Comentários sobre EXCALIBUR de John Boorman
Filed Under (filmes) by Tânia on 04-07-2003
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Esse filme foi baseado na obra de Thomas Malory “A morte do Rei Artur”, no entanto, é importante afirmar que apesar do filme ter sido inspirado pelo livro, isto não significa que ele segue exatamente o que o livro diz. Certas divergências acontecem na maioria das adaptações das histórias para o cinema e com Excalibur não vai ser diferente. Entretanto, o objetivo dessa crítica não é compará-lo ao livro e sim criticá-lo como uma obra cinematográfica pura e simplesmente.
O filme Excalibur de John Boorman nos mostra uma versão da lendária estória do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda. Tal versão nos permite algumas interpretações que serão aqui comentadas.
A espada Excalibur foi forjada para o escolhido para governar todo o reino que estava dividido e sem rei. Quem obtivesse a espada seria o rei. Assim, Excalibur é o símbolo do poder real e aquele que fosse um cavaleiro suficientemente valoroso para empunhá-la seria digno de dominar o reino.
Ao mesmo tempo, Excalibur é também símbolo de esperança na medida em que o cavaleiro que a empunhasse seria capaz de unificar o reino e acabar com a guerra e a fome de seu povo. Mas como tudo, Excalibur é parte do “dragão” (O dragão é definido como uma fera superpoderosa que está em todo lugar em todo o tempo); ela pode também ser usada indevidamente. E assim o faz Arthur quando invoca o poder de Excalibur para vencer Lancelot que havia lutado melhor do que ele e merecia a vitória. Assim, o poder da espada está ligado ao valor do cavaleiro que a empunha. Se esse souber como usá-la virtuosamente, ela trará para o reino tempos de paz e sem escassez.
Quando Arthur usa a espada para vencer Lancelot sem o merecer, a espada se quebra. Utilizando as palavras de Merlim, Arthur quebra “o que não poderia ser quebrado”. Porém, ao reconhecer seu erro e arrepender-se dele, Arthur têm a espada de volta, concedida pela Dama do Lago.
É interessante notar na batalha entre Arthur e Lancelot que seus escudos e armaduras são bem diferentes. Enquanto Lancelot usa uma armadura clara e tem um cálice desenhado em seu escudo, Arthur usa armadura escura e tem em seu escudo um dragão. Além disso, Lancelot monta um cavalo branco e Arthur um marrom. Tais contrastes nos remetem à impressão de uma antiga luta: a do Bem contra o Mal. Posteriormente, quando é criada a Távola Redonda, as armaduras dos cavaleiros são claras como a de Lancelot e seus escudos possuem também um cálice. Essa é a época de paz e prosperidade do reino.
Bem e o Mal se revezam dentro da trama e isso ocorre não só com a situação do reino, mas também com as personagens que são ora admiráveis e valorosas, ora pecaminosas. Isso nos mostra que o Bem e o Mal não existem um sem o outro, pois mesmo nos tempos de paz, como o próprio Merlim diz, o Mal não foi derrotado.
Com relação a isso, é interessante notar que há muitas cenas em que aparecem estátuas de dragões por todo o castelo. O Mal estaria ali, mas escondido, inativo.
A traição de Guenevere e Lancelot e o incesto de Morgana e Arthur trazem a desgraça ao reino, corrompido pelo pecado. Há uma espécie de alusão ao pecado original, que tira o homem do paraíso pois, após esses fatos, o reino entra em decadência. Quando rezam para que o reino seja livrado do pecado de Morgana, um raio atinge Arthur como se fosse uma negação ao pedido.
A única forma de reverter a situação seria encontrando o Santo Graal: o sangue da redenção estava guardado nele. Esta também pode ser considerada uma alusão ao cristianismo; o cálice sagrado contendo o sangue de Cristo traria a vida de volta. Considerando também a parte quando Arthur tira a espada da pedra, num domingo de Páscoa, poderíamos pensar que esse fato simbolizaria o final da época de trevas e o renascimento da vida.
Perceval é o único sobrevivente na busca pelo Graal. É a esperança que leva Perceval ao Graal. Assim, depois que consegue resgatá-lo, leva-o a Arthur que volta a ter forças para lutar.
Enfrentando Mordred, seu filho com Morgana, Arthur é fatalmente atingido mas também mata o filho. Arthur, entretanto, só morre quando finalmente sabe que a Excalibur foi jogada no lago. E, ao morrer, faz uma espécie de profecia dizendo a Perceval que outro bravo guerreiro virá e empunhará Excalibur, trazendo a esperança de que os bons tempos retornarão. É possível interpretar-se também que ele mesmo retornaria já que, na cena final, é levado por fadas rumo ao horizonte.
