“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

COMENTÁRIOS SOBRE ATEÍSMO E MORAL EM “A FILOSOFIA NA ALCOVA”

Filed Under (livros) by Tânia on 16-12-2004

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AIQRV7GCANHOMIGCAG9VZ54CA454EFDCA9N01GRCA8THYRUCA427N7MCAYX37AACAEA43LWCA00INO5CABYAYNJCAL3N6PECANOHVV1CAWNL658CAAWGCFDCAZ4NXIQCALZAZ43CAWZVH5OCAJLG3IC Na época do Iluminismo, na França, a circulação de idéias novas foi constante e trouxe muitas mudanças para o pensamento dos homens do período. A filosofia vinha se desprendendo um pouco da Igreja depois de séculos de domínio quase total, devido à influência católica na organização do Antigo Regime; os valores considerados começaram a mudar, adaptando-se à nova realidade histórica. Com a burguesia cada vez mais poderosa economicamente, seu lugar na política e a valorização de sua organização social e cultural passaram a ser reivindicados.

            Em meio a tais inovações, novos valores misturavam-se aos antigos ao mesmo tempo em que se tentava combatê-los, cada qual defendendo seus interesses. A burguesia se baseava nos padrões da aristocracia (que ainda era a classe mais alta) para promover suas mudanças, e esta desprezava o que viesse da classe baixa que ascendia (inclusive naquilo que a burguesia havia se apropriado, culturalmente ou ideologicamente, da herança aristocrata).

            Dessa forma, a burguesia tomou para si o fervor religioso (especialmente com Robespierre) que antes pertencera à aristocracia, sendo que esta, inclusive, justificava seu poder político pelo direito divino. Assim, o ateísmo passa a, cada vez mais, ser associado à aristocracia.

            O Marquês de Sade segue essa mesma aparente incoerência do período: é aristocrata, ateu e, ao mesmo tempo, revolucionário e republicano. Mas essa aparente incoerência se desfaz quando pensamos que é um aristocrata insatisfeito tanto com o Antigo Regime como com a organização política e social vigente no período imediatamente após a Revolução, que é exatamente quando é publicado “A Filosofia na Alcova”.

Sade vê na Revolução uma oportunidade de mudar, porém, não a maneira que os revolucionários pretendiam, mas de forma ainda mais radical que os próprios radicais de seu tempo. A pornografia e o sadismo são utilizados como forma de transgressão aos valores vigentes, os quais pretende combater em favor de sua proposição de organização social utópica, baseada no que ele chama de “natureza” que não é nada mais que os desejos humanos e, antecipadamente, num sentido que lembra o freudiano.

            Em “A Filosofia na Alcova”, De Sade coloca na boca dos “preceptores imorais” as suas idéias e, especialmente em “franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos”, desenvolve argumentos que, ao mesmo tempo em que justificam seus valores, apontam críticas aos vigentes e suas conseqüências para a convivência social e para a felicidade e satisfação do indivíduo, pois acredita que só um cidadão com seus desejos satisfeitos não causaria problemas para seus governantes.

            A seguir veremos essas idéias e críticas relacionadas à religião, juntamente com o processo de racionalização que lhe é conseqüente e sua relação com a fundamentação da moral que deixa de ser religiosa.

ATEÍSMO

 

Como já foi dito, o ateísmo, no século XVIII, era muito associado à aristocracia, apesar do poder político do rei, que não deixa de ser um aristocrata, ser justificado pela vontade divina. Isso porque a aristocracia tornava-se, cada vez mais, uma classe heterogênea e excêntrica, na qual o pensamento filosófico e a ilustração eram bastante divulgados através da circulação crescente dos pensamentos iluministas. Assim, a classe aristocrática tomou para si muitos desses novos valores, geralmente associados à burguesia (como o idealismo romântico, por exemplo), e adaptou-os à sua nova realidade para adequarem-se à nova organização social e política que surgia com a Revolução.

