“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

TEMPO

Filed Under (contos) by Tânia on 18-09-2003

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          Ficava tarde. Esperavam os ponteiros caminharem para passar um tempo. O tempo chegar. Não queriam pensar, embora houvesse muitos pensamentos. Talvez por isso – era demais. Não queriam falar. Havia muito a ser dito. O tempo passava. Calavam-se.

            A areia continuava a escorrer suavemente levando com ela os segundos perdidos que se arrastavam a cada lenta inspiração de um e de outro simultaneamente. Cada uma delas trazia sua respectiva expiração, custosa e pesada. E ambas mantinham dentro deles as palavras – silêncio. Aquele que lhes custava as horas de angústia.

            Pelo menos, ela já havia substituído a ansiedade. As mãos não suavam mais. Os pés não se moviam insistentemente. Isso simplesmente porque agora a ausência se fora. Agora, havia apenas os sussurros do silêncio ecoando em seus ouvidos.

            Calavam-se. Não se moviam. Mas os ponteiros ainda caminhavam e a areia ainda escorria. O tempo não chegava. Esperavam passar um tempo. Sem pensamentos. Sem palavras. Era tarde.

            Despediam-se. O silêncio é interrompido e, com ele, a angústia. A ansiedade retoma seu posto. Eles se lembrariam do não-falar. Havia muito a ser dito. Não queriam pensar. O tempo, mais uma vez, não havia chegado. Era culpa do silêncio. Esperavam passar um tempo.Tempo

DELÍRIO

Filed Under (contos) by Tânia on 09-04-2003

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          Aqui estou. Com a caneta em mãos e nenhuma palavra para escrever. Este também não é um bom começo… mas, talvez, seja o único que eu possa fazer agora. Minhas mãos tremem, meus olhos se cansam. Minhas aflições insistem em sufocar-me. E, quando tento derramá-las em palavras, essas palavras se escondem em sombras como esta, que minha trêmula mão empunhando a caneta, faz sobre o papel branco. Tiro meus óculos minuto a minuto como se fossem eles que estivessem a me atrapalhar os pensamentos. Apoio-os sobre a mesa e posso ver ali, naquele espelho suave, um velho escritor, caneta em mãos… papel em branco.

            Talvez eu já esteja velho demais para isso. Mas essas angústias de sempre continuam a zombar de mim e desafiar-me a escrever uma nova página tentando livrar-me delas. Mas, só o que vejo agora é a imagem embaçada por meus olhos gastos de velho escritor que não escreve refletida pelas lentes de meus óculos grossos repousados sobre o papel branco. Recoloco os óculos para que essa imagem não me atormente tanto quanto a música que se repete em minha mente ecoando sempre as mesmas palavras vazias, mas com uma sonoridade que me causa arrepios e às vezes até lágrimas.

a-poesia-mao-escrevendo Não consigo saber como descrever esse sentimento envolvente que me toma enquanto mentalmente repito as mesmas palavras vazias durante horas. Sinto-me perseguido por elas. Não suporto mais repeti-las. Estou farto delas. Impedem-me de qualquer outro pensamento. Mas sua sonoridade me fascina de tal forma que não posso parar de pensar nela. E pensar e dizer cada uma daquelas repetidas palavras vazias. E pensar… E dizer… essas palavras vazias.

            As palavras parecem estúpidas quando repetidas muitas vezes. Um mergulho nessa estupidez vazia me leva a notar mais uma vez como todas as convenções são estúpidas. Estúpidas como as palavras que não param de se repetir mais e mais vezes como se tivessem vida própria. Tudo isso me leva a ver minha pequenice e a pequenice de tudo o que considero grande. Como o mundo pode ser grande se nem sei onde o universo acaba. Sim, porque a idéia de infinito é tão impalpável que me recuso a considerá-la plausível. Mas não importa que pensamento absurdo me venha à mente, aquelas mesmas palavras ocas ecoam vazias e estúpidas. E sempre recomeçam quando acredito que vão acabar.

            Meus olhos pesam e meu velho corpo pede por repouso. Apesar de cansado, sei que não encontrarei sono tão cedo. Mesmo assim, deito-me e fecho os olhos sem dormir, numa inércia gostosa e preguiçosa onde a única ocupação desta velha carcaça que pesadamente carrego é respirar e divagar nas mesmas palavras ocas, vazias e estúpidas que ecoam em todo o meu cérebro e começam a fazê-lo parecer dormente.

            Envolvido por toda uma dormência que vem através de uma preguiça suave e continuada, permaneço imóvel, mas sinto que todo o meu corpo está envolto numa esfera de calor que passa do aconchegante para o desconfortável, para o insuportável, para o sufocante, num contínuo de degradação. Mas, insisto na paralisia e, brevemente, uma brisa fresca vem da janela e sopra todo o calor de meu corpo. Segue-a um forte vento cortante que torna-se bruscamente num vento terrivelmente glacial. O cobertor está ao meu lado, mas não me atrevo a sequer tocá-lo. Tremo. E assim continuo sem saber por quanto tempo. Quieto. Imóvel.

