tomou um talher, cravou num pedaço de pão italiano, banhou no fondue extremamente perfumado e apetitoso e colocou vagarosamente entre os lábios dela. Ela fechou os olhos e lentamente foi separando um lábio de outro e tocando suavemente os dentes no pedaço de pão. Depois de apreciá-lo em cada mordida ela tomou um gole de vinho. Ele sorriu. Ofereceu um brinde. Passaram-se assim os minutos seguintes. Esvaziando toda a garrafa de vinho, apreciando-o a cada gole e em cada toque de lábios naquele líquido misteriosamente mágico a noite parecia mais agradável. O frio que o anoitecer trouxera não mais era incômodo, pois se transformara em brisa suave para o calor de seus corpos.

-         Sapatos de salto e uma garrafa de vinho a deixam irresistivelmente alta!

    Riram do trocadilho infame como uma criança gostosamente ri ao se fazer cócegas.

-         A embriaguez me cai bem!!

-         Certamente…

    Riam divertidamente ao longo de minutos memoráveis. Mas ele decidiu que chegara o momento para a seriedade.

-         Mal posso conter minha ansiedade. Pareço um adolescente!

    Ela pousou a taça de vinho vazia sobre a mesa e beijou-lhe sensivelmente os lábios. O sabor da bebida escarlate pôde ser sentido sutilmente naquele toque. Ele levantou-se e caminhou para trás dela. Com movimentos suaves, tocou-lhe os ombros. Ela fechou os olhos e entregou-se ao incrível momento. Com uma das mãos, ele afastou-lhe os longos cabelos do pescoço e aproximou o rosto sentindo o delicioso odor das mais preciosas uvas. Pousou a outra mão sobre um talher sobre a mesa e num golpe artístico e ágil passou-lhe pelo níveo pescoço a afiada lâmina, cujo metal reluzia pelo brilho do fogo alimentado pelas velas. Um jato de sangue de um vermelho vivo e intenso jorraram de suas artérias para metros de distância. Ele, agilmente, tomou a garrafa vazia e encheu-a com o vital líquido. Ela olhou nos olhos tomando consciência do ocorrido; meticulosamente premeditado como forma perversa de espantar o tédio de um final de domingo. Morta,  ele deixou-a jogada no chão da sala de jantar com os olhos ainda abertos – ficava melhor assim; o mesmo olhar que lançava-lhe quando viva, morto, inexpressivo.

    Lacrando a garrafa desceu até a adega carregando sua nova raridade. Procuraria o lugar adequado para o armazenamento. O melhor dos vinhos estava em suas mãos…

 

       

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