“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

Elspeth Richardson: um homem interessante

Filed Under (contos) by Tânia on 25-06-1999

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    A sirene do carro de polícia tocava ensurdecedoramente em frente ao prédio da empresa que estava realmente agitada naquela manhã.

   Quando cheguei, estacionei o carro, estranhando o movimento. Subi o elevador que parava a todo instante, muitas pessoas entrando e saindo, querendo subir e descer. Chegando ao 7° andar, passei pela porta do elevador e caminhei calmamente pelo corredor como fazia todas as manhãs.

   Uma das secretárias, a que era dona das mais lindas pernas da empresa e nenhuma massa cefálica, me viu desconhecendo o que havia acontecido.

-          Sr. Holpins, o que faz aqui?

-          Vim trabalhar! É difícil, mas às vezes se faz isso numa segunda-feira!

-          Não soube? – disse sem considerar meu sarcasmo.

-          O que, criatura ? Diga de uma vez! Porque o movimento?

-          Encontraram o Sr. Morris morto esta madrugada: assassinado!

-          Como?! – disse chocado.

   -     Parece que foi encontrado às 6:00h, apunhalado pelas costas. A sala estava toda ensangüentada. Os especialistas disseram que foi morto ontem à noite, quando resolvia algumas coisas depois do expediente, com a empresa vazia. Teremos o dia de folga! Até amanhã.

   Desci novamente pensando no ocorrido. Não podia acreditar! Alguém tão próximo… assassinado! Estava perturbado.

   Saí do prédio caminhando sem saber pra onde, quando fui de encontro com um homem de meia idade, cabelos claros, estatura média e olhar disperso.

-          Oh, desculpe-me! Estou atrasado, aliás, isso é bastante comum!

Foi a primeira vez que vi uma das pessoas mais intrigantes da minha vida.

-          O sr. trabalha na Morris Company? – disse eu sem saber por que.

-          Sim, por que?

-          Aconteceu algo horrível! Sr. Morris foi encontrado morto esta manhã. Acabo de sair de lá.

-          Oh, meu Deus! O que aconteceu?!

     -     Ainda não se sabe. Muitos investigadores e tiras estão no prédio. Acho que vou tomar um café. Fiquei muito perturbado.

-          Se importa se o acompanhar?

-          Claro que não. Vamos!

Entramos numa casa de café que havia na esquina. Pedi um café e ele: leite com chocolate!

Quando sentou-se percebi que usava meias da cor da camisa e tinha algumas manias diferentes das que estava acostumado: as minhas.

-     Desculpe-me, mas acho que não perguntei seu nome – disse eu, analisando aquele homem tão interessante.

-          Oh, é claro. Elspeth Richardson.

Olhei-o por cima dos olhos e disfarcei minha vontade de rir. Afinal, quem se chamaria Elspeth?

Ele continuou a ler as notícias do jornal que tinha em mãos. Aliás, outra coisa que notei foi que nunca olhava nos olhos de quem lhe falava.

-     E o sr., como se chama?
   -     Paul Holpins.

-          Oh! Sr. Holpins…

-          Não, pode chamar-me de Paul.

   -     Muito bem, Paul já viu as notícias dos jornais? Incrível! A violência, fome, guerras, condições desumanas… não acha?

-          Bem… não costumo ler essa parte dos jornais. Leio sobre economia.

-          É economista?

   -    Sim. Mas na verdade, se pudesse teria me dedicado à arqueologia. Me interesso muito por antigüidades, fatos históricos…

-          Arqueólogo! Quem diria?

-          É, realmente. E o sr., do que gosta?

   -     Trabalho? Sinceramente, nenhum. Gosto mesmo de filmes de ação. Explosões, armas, lutas – disse empolgando-se e mexendo-se sobre a cadeira.

   Olhei sem graça, pois todos olharam para nossa mesa. Ele notou.

   -     Desculpe-me. Mas essa violência artística me fascina. Efeitos especiais ou… defeitos especiais…

   -     Não acha que esse tipo de filme influencia as pessoas à violência de que o sr. falava estar presente nos jornais?

-          Não. Acho que esses filmes inspiram-se na violência do mundo.

-          Talvez. Daí a questão: a vida imita a arte ou a arte imita a vida?

   -     Pode ser. O sr. não é muito novo para trabalhar como economista numa empresa como a Morris?

-          Sim. Tenho de admitir, modéstia à parte, tenho certa competência.

-          É um prodígio?

   -     Não! Longe disto, apenas me dei bem com a economia, já que não pude ser arqueólogo, tinha de dedicar-me à algo.

   -    Por obséquio, o leite está sem açúcar – disse chamando o garçom que trouxe um pote com açúcar quase esvaziado por Richardson em seu copo de leite.

   Depois vim a saber que era um fanático por açúcar, nas outras vezes que nos encontramos.

   Após terminarmos, me levantei, apertei-lhe fortemente a mão:

-          Foi um prazer, Sr. Richardson!

-          Todo meu.

Seu aperto de mão foi tão fraco que até me senti mau.

Depois disso, ficamos amigos e sempre almoçávamos juntos. Sempre gostei de Ter amigos mais velhos, mas nunca 15 anos.

Uma semana depois, entrei com Sr. Richardson na sala onde havia sido assassinado Sr. Morris:

-          Me dá calafrios saber que alguém foi morto aqui! – disse eu, sentindo-me mau.

-          Ah! Essa violência!

Em cima de um dos móveis vi algo como pó branco, sem saber porque, recolhi dentro de um saquinho e disfarçadamente, guardei. Esqueci-me dele num dos bolsos.

Quando dava minha volta de bicicleta diária no parque, lembrei-me daquele saquinho e fui olhá-lo. Cheirei-o, provei um pouco: açúcar!

-          Oh, meu Deus! Richardson!

Pedalei o mais rápido que pude até a empresa, entrei na sala onde Morris havia morrido e lá estava ele, sentado na cadeira com os pés sobre a mesa, lendo seu jornal.

-          Não acha a violência terrível?

-          Você…

-          Não venha me acusar seu fedelho imprestável! – berrou pulando da cadeira.

-          Como pôde? – disse indignado – Uma pessoa como você, tão bem sucedida e…

-               Bem sucedida? – disse batendo palmas e gargalhando – Não me venha com essa. Sou um fracassado, um capacho de Morris, me tinha nas mãos! Não tenho mulher, meus filhos me odeiam e… ainda tenho esse nome!

-           Não há nada errado com…

-               Cale-se seu mentiroso desgraçado. Sei que você riu de meu nome… um nome de mulher, não é?!

   Não pude evitar de rir.

-          Essa será sua última risada Paul Holpins, seu prodígio desgraçado.

Atirou, me atingindo fulminantemente. Quando vi, meu corpo estava todo ensangüentado na sala, morto. Olhei-o.

-          Preciso de um pouco de açúcar!

Saiu calmamente do prédio e caminhou pela calçada:

-          Oh! Desculpe-me! Estou atrasado, aliás, isso é bastante comum!

 

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