“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

DELÍRIO

Filed Under (contos) by Tânia on 09-04-2003

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          Aqui estou. Com a caneta em mãos e nenhuma palavra para escrever. Este também não é um bom começo… mas, talvez, seja o único que eu possa fazer agora. Minhas mãos tremem, meus olhos se cansam. Minhas aflições insistem em sufocar-me. E, quando tento derramá-las em palavras, essas palavras se escondem em sombras como esta, que minha trêmula mão empunhando a caneta, faz sobre o papel branco. Tiro meus óculos minuto a minuto como se fossem eles que estivessem a me atrapalhar os pensamentos. Apoio-os sobre a mesa e posso ver ali, naquele espelho suave, um velho escritor, caneta em mãos… papel em branco.

            Talvez eu já esteja velho demais para isso. Mas essas angústias de sempre continuam a zombar de mim e desafiar-me a escrever uma nova página tentando livrar-me delas. Mas, só o que vejo agora é a imagem embaçada por meus olhos gastos de velho escritor que não escreve refletida pelas lentes de meus óculos grossos repousados sobre o papel branco. Recoloco os óculos para que essa imagem não me atormente tanto quanto a música que se repete em minha mente ecoando sempre as mesmas palavras vazias, mas com uma sonoridade que me causa arrepios e às vezes até lágrimas.

a-poesia-mao-escrevendo Não consigo saber como descrever esse sentimento envolvente que me toma enquanto mentalmente repito as mesmas palavras vazias durante horas. Sinto-me perseguido por elas. Não suporto mais repeti-las. Estou farto delas. Impedem-me de qualquer outro pensamento. Mas sua sonoridade me fascina de tal forma que não posso parar de pensar nela. E pensar e dizer cada uma daquelas repetidas palavras vazias. E pensar… E dizer… essas palavras vazias.

            As palavras parecem estúpidas quando repetidas muitas vezes. Um mergulho nessa estupidez vazia me leva a notar mais uma vez como todas as convenções são estúpidas. Estúpidas como as palavras que não param de se repetir mais e mais vezes como se tivessem vida própria. Tudo isso me leva a ver minha pequenice e a pequenice de tudo o que considero grande. Como o mundo pode ser grande se nem sei onde o universo acaba. Sim, porque a idéia de infinito é tão impalpável que me recuso a considerá-la plausível. Mas não importa que pensamento absurdo me venha à mente, aquelas mesmas palavras ocas ecoam vazias e estúpidas. E sempre recomeçam quando acredito que vão acabar.

            Meus olhos pesam e meu velho corpo pede por repouso. Apesar de cansado, sei que não encontrarei sono tão cedo. Mesmo assim, deito-me e fecho os olhos sem dormir, numa inércia gostosa e preguiçosa onde a única ocupação desta velha carcaça que pesadamente carrego é respirar e divagar nas mesmas palavras ocas, vazias e estúpidas que ecoam em todo o meu cérebro e começam a fazê-lo parecer dormente.

            Envolvido por toda uma dormência que vem através de uma preguiça suave e continuada, permaneço imóvel, mas sinto que todo o meu corpo está envolto numa esfera de calor que passa do aconchegante para o desconfortável, para o insuportável, para o sufocante, num contínuo de degradação. Mas, insisto na paralisia e, brevemente, uma brisa fresca vem da janela e sopra todo o calor de meu corpo. Segue-a um forte vento cortante que torna-se bruscamente num vento terrivelmente glacial. O cobertor está ao meu lado, mas não me atrevo a sequer tocá-lo. Tremo. E assim continuo sem saber por quanto tempo. Quieto. Imóvel.

            As palavras que tanto me perseguiam e insistiam em me fazer ouvi-las segundo a segundo de repente me abandonaram; eu simplesmente não conseguia mais lembrar-me delas. Foi quando, enfim, pensei que a consciência me tivesse deixado. Mas não. Este foi meu momento de maior consciência.

           

          Embora temesse não estar mais no mesmo lugar em que me deitara, temesse que espectros esbranquiçados e embaçados estivessem a minha volta falando entre si e ignorando minha existência racional, assim como se faz com uma criança intrometida, sentia-me comodamente confortável. Vencido meu medo, atrevi-me a abrir os olhos. Notei que o mesmo quarto em que me deitara estava vazio e silencioso como antes. Agora, porém, o que me atormentava não eram palavras, mas sim o fato de eu simplesmente saber que havia alguém ali…

            Foi naquele momento de angústia que vi, escondido atrás da porta, traquina, um pequeno cego dono de uma beleza graciosa e angelical. Era irresistível olhar suas forma suaves e seu jeito meigo de se mover. Ele sorriu lindamente. Notei que não tinha um dente sequer na boca e que, às vezes, babava incontrolavelmente. E, mesmo assim, ainda era o sorriso mais belo de uma pessoa. Tinha os cabelos finos e ralos, a pele lisa e acetinada e olhos tão vivos que era incrível perceber o quanto eram cegos. Não falava. Mas, algumas vezes, parecia querer dizer qualquer coisa que nem mesmo ele sabia ao certo o que era. Às vezes, grunhia ou gritava. Eu tentava entendê-lo, embora me fosse impossível. Era uma barreira intransponível.

