“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

A QUESTÃO NACIONAL EM ULISSES DE JAMES JOYCE

Filed Under (artigo) by Tânia on 23-07-2010

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"They were national first, and it was the intensity of their own nationalism which made them international in the end".

James Joyce

 

james joyce

 

Neste trabalho, discutiremos como de coloca a questão irlandesa em Ulisses, de James Joyce. Para tanto, partiremos, primeiramente, de uma apresentação introdutória, situando historicamente o nacionalismo irlandês e apontando sua relação com a literatura como forma de consolidação de uma identidade nacional. Em seguida, faremos uma breve apresentação da posição de Joyce em face da construção dessa identificação cultural através da literatura na Irlanda. E, a partir disso, faremos uma breve apresentação e comentário dos aspectos nacionais contidos em Ulisses, apontados por Tymoczko em “The Irish Ulysses”, para mostrar como Joyce lida com a questão de maneira particular e sob a luz desta peculiaridade utilizar as possibilidades interpretativas colocadas no estudo de Tymoczko para interpretar o episódio “Penélope”.

Surgimento da questão nacional na Irlanda

 

            Antes de 1600 a hegemonia imperial da Inglaterra sobre a Irlanda era exercida apenas nos arredores de Dublin e apenas nominalmente no resto da ilha, que era fragmentada em cinqüenta ou sessenta regiões regidas por um líder nativo, denominado ri (rei) ou algum nobre anglo-irlandês. (Cahalan) A partir dos anos 1590, começam a haver movimentos que visavam acabar com a anglicização de áreas gaélicas, provocando medo por parte da Inglaterra de um possível inimigo católico que pudesse se aliar à França. Durante esse período, embora já houvesse alguma identificação cultural, a idéia de formação de uma nação ainda não estava consolidada.

            Após a Revolução Francesa, a idéia de nação e, consequentemente, de uma identificação nacional torna-se mais evidente. Na Irlanda, em 1798, surge um primeiro sinal de nacionalismo com a Revolução Irlandesa, quando irlandeses católicos uniram-se à França contra os protestantes que queriam a união com o Reino Unido. Vencidos os separatistas, com a assinatura dos atos de União, em 1801, o parlamento irlandês foi abolido, situação que durou até 1922. Ingleses e irlandeses protestantes, especialmente da região de Ulster (hoje Irlanda do Norte), acreditavam que somente a união com o Reino Unido traria civilidade aos considerados selvagens célticos. (McCAw)

Nos anos de 1840, conhecidos como período da Grande Fome, um milhão de pessoas morreram e mais um milhão emigraram, devido à escassez de comida causada por um fungo que destruiu várias safras de batata combinada à má administração econômica por parte do Reino Unido. A calamidade conseqüente deu força à idéias nacionalistas, especialmente por parte da maioria católica que mais sofria com a fome, culminado na “Young Irelander Rebellion”, em 1848. Depois disso, várias manifestações sociais e nacionalistas ocorrem no período conhecido como “Land War”, quando uma liga foi formada para defender os interesses dos plebeus. Alguns líderes nacionalistas, como Charles Stewart Parnell, vendo o potencial de mobilização popular da “Irish National Land League”, passaram a envolver-se e formaram um partido. Com isso, os irlandeses conseguiram uma série de atos por parte da Inglaterra, que tentava conter o apoio ao nacionalismo independente irlandês.

Em 1889, o escândalo acerca do divórcio de Parnell, que mantinha relações adúlteras, dividiu o partido e Parnell, aclamado como “O Rei não coroado da Irlanda”, saiu do governo e morreu em 1891. Ainda que considerado traidor por muitos que o apoiavam, tornou-se uma figura legendária e vários mitos foram criados a seu respeito.

Depois de muitos conflitos e uma guerra pela independência, em 1921, irlandeses e britânicos produziram um tratado que declarava a Irlanda um estado livre. Foi dado à Irlanda do Norte o direito de escolher permanecer parte do Reino Unido; assim Ulster separou-se dos restantes vinte e seis condados que passaram a formar o Estado Livre, posteriormente denominado República da Irlanda.

