Hoje, quando acordei, não pude descobrir onde estava. Era escuro.
Realmente sentiu-se perdido num lugar totalmente desconhecido, mas não qualquer lugar que ainda não passara e sim onde jamais passaria porque aquele lugar simplesmente não existia. Era ali que estava. Sabia que se abrisse a porta do quarto, lá estariam pessoas estranhas ou “não-pessoas”. Ou, talvez, não houvesse nada. Um nada do outro lado da porta.
Segundos depois, essa estranha sensação desapareceu. Viu-se na penumbra de seu quarto despertando de mais um daqueles sonhos. Ainda devia estar embriagado pelo sono. O que importa!
Por que mesmo se lembrara disso?
Parou de mastigar a apetitosa refeição… Sim, lembrara-se disso porque notou que não sabia como havia chegado ao restaurante. Está bem, viera em seu carro, mas… não se lembrava de tê-lo tirado da garagem, dirigido pelas ruas, xingado um motorista ou outro no caminho e estacionado ali. Aliás, onde mesmo estava estacionado o carro?
Só se lembrava de ter sentado naquela cadeira e feito ao garçom amarelo e magro de sempre o pedido de sempre. Eh! Assim acontecem os acidentes! Precisava estar mais atento enquanto dirigia. Teve sorte em ter chegado bem. Podia estar morto agora! Ou em coma num hospital todo branco… cheirando a todo tipo de medicamento… cheiro de hospital!!
Acordou. Ainda sentia aquele cheiro e um choro de criança atormentava-lhe os ouvidos.
Foi ao dentista. Na sala de espera, este pensamento prosseguiu sua fluência: não suportava o cheiro de consultório odontológico. Que horror! O que leva alguém a ser dentista?! Bom, eles devem perguntar o mesmo sobre mim… Eles colocam a mão na sua boca! E, ainda pior, conversam enquanto fazem isso. É claro, esperando que você responda! Não quero nem imaginar como limpam toda aquela parafernália barulhenta que mais parecem instrumentos de tortura.
Isso não é coisa para se pensar a hora do almoço. Mas como? Estava agora mesmo no dentista… não, isso foi o que sonhei. Precisava parar de almoçar sozinho!
Tomou sua taça de vinho entre os dedos longos e finos e levou-a até os lábios. Saboreou a bebida vagarosamente. Enquanto fazia isso, de olhos fechados, sentiu algo estranho em sua boca. Mordeu. Era duro. Tateou com a língua. Abriu espantadamente os olhos. Seus lábios tremiam. Queria chorar desesperadamente como uma criança mimada. Seus dentes estavam moles. Sua gengiva parecia não caber na boca. O vinho que ainda não engolira escorreu com a sensação de engulho que teve ao tocar com a língua o interior de sua boca: seus dentes estavam moles e podres, o céu da boca tinha erupções com gosto de pus. Junto com o vinho que espirrou na toalha branca da mesa, estavam alguns dentes que saltaram e espalharam-se por li. Um deles caiu dentro de seu copo. Outros caíram em sua comida. Ele queria vomitar. Quando sentiu que o faria…
Acordou ofegante e suado. Olhou em volta, assustado. Tocou os próprios lábios. Sentiu os dentes. Firmes. Saudáveis.
Soltou o ar vagarosamente pela boca aliviadamente. Sonhos estranhos têm invadido meu sono, antes tranqüilo. Mas essa sensação de que tudo não passou de um sonho era reconfortante… Tornava a realidade tão agradável!
Começou o dia animado, com uma longa caminhada pela manhã. Sem notar o caminho percorrido, suas pernas o levaram até o parque. Era bom, às vezes, poder ter a tranqüilidade de um bosque em plena metrópole – apesar da qualidade do ar não ser a mesma.
Sentada num dos banco que circundavam o lago, estava aquela mulher. Aquela mesma mulher. No que estaria pensando. Parece distante… Como seria sua vida? Seus problemas? Seus desejos? Suas sensações? Talvez nunca voltasse a vê-la… Mas sempre era desmentido pelo acaso. Encontrava-a no mais variados lugares. Talvez devesse conversar com ela…
Naquela tarde, foi almoçar com alguns colegas de trabalho. O restaurante estava lotado. Ele não sentia fome. Aquele vazio no estômago… o ânimo da manhã desaparecera. Agora era aquele vazio. Sem fome.
Comera desgostosamente. Sorria quando os outros riam de alguma piada sobre a qual não havia prestado atenção. Concordava com todos que lhe dirigiam a palavra. Sentia como se seu estômago se contorcesse.
Não queria parecer desagradável; então, tentava manter, pelo menos aparentemente, a cordialidade, convivência social natural. Sua palidez não o ajudou em tal propósito e alguém perguntou-lhe se sentia-se bem. Suava frio. A comida lhe causava asco. O cheiro engordurado do restaurante o enojava. Não queria falar nada. A ninguém. Levantou-se da cadeira cambaleando para ir ao banheiro. Tudo girava. Ele vomitou.
Chegou em casa e apenas jogou-se na cama. De bruços, dormiu.
Acordou pela madrugada com muita fome. Moveu-se bruscamente na cama tentando levantar-se para comer qualquer coisa. Bateu o braço em algo que estava o seu lado. Virou-se e lá estava ela. Lá estava a mulher do parque e de todos os outros lugares onde ocasionalmente a encontrara. Assustado, jogou para cima os lençóis e agilmente pulou da cama. Ela gritou.
- O que foi?
- O que você está fazendo aqui?
- Estava dormindo até você me acordar. O que aconteceu, meu amor?
Foi quando ele parou um instante: ela é minha mulher! Eu sou casado com a mulher do parque!
- Me desculpe! Tive outro pesadelo.
- Ah, sim. Já estou me acostumando com isso. Vou voltar a dormir, está bem? Se precisar de alguma coisa, me chame.
- Está bem. Vá dormir.
Sentiu-se enormemente feliz. Era casado com aquela mulher: incrível! Por isso ela aparecia insistentemente em seus sonhos! Ah, agora tudo estava perfeitamente claro. Podia dormir em paz.
Foi ao parque novamente. Pretendia apreciar a lembrança daquele último momento em que vira sua mulher em seu sonho, pensando ser uma estranha.
Agora ria-se de sua situação. Chegara a pensar que estava enlouquecendo. Deve ter sido a comida. Por isso não conseguira livrar-se dos sonhos e simplesmente acordar. Satisfeito com suas conclusões, parecia estar bem. Tudo parecia perfeito. Estava assustadoramente feliz. Extasiado.
Ainda possuído pelo frenesi de sua contente lógica, olhou em volta procurando cúmplices para sua alegria e satisfação.
A mulher do parque atravessava a rua. Um ônibus a atropelava. Ele assistia. Chocado, correu desesperadamente. Ela estava morta.
Absolutamente apavorado, chorava angustiadamente. Soluçava com insistência, profundamente. A dor era insuportável. Subitamente, cessou seu pranto.
“Não é real”.
Desesperado, correu para casa. Deitou-se.
“Eu quero acordar! Eu quero acordar! Eu quero acordar!” – gritava incessantemente com uma agonia infantil.
Parou um instante.
Sim! A maneira de acordar é…
Encontrou o prédio mais alto da vizinhança. Atirou-se do décimo quinto andar sem hesitar.
Desta vez, não estava sonhando.