            Aquela figura tão maravilhosamente pura e encantadora arrancou-me risos de intensa contemplação. Cada gesto seu tinha uma graciosidade inigualável que faria com que qualquer um sorrisse, mesmo eu.

            Senti que o conhecia. Mais por ouvir alguém falar dele do que por lembrar-me dele. Apesar de senti-lo distante, ele me era próximo de alguma forma para mim misteriosa. Eu o compreendia de certa forma, mas, de forma ambígua, eu não era capaz de saber no que ele pensava e isso parecia-me profundamente estranho. Era um obscuro desconhecido cego.

            Nem notei quando ele se foi, dando lugar àquele outro indivíduo que observava tudo curiosamente e, às vezes, parecia assustado diante de qualquer coisa que só ele via. Este também era pequeno, embora fosse maior que o doce cego que se fora despercebidamente.

            Era ora gracioso, ora irritante. Ao contrário do outro, falava muito e fazia tantas perguntas que me deixava zonzo e confuso. Ele me divertia e divertia-se a si mesmo, sozinho a falar com as paredes quando eu não o ouvia. Era travesso, mas tão inofensivo quanto indefeso. Houve momentos em que chegou a ser cruel, em especial com as palavras, mas não era mau. Apenas não sabia distinguir as coisas certas das erradas; as palavras rudes, das doces. Tinha somente uma noção confusa e obscura do que não devia ser feito, das atitudes que devia tomar em diferentes situações. Tudo isso era um mundo que não conhecia, as coisas pareciam complicadas. Parecia muito distante de mim, embora mais próximo que o cego. Eu o compreendia. Ele olhava com intensidade para o outro que entrava vagarosamente. Parecia querer alcançá-lo.

            Quando se cruzaram, conversaram sobre algo que eu não pude ouvir por um tempo considerável e até riram juntos, mas depois aquele que falava comigo anteriormente foi embora sem se despedir. Nem de mim, nem do outro. Ele pareceu não ligar e aproximou-se de mim mais do que os outros dois. Eu estava fascinado com o espetáculo. Pareciam não ser realmente pessoas, mas tinham uma vivacidade impressionante. Eu, estranhamente, sentia-os como se os conhecesse ou tivesse conhecido algum dia. Interessava-me cada vez mais e não podia esperar para saber como seria o próximo a entrar no quarto. Observava a todos atenciosamente e me surpreendia com eles. Tentava esforçadamente lembrar-me de cada um que se fora e, ao mesmo tempo, apreender cada detalhe do que estava diante de mim.

            Esse que vinha era bastante curioso de se ver. Era feio e desajeitado – não possuía nem metade da graciosidade do pequenino cego. Por outro lado, era muito engraçado e eloqüente. Era mais alto que os demais, mas caminhava encurvado como um velho. Era intenso. Julgava-se imortal. Isso me causou uma estranha sensação de desconforto, pois eu sentia a morte. Ela parecia acariciar a janela junto com o vento. Afastei esse pensamento e voltei a observar aquela intrigante criatura diante de mim. Via em si um sábio. Mas, embora fosse crítico e observador, era ingênuo. Sentia-me bem ao lado dele. Ria-me de sua eloqüência e espontaneidade. Notava nele um princípio de consciência que era quase inexistente nos outros dois. Mas era curioso que ora parecia muito sério e maduro, ora manhoso e inconseqüente. Mudava constantemente de atitudes e humores. Era conflituoso e, às vezes, agressivo. Fascinava-me com sua complexidade, contrastante com a simplicidade e até o simplismo dos outros dois. Tentava desesperadamente compreendê-lo, mas nem mesmo ele era capaz de tal proeza. Rendi-me e deixei que os ventos me levassem – qualquer esforço seria inútil.

            Ele ficou o mesmo tempo que os outros, mas pareceu ter ficado muito mais. Era definitivamente agradável. Nem percebi quando outro o substituiu, pois ele parecia ainda presente, mesmo que como uma sombra distante que ali permaneceria indefinidamente. Ainda desnorteado pela intensa presença do outro, passei  cuidadosamente a descobrir aquele que se colocou,  até um tanto inesperadamente, frente a mim.