 

A Literatura Irlandesa

 

            A cultura irlandesa passou por grandes mudanças durante o século XIX, cujo exemplo mais gritante é a própria língua. Em 1820, as primeiras Escolas Nacionais foram criadas no país, o que encorajou o letramento em inglês, já que falar irlandês era proibido nas aulas. Apesar disso, antes de 1840 o irlandês ainda era a língua da maioria da população. Depois da Grande Fome, a língua sofreu forte declínio, já que as áreas onde havia mais falantes foram as mais devastadas. Como reação, nacionalistas deram início ao “Gaelic Revival”, especialmente no fim do século XIX, na tentativa de reviver não só a língua irlandesa, como também esportes e literatura.

            Sendo a cultura um dos aspectos mais importantes para a consolidação de uma identificação nacional, o nacionalismo, ao longo da história da Irlanda, foi acompanhado por um esforço de esboçar uma cultura e, consequentemente, uma literatura tipicamente irlandesas. Apesar de haverem poucos estudos a respeito, a produção de trabalhos literários preocupados com a questão nacional aumentou consideravelmente na Irlanda à partir de 1820, inclusive, com as primeiras publicações em periódicos dublinenses de listas dos “autores irlandeses”. (MacCaw) É interessante notar que se tentasse construir uma literatura nacional exatamente no momento em que a Irlanda havia, recentemente, sido unida à Inglaterra. Nos anos de 1840, durante a Grande Fome e “Young Ireland movement” também várias vozes levantaram-se por uma literatura nacional e uma discussão a respeito de quais seriam os temas nacionais a serem abordados. Mas, apesar disso, a maioria dos estudos ainda se concentra somente no chamado “Irish Literary Revival” dos anos de 1880.

            Os adeptos do renascimento da literatura irlandesa defendiam o uso da língua irlandesa e a abordagem de temas tipicamente irlandeses nas obras, os quais seriam folclore céltico, misticismo e questões católicas. Um dos mais famosos era Yeats, também ativo defensor dos interesses irlandeses politicamente, como senador. Especialmente nesse período, até a independência em 1922, houve o processo de consolidação da literatura irlandesa reconhecida, não só dentro dos limites da ilha, como também internacionalmente.

 

ULISSES E A QUESTÃO IRLANDESA

 

Apesar de James Joyce ter sempre escrito sobre a Irlanda, especialmente sobre Dublin, viveu a maior parte de sua vida auto-exilado da ilha. Isso porque utiliza sua tradição como irlandês para chegar a aspectos mais abrangentes que o mero nacionalismo. Joyce não era partidário do “Celtic Revival”, principalmente porque preferia escrever em inglês e tinha interesse num público mais abrangente que apenas o irlandês. Mesmo assim, acreditava que se devesse utilizar a própria tradição e cultura, mas sem deixar de produzir uma literatura cosmopolita.

            Além disso, Joyce associa o movimento nacionalista com destruição e caos, particularmente com a destruição de Dublin em 1916. (Kenner) A personagem “The Citizen”, inspirada em Michael Cusack, um estridente nacionalista cultural, é colocada como pessoa rude, de pensamentos tacanhos e também caótica. É interessante notar que tal posição coincide com o interesse modernista de fazer literatura não relacionada à cultura de massa.      

            Sendo irlandês, Joyce escrevia sob sua tradição e cultura, utilizando-as direta ou indiretamente em seus textos. Durante o tempo em que viveu em Dublin, teve contato com a tradição oral e mitológica irlandesas através de diversas fontes, sendo sua própria família, em especial, seu pai, a maior portadora dessa herança cultural.

 

Questões Irlandesas em Ulysses

 

            Em Ulisses, podemos perceber mais obviamente a referência à Irlanda, principalmente pelo fato de o romance ter sido consistentemente escrito sobre Dublin, no que diz respeito à construção física da cidade, sendo esta, uma espécie de personagem do romance, em particular no episódio “Wandering Rocks”. Além disso, temos vários outros aspectos irlandeses mencionados ao longo da obra, como a questão discutida sobre pertencimento ou não à cidade por parte dos personagens no pub, a pobreza da família de Dedalus, o alcoolismo de várias personagens, a personagem “The Citizen” e o próprio narrador do episódio “Cyclop” que se encaixam perfeitamente no estereótipo do Paddy, satirizado em várias revistas inglesas, as diversas menções históricas, principalmente a Parnell, o catolicismo, a menção ao idioma irlandês com a leiteira no primeiro episódio, a rispidez com Haines, que era inglês, por parte de Dedalus. Um pouco menos óbvia é a presença da cultura irlandesa também no aspecto cômico do romance. O senso de humor irlandês é utilizado com maestria por Joyce por toda a obra através da sátira e ironia que lhe são características.

