“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

ESQUIZOFRENIA

Filed Under (contos) by Tânia on 11-03-2003

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             Ah! Você finalmente veio para descobrir o que há de errado comigo!!

            Já pensou na hipótese de eu não ter absolutamente nada de errado?!

            Sabe, é incrível o que a solidão pode fazer a uma pessoa! O silêncio ensurdecedor fica impregnado nos ouvidos; a falta de perspectivas assombra e o som do vento se torna mudo… o vazio é o único companheiro. Aquele que nunca o abandonará pelo resto de seus miseráveis dias.

O escuro consola, pois parece se harmonizar com o interior do corpo. Mas, inquieto, não consigo acomodar-me em nenhuma posição; e, assim, mesmo que em pequenos gestos, movo-me a cada exatos cinco minutos durante os quais esforço-me em ficar completamente paralisada até que se complete mais um ciclo.

1204155253 É terrível… terrível, a dor! Onde? Não posso saber onde está a dor! Apenas sinto que dói e simplesmente não quer cessar… Ás vezes parece ser em meu sangue. A dor parece percorrer todo o meu corpo. A dor! Só pode estar no sangue! Ela sempre volta. A dor.

Mas pode ser que esteja só em minha mente… E me engane a cada segundo. Posso senti-la por toda a parte!! É isso… me engana!

O tempo também trai! Pois estes segundos são somente uma inútil tentativa de contê-lo… de agarrá-lo! Mas ele me engana. Desvencilha-se de minhas garras… me esforço arduamente tentando segurá-lo mesmo que seja num desses segundos… Mas o único tempo que posso ter, em migalhas espalhadas pelos meus sentidos e confundidas pelo meu pensamento, são essas lembranças…

Tento retê-las com esta caneta de mil maneiras, mas nunca é o bastante…

Míseras lembranças! Se não as posso ter por completo, de que me servem recortes?! É por isso que as odeio… e não posso separar-me delas! Elas precisam estar aqui. Preciso me lembrar! Preciso! Como era aquele cheiro? Qual era mesmo o sentimento que me despertava? Como não consigo me lembrar daquele rosto, se era dele que provinham aquelas sensações que já não sei bem se eram essas de que me recordo hoje?… É inútil!

O que resta é apenas a autodestruição! Então, fumo mais esse cigarro… trago devagar… sinto lentamente meu pulmão intoxicar, esverdear, apodrecer… Só me resta morrer devagar, já que me falta a coragem para um suicídio mais digno! Morrer aos poucos… como se viver não fosse exatamente isso! Como se tivesse sido pouco cada uma de minhas mortes…

O que é aquilo na janela? Mais uma! Mais uma dessas malditas lascas! Elas deixam a luz entrar. Como se fosse ofuscante! Mas não é nem ao menos suficiente para que eu possa ver meu próprio rosto no espelho. Elas só servem para que eles, ás vezes, coloquem seus olhinhos bisbilhoteiros e tentem ver o que há aqui dentro. Eu me desnudo ou atuo cinicamente. Posso me exibir ou tentar a graciosidade… tanto faz! Eu sei que eles não me podem ver!! Ás vezes, nem mesmo há alguém lá. Mas, ás vezes, posso vê-los, senti-los. Seu cheiro me enoja e suas vozes esganiçadas ecoam demais. Mas “Frozen eyes are bound to melt”. Eles estão ali… e são tudo o que eu tenho. Por isso, usei a caneta para lascar um pouco mais a janela.

Será que é possível que dê certo? Eu não os tenho, eu os invento. Eu mal conheço as pessoas! Nem sei como posso saber que sou uma delas! Se é que realmente sou… Elas estão lá. Lá fora. Mas eu vivo aqui dentro onde para mim são apenas sombras… personagens que crio para me satisfazerem o ego, a partir de pequenos detalhes que observo. Ás vezes até mesmo os crio. Então, recrio a mim mesma para que possa fazer parte desse mundo, pois nem mesmo nele posso ser eu mesma…

O futuro é realmente sombrio. Torna-se ainda pior quando nota-se que deve vir como continuidade do presente. Esse mórbido inimigo… fruto de meu pretérito imperfeito!

Lembro de um dia, no passado, ter ficado esperando o sol nascer. Lembro de ter pensado que não apareceria. Quando eu mais precisava de luz, o próprio sol se escondia de mim! Foi quando eu mais o odiei por me desapontar terrivelmente que ele apareceu cor-de-rosa no horizonte e foi a mais linda alvorada. Era apenas cedo demais.

Só lamento que não seja assim com a vida. Seria uma bela metáfora. Soaria esperançoso! Mas em mim, o sussurro da dúvida fala mais alto que o grito da mera esperança.

