COMENTÁRIOS SOBRE ATEÍSMO E MORAL EM “A FILOSOFIA NA ALCOVA”
Filed Under (livros) by Tânia on 16-12-2004
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Na época do Iluminismo, na França, a circulação de idéias novas foi constante e trouxe muitas mudanças para o pensamento dos homens do período. A filosofia vinha se desprendendo um pouco da Igreja depois de séculos de domínio quase total, devido à influência católica na organização do Antigo Regime; os valores considerados começaram a mudar, adaptando-se à nova realidade histórica. Com a burguesia cada vez mais poderosa economicamente, seu lugar na política e a valorização de sua organização social e cultural passaram a ser reivindicados.
Em meio a tais inovações, novos valores misturavam-se aos antigos ao mesmo tempo em que se tentava combatê-los, cada qual defendendo seus interesses. A burguesia se baseava nos padrões da aristocracia (que ainda era a classe mais alta) para promover suas mudanças, e esta desprezava o que viesse da classe baixa que ascendia (inclusive naquilo que a burguesia havia se apropriado, culturalmente ou ideologicamente, da herança aristocrata).
Dessa forma, a burguesia tomou para si o fervor religioso (especialmente com Robespierre) que antes pertencera à aristocracia, sendo que esta, inclusive, justificava seu poder político pelo direito divino. Assim, o ateísmo passa a, cada vez mais, ser associado à aristocracia.
O Marquês de Sade segue essa mesma aparente incoerência do período: é aristocrata, ateu e, ao mesmo tempo, revolucionário e republicano. Mas essa aparente incoerência se desfaz quando pensamos que é um aristocrata insatisfeito tanto com o Antigo Regime como com a organização política e social vigente no período imediatamente após a Revolução, que é exatamente quando é publicado “A Filosofia na Alcova”.
Sade vê na Revolução uma oportunidade de mudar, porém, não a maneira que os revolucionários pretendiam, mas de forma ainda mais radical que os próprios radicais de seu tempo. A pornografia e o sadismo são utilizados como forma de transgressão aos valores vigentes, os quais pretende combater em favor de sua proposição de organização social utópica, baseada no que ele chama de “natureza” que não é nada mais que os desejos humanos e, antecipadamente, num sentido que lembra o freudiano.
Em “A Filosofia na Alcova”, De Sade coloca na boca dos “preceptores imorais” as suas idéias e, especialmente em “franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos”, desenvolve argumentos que, ao mesmo tempo em que justificam seus valores, apontam críticas aos vigentes e suas conseqüências para a convivência social e para a felicidade e satisfação do indivíduo, pois acredita que só um cidadão com seus desejos satisfeitos não causaria problemas para seus governantes.
A seguir veremos essas idéias e críticas relacionadas à religião, juntamente com o processo de racionalização que lhe é conseqüente e sua relação com a fundamentação da moral que deixa de ser religiosa.