            Além dessas menções relacionadas à Irlanda e ao povo irlandês, há aspectos mais profundos que conectam Ulisses a tradição e cultura de seu criador. Poucos estudos do tipo foram feitos e, geralmente não se busca nas raízes da tradição irlandesa que Joyce possuía, possibilidades interpretativas para o romance. Tymoczko, em seu estudo, “The Irish Ulysses”, aponta questões de suma importância para uma diferente possibilidade interpretativa da obra, sob a perspectiva da cultura antiga irlandesa, contribuindo com novos significados para as interpretações correntes.

            A primeira referência apontada é o fato de Bloom ser como um judeu errante ao longo do dia, o que remete a uma lenda amplamente conhecida na Irlanda, que, inclusive, serviu de base para o romance “Melmoth the Wanderer”, por Charles Robert Maturin, em 1820.

            Contudo, a referência mais importante, segundo Tymoczko, seria a “The Book of Invasions”[1] que serviria como paralelo para o livro tanto quanto a Odisséia, Hamlet ou a Divina Comédia. O livro contém uma pseudo-história da Irlanda e é parte da tradição oral popular do povo irlandês, usado como referência por Joyce diversas vezes em suas obras. Como todas as estruturas míticas utilizadas por Joyce, este mito também teria sido usado de maneira parcial, como uma subestrutura arquitetônica para a superfície realista da história. Dessa forma, encontraríamos no mito fonte simbólica para as personagens principais.

            Os “Goidels” compartilham da história hebraica, mas escolhem um caminho diferente, assim como Bloom e sua suposta origem judaica escolhe ser batizado como católico. Dedalus pode ser visto como representativo dos invasores de origem grega, particularmente Tuatha De Danann. Molly representaria as recorrentes conexões espanholas na pseudo-história irlandesa. “The Book of Invasions” também contribui para a compreensão da personagem “The Citizen”, que pode ser identificada como representativa da onda de invasões de “Fir Bolg”, já que estes seriam tradicionalmente caracterizados como pessoas rudes e feias. Assim, “The Book of Invasions”, ajudaria a explicar as personagens centrais como “estrangeiros” apesar de serem representações de dublinenses típicos, porque ser irlandês seria descender de imigrantes.

            Essa possibilidade interpretativa dada pela autora, apesar de bastante interessante e criativa, possui os mesmos problemas do paralelo homérico, mas como mencionado no próprio estudo, Joyce utilizaria estas conexões apenas de maneira parcial e unida a diversos outros elementos. Portanto, se vista com este cuidado, essa possibilidade interpretativa parece, de fato, tão válida quanto os paralelos tradicionalmente estabelecidos.

            Tymoczko também aponta o fato de Ulisses ter aparecido como o épico que o nacionalismo irlandês desejava. Em 1904, a discussão literária na Biblioteca Nacional se direcionava para esse tópico; para os nacionalistas, o épico era extremamente valorizado e possuía uma relação com a concepção da história passada de uma nação, logo conferiria prestígio à literatura nacional e a colocaria a tradição literária em destaque tanto internamente quanto internacionalmente. Várias experiências utilizando a forma épica foram feitas pelos adeptos do “Revival”, mas o épico nacional irlandês ainda estava por ser escrito, pois as tentativas falharam por razões formais ou de qualidade – os escritores anglo-irlandeses do “Revival” estavam muito vinculados a poética inglesa. Isso porque, não só os contos antigos de heróis irlandeses eram difíceis de apresentar como épicos nacionais, como também não apresentavam uma poética irlandesa nativa que pudesse ser recebida no cânone europeu e pela modernidade.

