BREVES COMENTÁRIOS SOBRE “CRIME E CASTIGO”
Filed Under (livros) by Tânia on 11-04-2003
Tagged Under : dostoievski, resenha
Resenhar um clássico como “Crime e Castigo” me parece ser uma tarefa tão difícil quanto pretensiosa, mas a obra me causa um fascínio tão grande que não pude resistir à tentação de proferir pelo menos algumas palavras a respeito de minhas mais fortes impressões sobre essa obra-prima de separe uns 2 ou 3 paragrafos e divida, fica como um abstract.
Por ser um texto tremendamente rico, obviamente, muitas questões serão deixadas de lado; aliás, acredito que o livro diz mais do que qualquer comentário que se possa fazer sobre ele; mas, os pontos selecionados chamaram-me, especialmente, a atenção.
Primeiramente, gostaria de comentar sobre o texto em geral para depois voltar-me para questões específicas, como a relação estabelecida entre racionalidade e emoção (o que estou inclinada a pensar como central na obra), a questão da ambigüidade do personagem Roskólnikof, a culpa, a caridade, o arrependimento do personagem; e uma espécie de resposta ao comentário que algumas pessoas fazem a respeito de Dostoiévski e, em especial, de “Crime e Castigo”, de que seria uma obra deprimente, com o que discordo completamente. Mas, deixemos as introduções e vamos logo ao assunto.
Começo descrevendo a leitura do romance com as palavras que escrevi poucos momentos depois de finalizá-la: “É uma experiência absurdamente mágica e indescritível”. As cenas são muito intensas, marcantes. Há momentos sufocantes, ansiosos, nervosos, tristes, emocionantes e emocionados. Todos têm em comum o fato de serem incrivelmente belos. Alguns, apesar da relutância, nos levam, inexoravelmente, às lágrimas.
O texto possui inúmeras considerações filosóficas, políticas, sociais, éticas que compõem não só as conversas entre os personagens, mas também sua reflexão interior. Além disso, nos obriga a pensar seriamente quando faz com que nos deparemos com situações de extrema miséria, tanto material quanto moral.
Tais pensamentos nos levam a uma questão central na obra: levar uma vida meticulosamente racional (mesmo que seguindo uma lógica, sob certos aspectos, imoral) ou uma vida guiada pelas emoções, pelos sentimentos, sem se preocupar com o que é lógico, mas sim com o que é certo segundo a consciência.
Durante todo o desenrolar da história, Roskólnikof leva uma vida extremamente racional. Cada ato seu pretende ser friamente calculado segundo a lógica. E assim ele tenta fazer, muitas vezes tendo sucesso, por exemplo, nos momentos em que dá respostas à polícia, quando nunca se trai. Mas para provar sua “tese” extremamente racional e perfeitamente aceitável, comete um crime brutal que o faz dolorosamente perceber que é incapaz de levar a vida com uma culpa tão grande, mesmo que insistisse em tentar se convencer de que o que fez pode não ser, necessariamente, considerado um crime, já que Napoleão havia matado muito mais pessoas na guerra por motivos menos nobres que o seu (não permitir que sua irmã se vendesse para ajudá-lo). Mesmo que conseguisse responder satisfatoriamente aos interrogatórios da polícia, jamais escaparia de sua consciência.
Notando que não consegue ficar em paz consigo mesmo, Roskólnikof se pergunta o que faz com que um homem que mata muitos outros numa guerra seja glorioso, e outro que mata uma velha imprestável com um machado seja um assassino. Pergunta que é, no mínimo, incômoda para o leitor.
Mas o curioso é que Roskólnikof seja um criminoso calculista que não matou por uma razão nobre (como tenta se convencer), mas sim para provar a si mesmo que era capaz de fazê-lo, e, mesmo assim, parece para o leitor, moralmente muito melhor que Napoleão. Ele nos arranca piedade, compaixão e benevolência, nos apaixona com sua bondade, sua humanidade, seu sofrimento.
Seu crime pesa-lhe tão fortemente na consciência, que sofre enormemente,. Tenta vãmente redimir-se fazendo boas ações, sendo caridoso, especialmente com a família de Sonia, mas não lhe resta outra saída senão entregar-se depois de muito remoer-se pela culpa. A punição que sofre faz com que se livre desse tão pesado fardo e, mais ainda o faz, a abertura de seu coração para as emoções, para o amor. Sonia é sua salvação.
É interessante notar também que Roskólnikof não lamenta a morte da velha. Chega a lamentar pela outra, que foi acidental, mas nunca a da velha. Apenas se culpa por Ter cometido um ato tão horrendo.
Por fim, uma última questão que mereceria um texto só para si, mas que aqui comento apenas de passagem. A respeito do fato de alguns considerarem “Crime e Castigo” deprimente me permito citar apenas um argumento que creio ser só ele suficiente para discordar de tal afirmação: lembro a esses que essa obra tem um dos finais felizes, com toda certeza, mais belos de toda a literatura; me atrevo a dizer, mesmo aquela que desconheço.
Ainda faltam muitos assuntos que seriam interessantes serem comentados, mas deixemos isso para que outros mais experimentados possam melhor fazê-lo. Apenas me resta dizer que esse é um livro que vale a pena ler, reler e refletir.