            As palavras que tanto me perseguiam e insistiam em me fazer ouvi-las segundo a segundo de repente me abandonaram; eu simplesmente não conseguia mais lembrar-me delas. Foi quando, enfim, pensei que a consciência me tivesse deixado. Mas não. Este foi meu momento de maior consciência.

           

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MISÉRIA

Filed Under (contos) by Tânia on 13-03-2003

M

endigo… mendigo… mendigo…

Aquela palavra ecoava em seu pensamento insistentemente. Era um estado. Era isso o que ele era. Um mendigo.

            Nunca pensou que um dia estaria ali, com nojo de si mesmo. Seu próprio cheiro lhe causava engulhos furiosos – era assim que fazia para não sentir fome. Mas havia dias em que até seu cheiro era ineficaz contra a fome. Pensava que comeria fezes, embora esse fosse um ato antropofágico para ele.A57S7R3CA3I28WJCA31GZJPCAC6WHKFCAB30VA9CA14K2U9CARYSYKOCARSVPKXCAYWXU78CAGVFAXWCASLZ5LCCASIXKVXCA8B0C36CA8A7YYKCA9I5LN0CAQE8C1ZCA9JVYUZCAJZYSB8CAG0146G

             Aquele monte de sujeira e ódio escondia dentro de si o que um dia fôra um homem. E esse estranho corpo ali oculto ainda não podia olhar para si. Mas sentia nos olhos dos que cruzavam com ele a humilhante piedade – aquele tapa de mão aberta que diariamente o ofereciam nas ruas. Por que tinham que olhar daquele jeito? Será que pensam que sua compaixão ajuda? Pois eu não quero seu sentimento falso como todas aquelas porcarias de camelô. Não queria essas cinzas de compaixão enlameadas pelo comodismo. São ratos. Apenas ratos. Somente ratos que, como eu, vasculham pelas ruas. Se minha miséria é por comida, a sua é por consolo.

            Sua revolta com aquele mundo distante e com tudo aquilo que por infelicidade do acaso era obrigado a ver bem de perto o fazia chorar em cada noite solitária em que se esparramava por alguma calçada suja de qualquer rua a espera de mais um dia, maldito como todos os outros.

            E, cada vez que uma buzina de carro o despertava dentro de um viaduto, debaixo de uma ponte ou em qualquer esquina onde pudesse encostar-se, lembrava-se de que havia pessoas do lado de dentro daqueles vidros insulfilmados. Estavam tão escondidas em seus covis que nem sequer podia mais identificá-las como pessoas. Eram ratos. Apenas ratos.

            Mas todas elas ainda podiam vê-lo. Viam, mesmo não querendo ver. Como alguém que carrega um cadáver nos braços. Era deprimente olhar – garras esmigalhavam-lhes por dentro, derretiam seu duro coração. Lembravam-se, enfim, de que o importante era que estava quentinho ali dentro, a música lhes distraía e suavizava o momento transformando-o em cena de filme visto de poltronas acolchoadas e confortáveis. Bastava voltar os olhos para outro lado quando as garras conseguissem custosamente rasgar-lhes a carne. Até que não restem mais lados para se voltar onde não haja miséria. Essa miséria de almas tão miseráveis quanto a sua própria.

           

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EPIFANIA

Filed Under (contos) by Tânia on 13-03-2003

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          Aproveito-me desse doce castigo sem crime para me fatigar em pensamentos torturantes que continuam a rondar-me apesar de tentar esgotá-los repetindo-os exaustivamente. A espera tediosa a que me submeto é inevitável. As horas lentamente escorrem pelos ponteiros do relógio pendurado na parede suja da sala. A espera se prolonga indefinidamente. Permaneço sentada olhando o nada. Incomodo-me na cadeira. Glúteos dormentes simplesmente conformam-se em permanecer ali parados.

           epifania Uma chuva fina, quase imperceptível, lentamente derrama-se do lado de fora. É suave e calma. Incapaz de me perturbar. É somente uma longínqua imagem que ainda me parece favorável. O sol ainda brilha algumas vezes, embora as finas nuvens o encubram delicadamente por alguns instantes. O ar é úmido, mas leve e agradável. Continuo ali inerte mesmo depois de já ter me cansado de olhar a janela. A tola chuva.

             Percebo o quanto pareço patética ali imóvel como a própria cadeira. As pessoas, incomodadas, parecem olhar-me pelos cantos dos olhos, depois voltá-los para as páginas das revistas para que em sua mente suja e perfeita possam concluir o quanto sou medíocre e que, felizmente, não estão em meu lugar. Hesito ao pensar em levantar e pegar uma revista para que possa, eu também, julgá-los por olhares superiores e arrogantes. Condeno minha tolice e, um tanto falsamente, minha crueldade e implicância. Resoluta, levanto e apanho a maldita revista. Os olhares intimidantes me seguem enquanto faço isso. Mostro-me segura e decidida, mas minhas mãos tremem ligeiramente e minha face cora indisfarsavelmente. Indefesa, volto a sentar-me, mas não antes de ter em minhas trêmulas mãos, vitoriosa, a revista.