            O interesse por um épico tipicamente irlandês, certamente teve influência na escolha da forma em Ulisses, que tem sido denominado um épico moderno. E Tymoczko sugere que seja o épico nacional irlandês por transpor uma poética irlandesa em inglês, pois estabelece uma linha européia para o gênero e princípios formais do conto heróico nativo. O conteúdo balancearia temas irlandeses, perspectivas, acontecimentos e tom com os sancionados pelo modelo clássico. Isso ocorreria através do uso de técnicas narrativas irlandesas, ou seja, descontinuidades na narrativa e variação estilística e do tom irlandês, que seriam os elementos cômicos.

            Tal afirmação me parece um pouco problemática, tendo em vista a existência de uma contradição no próprio argumento. Se Joyce utiliza poética irlandesa para construir o romance, logo este não poderia ser considerado um épico, já que este é um gênero da poética da tradição ocidental, ou seja, parte da tradição inglesa. Se Tymoczko defende que a estrutura é irlandesa, não faz sentido que continue a considerar o romance como épico sancionado pelo modelo clássico. Por outro lado, se considerarmos Ulisses como paródia desse modelo utilizando-se de estruturas narrativas tradicionalmente irlandesas, a colocação parece fazer mais sentido.

Outra questão importante em Ulisses está relacionada ao gênero; as inovações formais e estilísticas são consideradas as maiores que a obra trouxe para a literatura do período, contrariando as convenções de um romance como era concebido até então. Ulisses viola as expectativas dominantes através da variação em modo e estilo.

Segundo Tymoczko, essa variação das estruturas narrativas seria uma característica da poética irlandesa. A autora apresenta alguns gêneros da literatura irlandesa antiga que ecoam em Ulisses, os quais seriam o “catecismo”, as listas, o itinerário imaginário, os nomes das personagens e a presença de história e pseudo-história no texto, todos considerados subgêneros pela literatura européia, mas largamente utilizados em textos irlandeses. Além disso, a autora mostra como Joyce utiliza da variação de estilos, que seria uma característica dos textos irlandeses, para, através de sua origem cultural, trazer inovação para a literatura internacional. Assim, a variação estilística seria a função de gênero considerada tipicamente irlandesa e não os gêneros em si, já que estes são caracteristicamente europeus.

Da mesma forma que as técnicas e métodos de Joyce em geral, a literatura irlandesa seria somente parcialmente responsável por essa variação e os modelos irlandeses convergem com outras fontes. Assim, os estilos parodiariam a prosa inglesa, mas o uso de tantas variações num mesmo texto não seria meramente uma invenção de Joyce, mas sim a utilização de recursos de sua própria herança cultural. Isso porque, segundo Tymoczko, contos antigos irlandeses são geralmente compostos de uma combinação de poesia e prosa, sendo que existem dois tipos de poesia e pelo menos três de prosa, além de grande variedade de linguagem e registro, como a utilização de arcaísmos, linguagem técnica, informal, afetiva, rude, etc. Há também radical variação na quantidade de diálogo. Assim, Ulisses poderiam ser visto como um análogo moderno, em inglês, do que seria aceito como literatura pela tradição irlandesa.

Essa utilização é muito significativa se pensarmos na discussão a respeito do estabelecimento de uma relação entre o chamado estilo inicial dos seis primeiros capítulos com o restante da obra. A segunda metade da obra (posterior ao episódio “wandering rocks”) é quando o débito formal de Joyce para com a literatura irlandesa se torna aparente. Tymoczko argumenta que a primeira parte de Ulisses seria adequada a estruturas formais da literatura inglesa, enquanto a segunda se adequaria a estrutura poética irlandesa. Assim, essa divisão representaria a tradição literária dividida que ocorrera desde a conquista de Tudor da mesma forma que dividiria a própria tradição de Joyce como autor irlandês escrevendo em inglês depois do “Revival” ter apontado tão fortemente a importância de distinguir a cultura irlandesa da britânica.