            Inicialmente, ele permaneceu inerte. Às vezes agindo de forma semelhante ao que acabara de sair, talvez porque se parecesse um pouco com ele, talvez porque também estivesse enfeitiçado por aquela tempestuosa presença. Mas, em um dado momento, olhou para si e sentiu-se ridículo. É intrigante que isso tenha ocorrido quando o ar envolta dele parecia terrivelmente cruel. Também me questionei quando pensei que ar parecia cruel, mas seja lá o que fosse, o que eu via era que tudo envolta dele mostrava aterradora crueldade. E seus olhos também a viam, e de maneira tão desoladora que a tristeza neles tornou-se evidente. Ele pareceu cansado e desiludido. Sentiu-se enganado, tolo, perdido. Compadeci-me dele por alguns instantes. Mas logo vi que reanimava-se e mostrava toda a sua força. Tinha uma expressão altiva e orgulhosa. Segura, mesmo que às vezes hesitasse. Esse era belo, mas não tão eloqüente quanto o outro. Simpático  e agradável. Educado e gentil.

            Notei que ele algumas vezes olhava para trás com olhos de muita saudade. Não havia inocência ou ilusão naqueles olhos. Somente contemplação. Ele parecia mudar constantemente, mas não da forma conflituosa que o outro apresentava. Ele parecia melhor a cada instante. Cada vez que voltava a olhá-lo, estava mais sereno e consciente. Por vezes até resignado. Era, sem dúvida, uma figura ambígua.

            Demorou-se muito ali. Fez-me observar toda sua lenta metamorfose tanto interna como externa. Deixou-me definitivamente intrigado. Quando dei por mim, já não era mais ele ali parado. Assustei-me um pouco ao perceber que agora estava ali um velho. Uma forma decadente. Gasta. Mas, quando me recuperei do susto inicial, em lugar de repugnância, o velho causou-me uma surpreendente sensação de carinho e doçura. Sossego e plenitude.

            Percebi que cada um que chegava aproximava-se mais de mim. Parecia também mais completo, mais compreensível. Cada um que entrava parecia mais conhecido. Empolgado com aquelas aparições dediquei-me a desvendá-las. Nenhuma delas mostrou-se mais interessante do que aquele velho.

            Observei-o atentamente. Parecia frágil. Era forte o bastante. Era sábio, mas antiquado. Parecia cansado. Temia olhar-me. Ainda assim, parecia satisfeito.

            Quanto mais permanecia olhando para ele, mais seus cabelos se esbranquiçavam, mais sua pele se enrugava, mais seu corpo cansado se encurvava. O vento que soprava contra ele acariciando-lhe a gasta tez, parecia roubar-lhe aos poucos a vida como uma erosão.

            Cada vez com mais ansiedade e empolgação, olhava-o extasiado com sua metamorfose que fazia-me sentir cada vez mais próximo e complacente àquele homem. Fiquei imobilizado quando finalmente reconheci aquela pessoa ali parada a fitar-me com espanto. Era eu mesmo.

            Rapidamente, fechei meus olhos apertando fortemente as pálpebras. Aquela era uma visão aterradora. Senti que esse ato não adiantou-me nada, pois ainda os sentia a todos ali a olhar-me. Quando voltei a abrir os olhos, estavam todos deitados comigo. O leito em que estávamos não era grande. Era incrível que todos coubessem ali comodamente. Estavam dentro de mim. Eram parte de mim – cada um deles.

            Mas o que eu era?

            Eu era o fim.

            Isso me assustava. Todo aquele lugar me assustava. Parecia modificar-se a cada instante. Mas nunca se acabava. Apenas eu e minhas sombras deitadas sobre a cama parecíamos definhar lentamente. Elas continuavam a repetir aquelas palavras sem deixá-las sair de meus ouvidos. Diziam-nas mais e mais. Já me era quase insuportável. Eu sabia que não havia mas nada além delas. Não havia mais lugar para mim ali.

            Sempre pensara na morte acompanhada de uma sombra rondando-me – a dúvida. Poderia, nesse terrível e sufocante momento fatal, fazer o mesmo que sempre fizera durante toda a vida – escrevê-la. Deixar que meus dedos flutuassem pelo papel branco e as palavras ali esboçadas pudessem me dizer o que se passava comigo e livrar-me do torturante sentimento.

            Mas a agora que a morte está próxima, aqui estou com a caneta em mãos e sem uma palavra para escrever. E com todo o meu passado envolta de mim. Meu tempo acabou. A morte está próxima. Posso senti-la apoderando-se do que resta de meu corpo. Esta forma decadente que ainda vejo no espelho… A morte a levará. E, ainda que desgastada e asquerosa, gostaria de continuar com ela. Não quero acabar, mesmo que já esteja acabado. Quem vai chorar. O que será de tudo o que ficar, do que eu deixar. O que seria do que eu iria um dia pensar… A curiosidade me diverte, me anseia. A morte está muito próxima. Seu cheiro eriça minha tez enrugada, me resseca a garganta e pausa minha fraca respiração. Sinto cada um daquelas seis partes de mim expirando aos poucos. A morte está ao meu lado. Apavora-me sua iminência. O gelo de seu silêncio congela-me os pensamentos. Vejo-me podre misturado aos vermes e à terra que um dia me enojaram.  Não mais posso discernir o que quer que seja, não mais possuo a mim mesmo. A morte está dentro de mim.

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