As personagens dessa lenda são apresentadas no filme de maneira particular. Aqui mostraremos como as principais delas são caracterizadas seguidas de comentários e interpretações que tal caracterização nos permite. É interessante ressaltar a ambigüidade das personagens apresentadas, nenhuma delas é um estereótipo. Todas são caracterizadas de maneira mais complexa, sendo ora boas, ora más; talvez com exceção de Mordred que é um personagem que aparece apenas como secundário.
MERLIM
Merlim aparece como o mentor intelectual tanto de Uther quanto de Arthur. Ambos são dependentes de seu poder e de seus conselhos. Um exemplo disso é quando Uther pede a Merlim que este o ajude a ter Igrayne, Merlim acaba mostrando que na verdade o que está em jogo são os desejos não de Uther, mas dele próprio. Ele mesmo diz: “Eu decido o que e quando”. Na realidade, Uther é manipulado por Merlim a fazer o que este quer, pois ele sabe que o herdeiro da Excalibur não é Uther e sim Artur, o filho de Uther com Igrayne.
Ele é representado com sarcasmo em suas falas e algumas de suas cenas, como a que tenta agarrar um peixe e acaba caindo na água. Usa roupas negras e ora nos passa a impressão de ser mal, ora bom. Inclusive, já no final do filme, quando ele passa a viver nos sonhos das pessoas, é para alguns sonho, para outros pesadelo.
Outro aspecto interessante sobre Merlim é o fato de ser o único que não envelhece durante o filme (com exceção de Morgana que usou o poder de Merlim para se manter jovem).
UTHER
No princípio do filme vemos que um guerreiro corajoso, mas impetuoso, unifica e desunifica o país em algumas horas e por motivo de sua impetuosidade e lascívia dá início a uma trágica história.
Este era Uther, que ao saber da existência da Excalibur, pede a Merlim que lhe dê a espada. Ele assim o faz e isto marca o fim da guerra. Para comemorar o fim da mesma o duque de Cornwall, que lutava contra Uther, decide fazer uma festa em seu castelo. Durante a festa este pede para que sua esposa Igrayne dance para os convidados e ela assim o faz porém, acaba sendo objeto de desejo de Uther . Por este motivo, ele põe fim à trégua e tenta invadir o castelo de Cornwall para capturar Igrayne. Como Uther não conseguiu invadir o castelo, este pede ajuda a Merlim para que ele pudesse pelo menos ter uma noite com sua amada.
Uther conseguiu o que tanto desejava: uma noite com Igrayne, mas isso lhe custou o filho, o reinado e a própria vida. Ele não foi valoroso o suficiente para poder ter a Excalibur.
DUQUE DE CORNWALL
O Duque de Cornwall lutava contra Uther até o momento em que surgiu a espada Excalibur. Depois do surgimento da mesma, os dois entraram em um acordo e selaram o pacto de paz. Na festa de comemoração da paz, Cornwall quis demonstrar que, apesar de não ter a espada, tinha uma esposa que o outro nunca iria ter igual: Igrayne. O resto da história já é conhecido…
IGRAYNE
Igrayne é um personagem interessante no filme, é o tipo de mulher sem personalidade que é manipulada pelos homens, pois satisfaz seus desejos e depois deixa com que eles tirem o que lhe é de mais precioso (deixa que Uther dê seu filho a Merlim e nada faz para impedí-lo). Ela teve uma outra filha além de Artur, Morgana.
ARTHUR
Arthur aparece inicialmente como um garoto bobo e inexperiente que tira Excalibur da pedra acidentalmente, porque havia perdido a espada que seu suposto irmão deveria usar em combate. Porém, quando da criação da Távola Redonda aparece não só como um homem maduro, mas como um grande rei e guerreiro. Entre um momento e outro varia seu comportamento entre um guerreiro corajoso e virtuoso e um ambicioso e vaidoso. No momento em que é nomeado cavaleiro, dá a sua espada para que seu inimigo o nomeie mostrando assim seu valor e coragem, inclusive, tal atitude até surpreende Merlim. Por outro lado, quando luta com Lancelot e usa Excalibur para vencer seu oponente sem o merecer, mostra seu lado ambicioso e vaidoso.
Apesar de Arthur aparecer quase sempre como um grande rei, que toma as decisões certas, como quando dá para Lancelot a tarefa de defender a rainha para obedecer a lei, ele aparece também como extremamente dependente dos conselhos de Merlim. É interessante analisar que quando Merlim o abandona, dá-se início a decadência do reino.
