Aqui estou. Com a caneta em mãos e nenhuma palavra para escrever. Este também não é um bom começo… mas, talvez, seja o único que eu possa fazer agora. Minhas mãos tremem, meus olhos se cansam. Minhas aflições insistem em sufocar-me. E, quando tento derramá-las em palavras, essas palavras se escondem em sombras como esta, que minha trêmula mão empunhando a caneta, faz sobre o papel branco. Tiro meus óculos minuto a minuto como se fossem eles que estivessem a me atrapalhar os pensamentos. Apoio-os sobre a mesa e posso ver ali, naquele espelho suave, um velho escritor, caneta em mãos… papel em branco.
Talvez eu já esteja velho demais para isso. Mas essas angústias de sempre continuam a zombar de mim e desafiar-me a escrever uma nova página tentando livrar-me delas. Mas, só o que vejo agora é a imagem embaçada por meus olhos gastos de velho escritor que não escreve refletida pelas lentes de meus óculos grossos repousados sobre o papel branco. Recoloco os óculos para que essa imagem não me atormente tanto quanto a música que se repete em minha mente ecoando sempre as mesmas palavras vazias, mas com uma sonoridade que me causa arrepios e às vezes até lágrimas.
Não consigo saber como descrever esse sentimento envolvente que me toma enquanto mentalmente repito as mesmas palavras vazias durante horas. Sinto-me perseguido por elas. Não suporto mais repeti-las. Estou farto delas. Impedem-me de qualquer outro pensamento. Mas sua sonoridade me fascina de tal forma que não posso parar de pensar nela. E pensar e dizer cada uma daquelas repetidas palavras vazias. E pensar… E dizer… essas palavras vazias.
As palavras parecem estúpidas quando repetidas muitas vezes. Um mergulho nessa estupidez vazia me leva a notar mais uma vez como todas as convenções são estúpidas. Estúpidas como as palavras que não param de se repetir mais e mais vezes como se tivessem vida própria. Tudo isso me leva a ver minha pequenice e a pequenice de tudo o que considero grande. Como o mundo pode ser grande se nem sei onde o universo acaba. Sim, porque a idéia de infinito é tão impalpável que me recuso a considerá-la plausível. Mas não importa que pensamento absurdo me venha à mente, aquelas mesmas palavras ocas ecoam vazias e estúpidas. E sempre recomeçam quando acredito que vão acabar.
Meus olhos pesam e meu velho corpo pede por repouso. Apesar de cansado, sei que não encontrarei sono tão cedo. Mesmo assim, deito-me e fecho os olhos sem dormir, numa inércia gostosa e preguiçosa onde a única ocupação desta velha carcaça que pesadamente carrego é respirar e divagar nas mesmas palavras ocas, vazias e estúpidas que ecoam em todo o meu cérebro e começam a fazê-lo parecer dormente.
Envolvido por toda uma dormência que vem através de uma preguiça suave e continuada, permaneço imóvel, mas sinto que todo o meu corpo está envolto numa esfera de calor que passa do aconchegante para o desconfortável, para o insuportável, para o sufocante, num contínuo de degradação. Mas, insisto na paralisia e, brevemente, uma brisa fresca vem da janela e sopra todo o calor de meu corpo. Segue-a um forte vento cortante que torna-se bruscamente num vento terrivelmente glacial. O cobertor está ao meu lado, mas não me atrevo a sequer tocá-lo. Tremo. E assim continuo sem saber por quanto tempo. Quieto. Imóvel.
As palavras que tanto me perseguiam e insistiam em me fazer ouvi-las segundo a segundo de repente me abandonaram; eu simplesmente não conseguia mais lembrar-me delas. Foi quando, enfim, pensei que a consciência me tivesse deixado. Mas não. Este foi meu momento de maior consciência.
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