“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

SERPENTES

Filed Under (Poemas) by Tânia on 29-07-2004

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amants Línguas negras e bipartidas

se entrelaçavam fervorosamente

e na mistura de seus hálitos,

o cheiro e o gosto ferroso do sangue

lhes era maravilhoso.

Cada qual sugava o veneno

do outro como se fosse vida;

e cada vez mais se envenenavam

voluntariamente em sua própria volúpia.

Insistentes, degustavam um ao outro

morrendo lentamente a cada toque;

a dor lancinante da sua lascívia

não os intimidava e

mesmo sua lassidão

não os fazia parar:

o sofrimento os mordia e rasgava,

o prazer os lambia e sugava.

O veneno escorria a cada gota de suor

que se amargava no deleite doce

de sua lastimável escravidão.

O bote havia sido dado,

agora rastejariam como serpentes.

CORPOS

Filed Under (Poemas) by Tânia on 27-07-2004

images Hoje me despertou um desejo súbito –

eu queria o seu corpo.

Eu me vestiria com a sua pele,

falaria com a sua boca,

moveria levemente seus lábios.

Eu sentiria novamente o toque

de seus dedos nos meus braços,

os seus braços;

gozaria de cada um de seus movimentos,

encheria seus pulmões de ar

e assim chegaria a cada pequeno

pedaço de você.

Pensaria com os seus pensamentos,

sorriria com os seus sentimentos,

veria o mundo com os seus olhos,

temeria com os seus medos,

ouviria sua voz com os seus ouvidos.

Talvez se assim eu pudesse,

compreendesse

o que falta e o tivesse.

Mas como não posso mais do que

me apaixonar,

me contento em ver seus olhos,

ouvir suas palavras,

provar seu beijo,

sentir cheiro

e seu corpo junto ao meu.

VIOLENTO

Filed Under (Poemas) by Tânia on 14-01-2003

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0w-Pieta Essas palavras não são mais

vãs palavras de indignação.

Isso não é um protesto.

Eu não me importo.

Eu não quero saber se existem

Pessoas sofrendo em algum lugar.

Que morram. Que definhem lentamente.

Só o que importa é que eu

Ainda esteja bem.

Que eu esteja sempre

Como minha volúvel vontade desejar.

 

Se existe alguém com fome

Não importa desde que eu

Tenha meu prato preferido no jantar.

Se alguém vai morrer de frio esta noite,

Eu não vou nem pensar

Porque adoro dormir com cobertor.

Se alguém implora para morrer,

Eu não me importo.

A vida não vale muito para mim.

 

Se há guerra – que seja no oriente.

Se falta água – tome coca-cola.

Se não há pão – que comam brioches.

Se ganha pouco – não trabalhe.

Perceba, assim, como era o bastante.

Se essas coisas são caras – prive-se delas.

Se acha que alguém realmente se importa – olhe envolta.

 

Eu não me importo.

Mas, ao menos, sou capaz de admitir.

Não lamento e falsamente me apiedo

Para sentir o quanto sou bondoso e caridoso.

Não creio que isso seja suficiente. É para você?

Não vou apenas sentir-me mal por esse estado de coisas.

Mas, assim como você, não estou disposto

A mover um só dedo ou abrir mão de uma única comodidade

Para que eu não precise mais sentir pesar

Pelo sofrimento de alguém

Que obviamente não seja eu mesmo.

ESSAS NOITES

Filed Under (Poemas) by Tânia on 12-07-2002

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Noite As noites são os piores momentos.

Quisera eu que existissem

Dias sem o anoitecer!

No inverno,

Quando tanto tempo se passa

Nessa sórdida escuridão,

Transformo-me numa rocha de gelo,

Incapaz de derreter.

Esse silêncio solitário e sufocante,

Me faz sentir com tanta intensidade

Tudo aquilo com que finjo não me importar!!

Pensamentos invadem meu cérebro,

E me enlouquecem com as possibilidades

E impossibilidades…

Trazem os sonhos

Aos quais me obrigo

Para esquecer o que me feriu.

Como me entregar?

Se, ao fazê-lo,

Tudo me mostra

O quanto não vale a pena!

Que a dor que me traz

É tão pior do que a paixão

Que um dia me invadiu

E me fez feliz…

ASCO

Filed Under (Poemas) by Tânia on 03-02-2002

AYGMA3CCANB3EF4CAHY5IG0CAV290R5CADG4C8XCADOKY94CAY4T0L9CATDPQ5BCAMI3QLXCA0BY3AUCAF42GNUCA1CLFSOCAC9J3LSCAA485IDCA0WN3J5CAZZ58LICA8EKXP2CAKXEPIGCA752KSD Agora você lambe a faca ensangüentada

Que torcia em meu peito

E me arrancava gritos

que já não eram de dor.

Agora, com a faca nas mãos,

Você pode ver o sangue escorrer

Do vazio que ela deixou

E com essa hemorragia eterna

Se deliciar…

 

Enquanto o sangue quente

Simplesmente escorre

Saindo de todos os orifícios

Do corpo, tentando escapar…

Encharca os trapos

Que ainda restam sobre a pele

Seca. Rachada pelas agulhadas

Do vento gélido que sopra

Em tudo a minha volta.

 

Quando já não puder mais

Olhar e empunhar o machado,

Esmigalhe meu crânio;

Escolha bem as partes que você quer…

 

Descobrirá que o que tanto

Você tentou encontrar nos meus olhos

e no meu coração,

Mas que só poderia achar em meu cérebro,

São apenas miolos podres.

E agora, o que vai fazer?

 

Agora, que rastejam vermes

Nos mesmos lábios que você beijou…

E você não suporta mais!

Essa forma decadente

Que era o alvo de todos os seus

Mais profundos desejos!

E não suporta mais!

Saber que mesmo lhe causando

Asco,

Você ainda deseja…

Talvez mais do que nunca.

MEU JARDIM

Filed Under (Poemas) by Tânia on 29-07-2001

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Queimei meu jardim de belas flores,

deitei sobre as cinzas

inalando o odor de flores mortas,

finalmente me cansei de tantas dores.

 

Correndo descalça pelo asfalto,

senti na pele o que é queimar;

depois que descobri a dor de sonhar,

nunca mais voarei tão alto.

 

Sem exalar qualquer odor, o asfalto arde.

E, como as chamas com o vento,

contorce o ar que respiro ofegante.

 

Cobrindo as cinzas deste triste fim

está a correnteza das lágrimas

de passadas e futuras lástimas…

que regam o que fora um belo jardim.