“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

EPIFANIA

Filed Under (contos) by Tânia on 13-03-2003

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          Aproveito-me desse doce castigo sem crime para me fatigar em pensamentos torturantes que continuam a rondar-me apesar de tentar esgotá-los repetindo-os exaustivamente. A espera tediosa a que me submeto é inevitável. As horas lentamente escorrem pelos ponteiros do relógio pendurado na parede suja da sala. A espera se prolonga indefinidamente. Permaneço sentada olhando o nada. Incomodo-me na cadeira. Glúteos dormentes simplesmente conformam-se em permanecer ali parados.

           epifania Uma chuva fina, quase imperceptível, lentamente derrama-se do lado de fora. É suave e calma. Incapaz de me perturbar. É somente uma longínqua imagem que ainda me parece favorável. O sol ainda brilha algumas vezes, embora as finas nuvens o encubram delicadamente por alguns instantes. O ar é úmido, mas leve e agradável. Continuo ali inerte mesmo depois de já ter me cansado de olhar a janela. A tola chuva.

             Percebo o quanto pareço patética ali imóvel como a própria cadeira. As pessoas, incomodadas, parecem olhar-me pelos cantos dos olhos, depois voltá-los para as páginas das revistas para que em sua mente suja e perfeita possam concluir o quanto sou medíocre e que, felizmente, não estão em meu lugar. Hesito ao pensar em levantar e pegar uma revista para que possa, eu também, julgá-los por olhares superiores e arrogantes. Condeno minha tolice e, um tanto falsamente, minha crueldade e implicância. Resoluta, levanto e apanho a maldita revista. Os olhares intimidantes me seguem enquanto faço isso. Mostro-me segura e decidida, mas minhas mãos tremem ligeiramente e minha face cora indisfarsavelmente. Indefesa, volto a sentar-me, mas não antes de ter em minhas trêmulas mãos, vitoriosa, a revista.

            Folheio aquelas páginas sem lê-las. O tédio ao fazê-lo é ainda mais sufocante. Ao menos, agora, não me sentia ridícula olhando o nada. Agora, o que era o nada para mim, não o era para os que assistiam ou mesmo fingiam que não o fosse. Tudo estava bem assim. Os olhares cessaram finalmente. O incômodo não. Nunca.

           

          Daria tudo para ter aqui algo que pudesse realmente me divertir, ou mesmo distrair-me para que não voltasse para esses terríveis pensamentos que me assolam e implacavelmente me destroem. Mas, só tenho uma revista velha que não diz nada, pessoas que me olham e não me vêem e esses meus pensamentos que vão e vêm perturbadamente sem o menor sentido. Eles me torturam e não me levam a nada. Preciso deles mais do que qualquer coisa nesse estranho lugar. Não consigo pará-los nem por um segundo, eles só param quando querem… e eles tem seu plano macabro, eu sei.

            É difícil saber que não tenho o controle. Não sobre tudo envolta, simplesmente sobre mim mesma. Temo que vejam através dos meus olhos aquilo que se passa aqui dentro. Parece tão exposto… tão óbvio aos olhares maldosos dos que observam! Mas tenho a sorte de não me enxergarem realmente, nem de longe. Temo me trair com palavras que não pretendia dizer, que não queria que ouvissem e a partir delas tirassem suas malignas conclusões. Temo que elas me entreguem impiedosamente com sua crueldade infinita. Riem de mim. Sabem o quanto é ridículo. Sabem de tudo!

            Como é terrível o medo! Ele me priva de tudo o que me foge quando quero alcançar. Ele me priva do que me vem. É horrível o modo como ele graceja e zomba dos meus dias. Dias infinitos que me obrigo a repetir incessantemente. Dias que teimosamente continuam a vir, um após o outro. E ele ri. Vê o que eu faço. Ele percebe que só eu mesma nego. Ele me vê profundamente com seus olhos corrosivos. Mesmo assim, eu o desafio tolamente. E nosso infindável duelo persiste. Ele tem sempre a vantagem. Ele me tem nos braços como a um bebê. Eu apenas me resigno a suas vontades – cada luta é vã e me leva de volta a ele, só que cada vez mais intensamente. Eu o odeio e preciso dele, assim como preciso de todos os meus ódios.