Portanto, os aspectos formais de Ulisses teriam também dimensões políticas e nacionalistas, pois ao escolher utilizar formas de narrativa irlandesas, Joyce rejeita a participação da forma poética inglesa que era utilizada, inclusive, pelos membros do “Revival” que escreviam em inglês. Esses autores usavam conteúdo irlandês, como Yeats e Synge, mas utilizavam a poética e fontes retóricas inglesas, empregando gêneros, prosódia e narrativa ingleses. Já Joyce, mesmo escrevendo em inglês, rompe com a poética inglesa.

É impossível comprovar essa relação estilística da variação sem conhecer profundamente a tradição poética irlandesa, por isso, apenas estudiosos dessa área poderiam comentar com segurança a afirmação de Tymoczko. Mas, o fato é que, seja a aproximação precisa ou exagerada pela autora, gera uma possibilidade interpretativa interessantíssima do ponto de vista da posição de Joyce perante o nacionalismo do “Revival”, além de responder à tão polêmica questão do porquê o romance é estruturado de maneira tão peculiar.

            Tymozcko coloca também a questão do “outro mundo”; frequentemente mencionado na tradição céltica, este seria o local onde estaria a fonte de todo conhecimento que a humanidade não poderia obter a menos que tivesse contato com suas entidades e locais e estaria relacionado a visões e idéia de renascimento. Os encontros com o outro mundo em Ulisses teriam três formas: a expedição, a viagem pelo mar para ilhas e a aventura para um mundo hostil. O primeiro ocorreria na obra como um todo, já que Bloom seria um viajante pela cidade, o segundo estaria relacionado ao outro mundo feliz que seria a Gibraltar que Molly relembra em “Penélope” e o último ocorreria em “Nighttown”, quando Bloom vai ao distrito onde se encontram os bordéis de Dublin. Além disso, a presença do outro mundo feliz no final do romance, narrado de forma fluida e contínua, remeteria a forma poética aliterativa e cadenciada do poeta visionário, existente na tradição céltica; ou seja, Joyce estaria sugerindo a visão de um bom futuro para a Irlanda depois da independência.

            Na cultura irlandesa, a crença no outro mundo seria parte de uma visão de mundo até os dias de hoje e essas narrativas tem sido parte do repertório da crença mais do que da fantasia. Ao adaptar tipos e temas relacionados ao outro mundo, Joyce teria encontrado o problema de representar a crença irlandesa, o que, por ser considerada uma visão de mundo estranha à dominante, certamente causaria estranhamento ao sistema de crenças racional da cultura Ocidental.

Por isso, a autora de “Irish Ulysses” acredita que não seria coincidência que os dois episódios em que o tema do outro mundo aparece, seriam os mais diferentes do ponto de vista estrutural. Ambos estariam relacionados à forma dramática e Joyce teria escolhido tal forma como resposta aos problemas artísticos e ideológicos colocados pelo uso de crenças a respeito do outro mundo e estruturas narrativas da tradição irlandesa. Isso porque uma narrativa convencional requereria um ponto de vista, exigindo que Joyce abandonasse a ambigüidade da questão do outro mundo. Sendo assim, a forma dramática permitiria que Joyce a apresentasse sem comentário.

A questão do outro mundo é um tema bastante conhecido da tradição céltica, tendo sido, inclusive, utilizado diversas vezes pela cultural ocidental. Justamente por isso, figura entre os aspectos que mais corroboram a idéia de Joyce de unir a tradição céltica a ocidental. Mas, embora o episódio “Nighttown” tenha de fato semelhanças notórias ao outro mundo hostil, já a menção de Molly a Gibraltar não parece tão central ao último episódio quanto sugere Tymoczko.

            Outro aspecto relativo às estruturas arquitetônicas simbólicas da tradição antiga viria também da Soberania da Irlanda, um dos mais antigos padrões do mito irlandês. Em Ulisses essas estruturas se intercalam com “The Book of Invasions”, estendendo seu significado. Pelo fato da Soberania ser uma figura feminina, os elementos mitológicos estão relacionados a Molly. Tymoczko realizou uma pesquisa das figuras de deusas da literatura irlandesa e encontrou vários paralelos entre Molly e a figura da Soberania e os relacionou com a compreensão de Leopold Bloom, pois com a estruturação mítica de Molly como deusa relacionada à fertilidade, Bloom teria um paralelo a figura do rei legítimo.