De Sade, ao contrário, buscava contrapor toda essa nova construção social, e especialmente o idealismo romântico, que tomou força em seu tempo. Personagens como a Senhora de Mistival e até o próprio Cavaleiro são ridicularizadas em “A Filosofia na Alcova” e seus valores, através dos questionamentos de Eugénie, contrariados e substituídos por novas idéias mais adequadas à proposição de mudança na organização social proposta em “franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos”.

Dessa forma, o Marquês de Sade levou às últimas conseqüências a idéia de liberdade e igualdade que vieram com a Revolução. E acreditava que, para tanto, devia haver um desligamento de tudo o que fosse parte do Antigo Regime e/ou lhe desse sustentação; o que era o caso da religião e a moral proveniente dela.

Assim, o ateísmo do Marquês de Sade não vem do cientificismo, como tanto ocorreu no século posterior, mas sim de sua insatisfação com a organização política e social que o levaram a desejar um rompimento drástico com todos os seus valores. Para ele, a religião seria somente mais um artifício utilizado para que os mais poderosos continuassem a exercer seu poder sobre os demais. Os valores religiosos são vistos como impedimentos para o exercício pleno da liberdade individual.

Isso nos traz implicações relativas à moral, já que é necessário que haja uma nova referência para a conduta que não a moral que é baseada na religião e relacionada aos bons comportamentos e sentimentos aplaudidos pelo idealismo romântico. Essa conduta será baseada no desejo natural, nos impulsos, principalmente sexuais; ou seja, no exercício de uma liberdade total, levada ao extremo – a liberdade de assumir  e lidar natural e publicamente com tudo o que antes seria moralmente recomendado reprimir e esconder. Essa questão será mais cuidadosamente analisada a seguir.

 

MORAL

 

De Sade buscou substituir a religião pelo racionalismo. Os valores e a organização das idéias vinculados à religião, que regiam o pensamento da época, precisavam ser substituídos por alguma coisa que desse conta de tornar o ateísmo algo aceitável e coerente; para isso, toda uma reestruturação da forma de pensar o mundo devia ser elaborada, o que torna o momento histórico apropriado já que era um período de mudanças estruturais na organização da sociedade.

Partindo de um raciocínio lógico e cheio de referências à natureza humana, De Sade, em “A Filosofia na Alcova”, abre mão de uma organização que não o satisfaz e a qual pretende combater em favor de novos valores que levam em consideração somente os desejos mais escusos e intrínsecos ao homem e idealiza uma sociedade na qual tais valores pudessem reger a organização social e as relações humanas em lugar da moral religiosa que devia ser combatida por privar o homem de sua liberdade, deixando-o infeliz e insatisfeito.

Para explicar melhor como se dá esse raciocínio, façamos aqui algumas reflexões que possam, talvez, enganar por alguns instantes nosso próprio moralismo.

Cada um de nós, salvo anomalias de caráter, tem uma noção relativamente nítida do considerado certo e do errado; ideologicamente, é claro, já que com relação aos pensamentos ou sentimentos mais íntimos, sempre temos nossos momentos de perversidade, imoralismo, canalhice ou o que quer que se deseje chamar tais situações. Isso ocorre devido à convivência social e familiar a que somos expostos durante nossa vida; não é uma noção natural intrínseca ao ser humano.

Já nossos pensamentos e sentimentos mais íntimos nos são intrínsecos – o ser humano terá sempre seu lado “corrupto”. Nunca se soube ao certo como explicá-lo, mas era necessário admiti-lo, por isso tentou-se com o “pecado original” quando a religião ainda era a base da fundamentação da moralidade humana. Com o tempo, no entanto, ela não conseguiu mais ser suficiente a todas as inquietações.

É o que acontece com Marquês de Sade, ele passa a questionar essa moral imposta socialmente através do que racionalmente lhe parece mais conveniente para o exercício pleno da liberdade. Admitir a imoralidade intrínseca ao homem e aceitá-la não como imoralidade, mas como natureza humana; ou seja, encará-la com naturalidade é o que ele pretende em seu modelo de sociedade. O que chamaríamos “desvios de conduta” seriam lapidados por nossos valores morais, mas sem a religião para guiar moralmente, teríamos na racionalidade, na conveniência social e no exercício de satisfazer nossos desejos, o nosso padrão de conduta; sendo assim, o que antes seria um “desvio” torna-se o natural.