            Cada passo me leva para mais perto do nada e me distancia cada vez mais dos meus sonhos. Apenas fantasias inutilmente esboçadas – minha fuga. É o que me resta fazer, já que não sou capaz de olhar nos olhos a vida da qual me privo ou da qual não me afeiçôo. Queria poder moldá-la, mas só o que tenho a fazer é aceitá-la. Só o que posso é buscar as migalhas que sou capaz de alcançar – sem perspectiva de perfeição. Há vezes em que me conformo. Há até as vezes em que me agrada. Mas os dias cruelmente se repetem. Os círculos me perseguem. O mundo dá voltas e voltas, mas sempre está no mesmo lugar, dando as mesmas voltas. E, no fundo, sou sempre a mesma também. Não importa o quão profunda foi a metamorfose ou em que me transformou desta vez o tempo – sou sempre a mesma e nada mais. Talvez eu nem gostasse de ser outra. Talvez esse seja mesmo o melhor. Mas só o fato de não poder saber me enlouquece. Saber. Isso já seria o bastante. Só queria ter a certeza. Sentir, nem que fosse por uma última e única vez. Mas eu não sei. Eu não posso. E, talvez, seja exatamente por isso que quero. Tenho a péssima mania de não aceitar, mesmo aceitando. É que o vício dos dias me desespera. Quando a noite vem, me apego a ela. Mas somente para esperar o amanhecer, para que chegue o dia e eu possa aguardar, ansiosa, o pôr do sol. Entre os espetáculos: nada.

            Acho que estou enlouquecendo. Tudo isso é tão insano! Que confusão… às vezes acho que isso não é normal. Mas depois me dou conta de que essas coisas passam pelas cabeças das outras pessoas também, mesmo aquelas que me condenam com o olhar. Mas eu não estou lá para ouvir. Só posso ouvir a mim mesma. Mas posso imaginar que todos aqueles que me olham de maneira estranha também tem isso dentro de si. Acho que todos guardam suas loucuras em lugares muito bem fechados. Lugares tão profundamente escondidos que nem conseguem alcançar. Lugares que alguns nem sabem que existem. Essas coisas ficam ali tão bem guardadas, tão intensamente sufocadas, que essas pessoas nem as identificam quando decidem explodir, aflorar espontaneamente. Inconscientes. É absurdo. Quando essas coisas se acumulam e resolvem atormentar quem as aprisionou, é inevitável. Elas simplesmente transbordam e nada faz sentido. Estou propensa a crer que é a isso que chamam loucura.

            Ninguém jamais poderá me ver tão profundamente, minha loucura é só minha. Às vezes não tenho certeza de que essas coisas estão somente em meus pensamentos, somente dentro de mim. Às vezes tenho a certeza de que alguém as adivinhou, de que alguém as viu por alguma brecha que eu infielmente deixei. Mas… será que eu estava só pensando? Será que não falei nada disso? Nada me escapou? Meu monólogo estava em minha boca e não apenas aqui dentro bem guardado? As palavras são tão traidoras… tão malditas!

            Se eu não disse nada disso, por que essas pessoas me olham com esse desprezo, essa indiferença? Elas me odeiam. Só porque não estou lendo essa revista cretina! Só porque penso naquilo que querem afastar de seus pensamentos. Sua desgraça.

            Há tempos desconfiava que não fossem o mesmo aquele que aparece e aquele que se esconde dentro de mim. Mas não tinha idéia de que fossem tão diferentes! Sua intensidade… Quando um aparece demais, sufoca a presença do outro. Estar sozinha possibilita que eu veja como é aquele que se esconde de todos e só se mostra aqui neste lugar profundo de minha alma. É tão absurdamente interno… é tão absurdamente intenso… Parece ir além dos limites do meu corpo. É extasiante quando o avisto de longe… É pleno e elevado quando o sinto de perto. Pouco eu mesma consigo alcançá-lo. É incrível. Temo que alguém além de mim consiga. Geralmente, são apenas neuroses infundadas, mas me parece que é possível que uma vez… e apenas esta vez, possa ser diferente. Sem neurose. O medo persiste. Mas há algo mais. Algo que não consigo descobrir o que é. Algo que me faz querer sair daqui – deste lugar onde escondo essa parte de mim que me torna eu mesma. Que faz com que eu seja alguém quando não há ninguém para me dizer quem. Mas… o que estou dizendo? O que eu estou tentando dizer? Não faço a menor idéia. O que é isso? Parece inatingível. Ininteligível. É confuso!