            Segundo a autora, haveria duas representações da Soberania em Ulisses: a leiteira e Molly. Uma representada como esterilidade e escassez e outra como fertilidade e abundância. No início da obra, aparece a leiteira velha e magra, juntamente com outros elementos relacionados à imagens de morte (homem afogado, cão, mãe de Stephen), a terra é apresentada como tendo perdido sua fertilidade, o clima seco. Em contraste, no final do romance Molly aparece, com seus seios fartos, confortavelmente acomodada, evocando imagens de paisagens exuberantes e ricas e o clima retorna a seu padrão usual fazendo a terra renascer. Esses elementos associados de duas diferentes imagens da Soberania no início e no fim da obra estariam conectados com o tema de união ao rei legítimo – a união garantiria frutos da terra e clima perfeito, enquanto a desunião causaria infertilidade dos animais e da terra e problemas climáticos.

Dessa forma, Joyce estaria contrapondo as duas imagens femininas e, implicitamente, colocando uma questão política: qual das duas seria a forma mais apropriada de Soberania da Irlanda? O que quer não é revitalizar a velha leiteira que representa a Irlanda da plebe gaélica, para Joyce esta já estaria ultrapassada com sua língua e vida rural e deve dar lugar a uma nova Irlanda, fértil e jovem. Busca, através do mito, a “desmitologização” do culto nacionalista que ocorria naquele momento, ou seja, através do próprio tradicionalismo critica a atitude retrógrada de seus contemporâneos.

            Colocando juntos elementos realistas, imagens cristãs e mito irlandês, Joyce reafirma o potencial da emergente Irlanda urbana falante de inglês para a restauração da nação. Através da sexualidade de Molly, manifesta uma nova Irlanda simbolizada por uma mulher com uma nova moralidade, novo naturalismo de religião e uma perspectiva internacional, ao contrário do vigente puritanismo religioso e opressor.

            A questão não é de todo original, já que outros autores já associaram Molly e a leiteira à terra, numa interpretação um tanto quanto exagerada e fantasiosa, mas considerando o elemento mitológico da Soberania e pensando na relação da origem espanhola de Molly com a formação do povo irlandês em “The Book of Invasions”, o argumento ganha novos elementos que o corroboram.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

            Ulisses, publicado em 1922, pode ser visto como presente para a nova nação que nascia naquele mesmo ano, oferecendo um modelo de novo povo irlandês para o novo Estado. Se considerarmos, como faz Tymoczko, a presença da tradição irlandesa na estrutura e temas de Ulisses, a posição de Joyce perante a dividida tradição literária irlandesa nos aparece como formadora de uma nova tradição que una as duas já existentes para o nascimento de uma nova Irlanda, possuidora de um passado, mas não retrógrada, influenciada pela cultura dos colonizadores, mas não mais subjugada a ela.

Considerando a interpretação do aspecto irlandês em Ulisses feito por Tymoczko e esse posicionamento de Joyce, nos é possível pensar numa outra questão relacionada à estrutura do romance. Se, de acordo com a autora, a obra é dividida em duas partes, – a tradição poética inglesa, no início, e a irlandesa, no restante – o episódio “Penélope” ter sido colocado no final da obra torna-se extremamente significativo.

Ao contrário dos outros episódios, bastante diferentes do estilo inicial, “Penélope”, de certa forma, o restabelece, mesmo que um tanto quanto transformado. Se sovereingnty devolvermos a pontuação e acrescentarmos um narrador, a discrepância do estilo inicial seria mínima, já que continuaríamos a ter a voz do personagem que aparece tanto nos episódios iniciais quanto no último.

Assim, o fechamento do romance simbolizaria a união da tradição européia, representada pelo uso da poética ocidental no início da obra, com a irlandesa, representada pela variação de estilos dos episódios seguintes. Seria também significativo que essa união de duas poéticas ocorra no episódio final, o qual se refere justamente à Molly, que representaria a Soberania, simbolizando uma nova Irlanda, mais fértil e moderna.