            Folheio aquelas páginas sem lê-las. O tédio ao fazê-lo é ainda mais sufocante. Ao menos, agora, não me sentia ridícula olhando o nada. Agora, o que era o nada para mim, não o era para os que assistiam ou mesmo fingiam que não o fosse. Tudo estava bem assim. Os olhares cessaram finalmente. O incômodo não. Nunca.

           

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ESQUIZOFRENIA

Filed Under (contos) by Tânia on 11-03-2003

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             Ah! Você finalmente veio para descobrir o que há de errado comigo!!

            Já pensou na hipótese de eu não ter absolutamente nada de errado?!

            Sabe, é incrível o que a solidão pode fazer a uma pessoa! O silêncio ensurdecedor fica impregnado nos ouvidos; a falta de perspectivas assombra e o som do vento se torna mudo… o vazio é o único companheiro. Aquele que nunca o abandonará pelo resto de seus miseráveis dias.

O escuro consola, pois parece se harmonizar com o interior do corpo. Mas, inquieto, não consigo acomodar-me em nenhuma posição; e, assim, mesmo que em pequenos gestos, movo-me a cada exatos cinco minutos durante os quais esforço-me em ficar completamente paralisada até que se complete mais um ciclo.

1204155253 É terrível… terrível, a dor! Onde? Não posso saber onde está a dor! Apenas sinto que dói e simplesmente não quer cessar… Ás vezes parece ser em meu sangue. A dor parece percorrer todo o meu corpo. A dor! Só pode estar no sangue! Ela sempre volta. A dor.

Mas pode ser que esteja só em minha mente… E me engane a cada segundo. Posso senti-la por toda a parte!! É isso… me engana!

O tempo também trai! Pois estes segundos são somente uma inútil tentativa de contê-lo… de agarrá-lo! Mas ele me engana. Desvencilha-se de minhas garras… me esforço arduamente tentando segurá-lo mesmo que seja num desses segundos… Mas o único tempo que posso ter, em migalhas espalhadas pelos meus sentidos e confundidas pelo meu pensamento, são essas lembranças…

Tento retê-las com esta caneta de mil maneiras, mas nunca é o bastante…

Míseras lembranças! Se não as posso ter por completo, de que me servem recortes?! É por isso que as odeio… e não posso separar-me delas! Elas precisam estar aqui. Preciso me lembrar! Preciso! Como era aquele cheiro? Qual era mesmo o sentimento que me despertava? Como não consigo me lembrar daquele rosto, se era dele que provinham aquelas sensações que já não sei bem se eram essas de que me recordo hoje?… É inútil!

O que resta é apenas a autodestruição! Então, fumo mais esse cigarro… trago devagar… sinto lentamente meu pulmão intoxicar, esverdear, apodrecer… Só me resta morrer devagar, já que me falta a coragem para um suicídio mais digno! Morrer aos poucos… como se viver não fosse exatamente isso! Como se tivesse sido pouco cada uma de minhas mortes…

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SUICÍDIO

Filed Under (contos) by Tânia on 12-02-2003

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            Olhei o chão longínquo. Meus pés chegariam até ele depois de dois ou três metros de queda livre… chegariam até ele. Aquela imagem parecia me chamar. Queria encontrá-la. Algo além da gravidade impulsionava-me para baixo. O chão.

            Brilhava refletindo a luz do sol. Enganava meus olhos com sombras que pareciam se mover sozinhas. A distorção causada pelo calor me causava arrepios. As árvores balançavam suavemente, mas não podia sentir o frescor da brisa. Só o que sentia era a força de uma tempestade me empurrar para além da grade da varanda.

            altura6 Havia atravessado-a quando um pensamento súbito me ocorreu: conseqüências! Não havia pensado nisso até então. Poderiam ser dramáticas, irreversíveis… fatais. Pensar em tais circunstâncias me fez segurar com força a grade de proteção. Era de uma madeira frágil, suja e mal cuidada. Era minha segurança.

            Novamente as conseqüências voltaram a me perturbar. Não me assustariam dessa forma se não tivesse uma última coisa a fazer. Mas o que? Não adiantava me enganar. Sabia exatamente o que era.

            Fui encontrá-la.

Quando cheguei, pude vê-la dentro da casa, dançando alegremente enquanto ouvia sua banda preferida tocar no último volume do aparelho. Era uma imagem tremendamente graciosa…

 Ela me recebeu com um caloroso abraço. Passamos juntos toda a tarde. Ríamos. Ela estava com a cabeça apoiada em meu colo; os cabelos espalhados em volta de mim e um sorriso angelical. Era linda! A música ainda continuava:

-   Eu adoro essa música!

 

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