            Que eterna e inigualável guerra civil sempre houve e sempre haverá entre minha racionalidade e essa outra coisa, essa parte que me é tão difícil de entender! Como não a consigo definir com exatidão, continuo a chamá-la “coisa” e contento-me em tentar me aproximar dela o máximo que me é possível. O seu mistério me fascina incrivelmente. Sou incapaz de desvendá-lo. Sou incapaz de fazer com ela o que tenho feito com tudo mais. Essa é a barreira intransponível da humanidade. É irônico que ela esteja dentro de nós mesmos! Bem, esta e muitas outras incapacidades de explicar ou, ao menos, de entender simplesmente. Só o que se faz nesses casos é questionar. A tudo. A si. A nossas próprias convicções. Isso porque são totalmente falsas! E nós sabemos disso. Oh, que desespero saber e, ainda assim, questionar se realmente o sei! Que infelicidade ser o cão que olha o dono falar e, mesmo com esforço sobrenatural, não consegue captar mais do que ruídos desconexos de sua realidade, apenas incongruências. É isso que sou. É a isso que vejo. É isso que não serei jamais capaz de compreender. Apenas ruídos desconexos de minha realidade, incongruências. Essa minha angústia é tão sufocante! E torna-se ainda mais por não saber de onde vem ou porque… Quero gritar! Quero chorar, berrando como uma criança! Quero desesperadamente tentar me livrar, de maneira inconsciente e sem sentido, de tudo isso que me foge da consciência e que não faz o menor sentido.

Quero que o salgado das lágrimas transborde por meus olhos e arranque de dentro de mim este terror… este medo… esta… coisa que me comprime, me esmaga inexoravelmente por dentro. Mas que deixa meu corpo perfeitamente são – como antes – para que o sofrimento seja intermitente. Sádico. Terrível vilão! Eles me olham… eu praguejo. Eu choro… não sabem por que choro? Eu os odeio tanto! Crêem que sou louca! Eu os ofendo! Eles se sentem incomodados como antes… como sempre. Eu ofendo seu orgulho! Eles querem que eu seja como eles. Querem que eu pare de chorar. De gritar. Eu simplesmente não posso. Não posso. Está além de minha vontade. Mas por que me olham dessa forma? Por acaso não choram? Por acaso não choram exatamente pelos mesmos motivos que eu choro agora? Com o mesmo desespero que eu choro? Por que essa coisa os sufoca? Por acaso não é sempre esse o motivo de um pranto? E por que me olham assim? Por que se, quando estão em sua própria companhia, eles mesmos fazem o que não posso me privar de fazer nesse momento – chorar desesperadamente? Por que é válido e usual que se faça isso, mas julgam-me louca quando o faço justo agora, no momento em que o sinto? Por que o momento, a situação é tão importante? Não o é para mim. Jamais fui capaz de escolher o melhor momento. Sempre foi simplesmente o agora. Não posso esconder. Eles vêem. Eles sabem de tudo…

Tinha certeza de que um dia o faria. Sabia que deixaria tudo ainda mais óbvio do que meus olhos e meus gestos sempre deixaram. Sempre temi a impulsividade de minha vulnerabilidade. Sempre foi meu tormento e meu assombro. E agora está aqui, clara e óbvia, como sempre o foi. Explícita. Eles não param de olhar! Como odeio esse olhar. Fingem que sou louca! Perguntam-me por que choro como se não o soubessem! Como se jamais tivessem realmente chorado. Fingem porque percebem que eu sei o quanto choram, sei porque choram. Maus.

Mas não há ninguém aqui. Aliás, não há nada aqui. Nunca houve. Eu espero, mas não é realmente uma sala de espera. É simplesmente o que é. Sem metáforas. E eu nunca havia notado antes. Subitamente me entristeço. Não há nada. E ninguém precisou me dizer, até porque também não há ninguém. E, se houvesse, eu não acreditaria. Um nada vazio.

A chuva fina de outrora havia se transformado numa enorme tempestade. O céu, carregado densamente de grossas nuvens negras, desabava sobre tudo. Inclusive sobre meu nada. Eu estava ali. Parada. Esperei mais alguns instantes, por teimosia, ainda tomada pela tristeza. Mas era uma tempestade. Eu sabia que devia atravessá-la. Teria que fazê-lo. Restava descobrir como o faria…

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