Dessa forma, o estilo e a simbologia do romance se unem na sugestão de Joyce, simbólico poeta visionário pela tradição céltica, de um outro mundo feliz da crença irlandesa, que seria a nova nação que nascia, herdeira de duas tradições.

Ao olharmos para a obra sob o aspecto de sua intertextualidade entre essas tradições, nos deparamos com a forma como Joyce lida com a questão nacionalista. Sua crítica ao “Revival” tem a ver com cosmopolitismo, posição que o leva a tencionar inserir a Irlanda no contexto europeu e não isolar-se dele num nacionalismo exagerado. Os aspectos culturais irlandeses estão presentes em temas e estruturas, mas sem deixar de situar o romance no contexto internacional, ou seja, tornam a Irlanda européia.

Implicitamente, podemos ver a afirmação nacionalista de Joyce, embora esta seja avessa aos nacionalistas irlandeses. O antigo adepto de Parnell e futuro admirador de Griffith coloca uma posição reminiscente aos dois: não ser mais a desafortunada raça injustiçada e escapar da rígida moralidade colonial. Para isso, precisaria retornar a seu passado e herança cultural, mas através de uma perspectiva continental. Assim, Joyce toma a tradição, mas também internacionaliza sua obra; escreve como irlandês mas escreve para o mundo. Vê a nova Irlanda como possibilidades e promessas para um novo mundo.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

CAHALAN, James M. Modern Irish Literature and Culture: a chronology. G.K. Hall & Co., 1993.

CARTER, Ronald and McRAE, John. The Routledge History of Literature in English: Britain and Ireland. Routledge, 2001.

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GELLNER, Ernest. Nações e nacionalismo. Lisboa, Portugal: Gradiva, 1993.

GIFFORD, Don. Ulysses Annotated: Notes for James Joyce’s Ulysses.

HOBSBAWM, Eric J. Nações e nacionalismos desde 1870. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

JOYCE, James. Ulysses.

____________. Ulisses. Trad. Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

McCAW, Neil (Ed.). Writing Irishness in Nineteenth-Century British Culture.  Ashgate, 2004.

TYMOCZKO, Maria. The Irish Ulysses. Berkele




[1]  A história do mito é assim resumida pela autora:

“There are six invasions of Ireland. The first two groups of invaders are wiped out and leave essentially no survivors. The third, fourth, and fifth—those of Nemed, the Fir Bolg, and the Tuatha De Danann, respectively—come from Scythian Greek stock. The Nemedian invasion is eventually abandoned because of opposition and difficulties from the Fomorians, a chaotic and oppressive race of marauders. The Nemedian invasion is succeeded by that of the Fir Bolg, who are in turn overcome by the Tuatha De Danann. Though these three groups are related genealogically, their characters and experiences differ widely. The Fir Bolg are subjugated and become laborers in Greece, while the Tuatha De Danann become skilled in lore, crafts, and hidden knowledge. The Tuatha De Danann become allies of the Athenians before departing for Ireland.”

“Meanwhile the Goidels—descendants of Noah, of course, and genealogically related to their predecessors in Ireland—are involved in building the Tower of Babel. After that architectural disaster, they establish a language school, becoming language teachers with a specialty in Hebrew and Irish (which is constructed from all the languages that come into existence after Babel). They are invited to Egypt at the time of the pharaohs because of their erudition. Their leader, Nel, is given Scota, the daughter of the pharaoh, as wife. The Goidels become sympathizers of Moses and aid the Israelites in their flight from Egypt. Moses is grateful for their help and offers the Goidels a place in the Promised Land should they care to accompany the Hebrews. However, the Goidels decline Moses’s offer. After some years the Goidels are expelled from Egypt in revenge for aiding the Israelites. They undertake various travels (including a second sojourn in Egypt, during which their leader Mil marries the pharaoh’s daughter). Eventually they go to Spain, where they make conquests, settle down, and take wives. While in Spain the Goidels see Ireland from a high tower and decide to go there. After various struggles with their predecessors in Ireland (the Tuatha De Danann), the Goidels (or Milesians) defeat the Tuatha De and arrange a settlement with them—the Milesians get the upper half of Ireland, and the Tuatha De get the half below ground.”

 

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