“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

“HISTÓRIA DO AMOR NO OCIDENTE”: SOBRE PAIXÃO E EXPRESSÃO

Filed Under (citações) by Tânia on 09-03-2009

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     “Se a literatura pôde vangloriar-se de ter influído nos costumes da Europa, isso se deve, sem sombra de dúvida, ao nosso mito [Tristão e Isolda]. De maneira mais precisa: à retórica do mito, herança do amor provençal. Não é necessário supor, nesse caso, qualquer poder mágico dos sons e da linguagem sobre nossos atos. A adoção de certa linguagem convencional suscita e favorece naturalmente a eclosão dos sentimentos latentes mais suscetíveis de se exprimirem dessa forma.

    É nesse sentido que podemos perguntar, como La Rochefoucauld: quantos homens se apaixonariam se nunca tivessem ouvido falar de amor?

    Paixão e expressão não são a bem dizer separáveis. A paixão se alimenta daquele impulso do espírito que, aliás, faz nascer a linguagem. Quando ultrapassa o instinto, quando se torna verdadeiramente paixão, ela tende ao mesmo tempo a narrar-se a si própria, seja para se justificar, se exaltar ou simplesmente para se entreter. (O duplo sentido é significativo.) Nesse particular é fácil verificá-lo. Os sentimentos que a elite experimenta, e também a massa, por imitação, são criações literárias, na medida em que certa retórica é a condição suficiente de sua confissão e, portanto, de sua tomada de consciência. Na falta dessa retórica, tais sentimentos certamente existiriam, mas de uma forma acidental, não-reconhecida, a título de extravagâncias inconfessáveis, como se fossem contrabando. mas sempre verificamos que a invenção de uma retórica fazia ativar rapidamente certas potencialidades latentes do coração.”mitologia-eros

Crime e castigo: sobre a transgressão

Filed Under (citações) by Tânia on 24-02-2009

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      “Quanto à minha divisão dos seres em ordinários e extraordinários, convenho que é um pouco arbitrária, mas ponho de parte a questão de egoísmo, que não faz nada ao caso. Simplesmente julgo que, no fundo, o meu pensamento é justo. Quero estabelecer o princípio de que a natureza divide os homens em duas classes: uma inferior, a dos ordinários, espécie de matéria, tendo por única missão reproduzir-se; a outra superior, compreendendo os homens que têm o dever de lançar em seu meio uma palavra nova. As subdivisões apresentam traços distintos bem característicos.

      À primeira pertencem, em geral, os conservadores, os homens de ordem, que vivem pela obediência e têm por ela um culto. Na minha opinião, são até obrigados a obedecer, porque é essa a missão que o destino lhes impõe, e isso nada tem de humilhante para eles.

      O segundo grupo compõe-se apenas de homens que trangridem a lei, ou tentam transgredi-la, segundo os casos. Naturalmente os seus crimes são relativos e de uma gravidade variável.

      A maioria deles reclama a destruição do presente por causa do melhor.

      Mas, se em defesa da sua idéia, forem forçados a derramar sangue, a passar sobre cadáveres, eles podem em consciência fazer uma coisa e outra – no interesse dessa idéia, é claro. É neste sentido que o meu artigo lhes admite o direito ao crime. (O senhor lembra-se que o nosso ponto de partida foi uma questão jurídica.) Demais não há motivos para nos inquietarmos a esse respeito: quase sempre as massas não lhes reconhecem esse direito: cortam-lhes a  cabeça ou enforcam-nos (mais ou menos), e desse modo exercem a sua missão conservadora até o dia em que essas mesmas massas erigem estátuas a esses mesmos supliciados e os veneram (mais ou menos). O primeiro grupo é sempre senhor do presente, e o segundo é senhor do futuro. Um conserva o mundo, multiplica-lhe os habitantes; o outro move o mundo e o dirige. Estes e aqueles têm absolutamente o mesmo direito à existência e – viva a guerra eterna – até a Nova Jerusalém, bem entendido.”dost01