GUENEVERE
Guenevere é filha de um homem poderoso que acaba se casando com Arthur. Se ela realmente apaixonou-se por Artur, não fica muito claro, isto é, antes da chegada de Lancelot. Ela parece amar Arthur apenas como seu rei e não como seu marido. É interessante observar que num momento do filme Artur pede para que Merlim faça com que Guenevere se apaixone por Artur e este se recusa a fazer tal coisa. Por que Merlim não fez com que Guenevere se apaixonasse por Artur? Será que isto não estava ao seu alcance ou simplesmente não quis fazê-lo?
Vale a pena ressaltar que ela é quem procura Lancelot, que tenta evitá-la desde o princípio. É como se Guenevere fosse a Eva que põe tudo a perder com seu pecado.
LANCELOT
Lancelot aparece como guerreiro melhor que Arthur. Quando lutam é ele quem merece vencer. Além disso, é ele, e não Arthur, que é o mais admirado cavaleiro da Távola Redonda.
Lancelot era também um cavaleiro orgulhoso: “Eu, o melhor cavaleiro do mundo vencido?” Mas, ao mesmo tempo humilde, pois ele sabia que Guenevere sentia o mesmo por ele e quando percebe que não consegue mais esconder sua paixão a Guenevere resolve afastar-se da Távola, pois não quer magoar seu melhor amigo, o rei Artur.
Antes de defender a rainha, Lancelot luta consigo mesmo para ser capaz de fazê-lo. Luta contra seus sentimentos por ela. Com isso, mostra-se fiel ao seu amor a ponto de quase morrer para salvar a honra da rainha, mesmo sabendo de que as acusações contra ela eram verdadeiras e, pelas regras de combate, poderia morrer. Nessa luta, ele é ferido e é essa ferida que o mata depois de muitos anos, pois a ferida nunca havia sido curada.
Apesar disso, Lancelot mostrou-se fiel ao rei ao juntar-se a ele na batalha de Camelot, mesmo depois de tanto tempo.
PERCEVAL
Perceval é o único que se oferece para defender a rainha quando da ausência de Lancelot. É, por isso, nomeado cavaleiro por Arthur. Aparece como um guerreiro valoroso e é o único sobrevivente da busca pelo Santo Graal. É o único que, com sua esperança, consegue retornar com o cálice sagrado em mãos e fazer com que Arthur volte a lutar pelo reino.
MORGANA
Desde pequena, Morgana, já tinha sonhos com coisas que realmente aconteciam. Ela foi a única pessoa que viu que quem entrou no castelo à noite para ficar com Igrayne não era seu pai e sim Uther. Desde aquela época a menina já demonstrava ser um pouco esquisita, diferente das outras pessoas.
Parece por toda vida ter querido se vingar da morte do pai; para isso engana Merlim e concebe um filho de seu irmão Arthur. Infelizmente seus planos não dão certo e ela acaba sendo morta pelo próprio filho.
MORDRED
Mordred é apresentado no filme como uma personagem secundária. Ele é o único que parece ser realmente mau. Mata a mãe depois que a vê envelhecida, recusa o amor do pai, luta com ele e o atinge fatalmente e, sendo ele também atingido pelo pai, morre em combate.
***
O filme em si é interessante, entretanto, apresenta alguns aspectos que poderiam ser mais explorados, como por exemplo, o momento em que Lancelot some depois de ser flagrado por Arthur com Guenevere na floresta. Lancelot simplesmente desaparece da estória e só volta a aparecer quando Perceval, buscando o Graal, o encontra em meio ao povo faminto e desesperado.
Há também uma cena que poderia ter sido melhor composta: a cena em que Igrayne aparece e dança para os cavaleiros. Aí há um certo excesso de erotismo que torna a cena bastante artificial e até incompreensível.
Além disso, o sotaque britânico extremamente artificial e mal pronunciado unido ao sangue no corpo do duque de Cornwell, que parece guache vermelho, tornam o filme muitas vezes teatral. Algumas das cenas de guerra em que braços decepados jorram sangue são, inclusive, cômicas.
A atriz que representa Guenevere desaponta a expectativa de uma rainha muito bela que fez com que Arthur e Lancelot se apaixonassem.
Por outro lado, o roteiro do filme é bem estruturado, pois nos dá uma boa visão geral da lenda arturiana e possibilita diferentes interpretações de algumas cenas.
Destacam-se, entre outros, o ator que representa Merlim que consegue dar à sua interpretação o tom sarcástico e ambíguo que pede o personagem, a cenografia e o figurino que são muito bem explorados. Enfim, de maneira geral, o filme atende às expectativas do público e condiciona momentos de reflexão e entretenimento.