Se observarmos a conduta humana de maneira crítica, veremos que esses “desvios” ocorrem, sejam eles socialmente aceitáveis ou não. Cada indivíduo busca justificar possíveis desvios e torná-los aceitáveis do ponto de vista moral da pessoa que os teve; são feitas considerações e reconsiderações que fazem com que ocorram atitudes aparentemente incoerentes, embora nossa racionalidade nos obrigue a criar uma lógica para nossas contrariedades, e isso seja apenas parte do desenrolar da formação de nosso “eu” com sua volubilidade e complexidade, já que a personalidade é algo bastante mutável ao longo de uma vida fazendo com que os valores também o sejam, inclusive ao longo da história.

Então talvez esses desvios sejam apenas considerações. Talvez seja dessa aparente incoerência que surja a impressão de hipocrisia. Mas é possível também que ela venha, e seja mais do que mera impressão, da inadequação dos valores morais impostos pelo sujeito para si mesmo a um tipo de personalidade que não é capaz de segui-los em sua conduta, pois sua natureza não foi absolutamente dominada por sua moral.

            Seguir uma conduta moral não é, portanto, algo natural ou vantajoso do ponto de vista racional; além de nos exigir, vez ou outra um pouco de hipocrisia. Assim como admitir que, às vezes, somos incapazes de segui-la, por ser de tal forma inconveniente aos nossos desejos que preferimos deixar de lado a moral por alguns instantes ou redefinir definitivamente (até a próxima redefinição) nossos valores. Além disso, nossas violações inevitáveis de conduta seriam, tanto por nós mesmos quanto pela sociedade, punidas mesmo tratando-se de algo tão natural do comportamento humano.

             Em “A Filosofia na Alcova”, vemos na personagem do Cavaleiro um exemplo tanto do idealismo romântico em alguns valores percebidos por seus questionamentos e relutância em aceitar as idéias dos demais, como também uma certa hipocrisia, já que apesar dessa não aceitação ele se rende aos seus desejos e participa dos ensinamentos a Eugénie. Sem a moral religiosa, essa hipocrisia não seria necessária, já que se poderia satisfazer os desejos naturais sem dar-lhes nenhum julgamento de valor.

               Por isso, De Sade idealiza uma sociedade sem a religião e sem a moral, já que essas trariam artificialidade e insatisfação, por exigirem do homem a repressão de sua natureza, impedindo-o de ser livre.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Com as mudanças propostas por De Sade perderíamos remorsos e ganharíamos naturalidade e, portanto, liberdade. Com certeza, nos é conveniente e, correndo o risco de ser subversiva, não seria muito mais vantajoso?

Mas, é claro, não somos capazes de admiti-lo. Centenas de anos organizando-se em torno da religião católica e incorporando tão profundamente os valores cristãos, nossa sociedade nos influencia a tal ponto que, apesar de entendermos a mensagem de liberdade de “A Filosofia na Alcova”, relutamos em aceitá-la e preferimos ver seu autor como um desequilibrado e extremista.

O período revolucionário terminou, as mudanças necessárias para a substituição da classe que possui poderes políticos foram feitas, os radicais foram calados ou superados; com isso, muitos valores foram mudados, mas nunca tão drasticamente como proposto por De Sade, que até hoje é lido com olhos de reprovação moralista.

O cristianismo fez um bom trabalho, mas os desejos continuam existindo e nós continuamos cedendo a eles vez ou outra, especialmente em tempos como o nosso em que a idéia de tentação do diabo parece cada vez mais ridícula.

Assim, continuamos nossa hipocrisia e deixamos a utópica sociedade idealizada por De Sade apenas no plano literário e, talvez, nos permitamos apreciá-la, mesmo que escondidos dentro de nossos pensamentos.

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