Você nunca me responde. Sempre deixa que eu fale…

Talvez seja porque eu não fiz nenhuma pergunta. Somente aquelas sobre as quais já tenho as respostas. Elas são sempre as mesmas! E, geralmente, muito complexas para que eu possa entendê-las. Talvez não seja permitido que alguém como eu possuas respostas. Talvez eu deva mesmo ser uma pessoa de incertezas.

É que, na realidade, as respostas pouco importam. A verdade mesmo é que somente o que interessa é tirar de dentro de si mesmo esses pensamentos obscuros, essas angústias. Pouco ou nada importa se alguém pode ouvir. As palavras podem simplesmente ecoar. Pode ser melhor que haja um ouvinte (não interlocutor note o detalhe) para que ele possa, de tempos em tempos, em geral enquanto se respira, interromper o incessante monólogo para lhe dizer que está coberto de razão e que se sente do mesmo modo. Não que importe, absolutamente. Mas é bom saber que alguém pensa como você. Em alguns momentos, a sensação de normalidade e de pertencimento a um lugar comum às outras pessoas parece necessária.

Ora, já chega! Esse número exagerado de incríveis e incessantes bobagens me enervam! E, nesses momentos, minha irritabilidade parece nevrálgica! Meus músculos se contraem, meus olhos ficam semi-fechados, os dentes cerrados… E ódio! Sinto o sangue correr mais depressa! A vitalidade da fúria é intensa!

Alguns conseguem me causar tal efeito. Eu sinto que poderia matá-los se estivessem ao alcance de minhas mãos… e não pudesse ver seus olhinhos suplicantes… meigos até. Esse é o problema dessas pessoas… Elas são adoráveis!

Existem também aquelas pessoas que se poderia matar sem qualquer peso ou culpa. Elas jamais conseguirão arrancar-me nem o mais distante sentimento. Nem sequer a própria frieza. Mas é exatamente por isso que não se chega às vias de fato. A indiferença não move, não estimula.

E o que me diz da indiferença alheia? Alguns chegam a preferir o ódio. Eu sou indiferente. O ódio alheio não me diz nada. Tanto menos a indiferença.

Admito que a indiferença seja o melhor caminho para a saúde mental. Quem simplesmente não se importa não tem motivos para se abalar. Toda a podridão desses seres que observam através da lasca na janela deixam de cheirar tão mal. Os engodos, então, diminuem.

O sabor do leite azedo jamais será doce como o iogurte.

Isso não faz nenhum sentido!!

??…

Você ainda não disse que estou certo… tudo bem não é necessário!

Lembra-se dos meus sonhos?

Eles se transformaram naquilo que dita minha vida. Mas, tudo o que tenho é uma caneta tinteiro. Por isso o cheiro de azedo que exalam as pessoas e essa sofrível realidade em que pensam viver me enojam tanto. Demais para que eu possa continuar respirando esse ar pútrido.

Quando se fecha a porta de seu próprio mundo, o sossego volta. Aquele mesmo sossego dos tempos de ingênua ignorância… O eco que tanto incomodava se cala. O que sobra é música! Boa música.

Conforta quando se apaixona por uma parte de si mesma que você mesmo criou. E, por ter criado, o fez com perfeição… para que pudesse atender as suas necessidades. Até os desentendimentos se dão com perfeição e harmonia. Nunca fica-se sem respostas… sem jeito… numa situação desagradável… incomodada. A própria tristeza, necessária ás vezes, tem o papel de exaltar a alegria posterior a ela. É confuso… É incrível!

Agora, tranquei a porta. Nunca mais sairei daqui. Sei que é o que devo fazer.

Mas, algumas dúvidas perturbam meus sonhos… perseguem insistentemente meu ânimo. Como se eu não pudesse estar aqui… Como se eu não fosse conseguir permanecer aqui para sempre. Ainda não sei exatamente por quê!

É óbvio que o que o mantém nesse mundinho perfeito é saber que não é real. Não é real!

Eu quero ficar aqui. Para sempre…

O que você acha disso?

Não há absolutamente nada de errado comigo. Não é mesmo?

Era a primeira vez que se voltava para o médico. O corpo estava lá, caído… esparramado no chão. As perfurações causadas pelos violentos golpes de caneta ainda jorravam sangue. Mas o psiquiatra já era um cadáver frio. Como muito de nós.

Aquela figurinha curiosa e anômala gritou histericamente diante do tão medonho estado de seu ouvinte. Era uma imagem que causava arrepios em qualquer um…

Depois de esgotadas as suas forças para gritar, calou-se. E, em seguida, voltou a monologar com a brisa que percorria as brancas paredes dos negros corredores do hospital vazio. E, além daquelas barreiras de concreto, estava o resto do mundo. Era escuro. E também silenciosamente vazio. Estava só.

Mas aquelas vozes continuavam a falar…

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