“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

MISÉRIA

Filed Under (contos) by Tânia on 13-03-2003

M

endigo… mendigo… mendigo…

Aquela palavra ecoava em seu pensamento insistentemente. Era um estado. Era isso o que ele era. Um mendigo.

            Nunca pensou que um dia estaria ali, com nojo de si mesmo. Seu próprio cheiro lhe causava engulhos furiosos – era assim que fazia para não sentir fome. Mas havia dias em que até seu cheiro era ineficaz contra a fome. Pensava que comeria fezes, embora esse fosse um ato antropofágico para ele.A57S7R3CA3I28WJCA31GZJPCAC6WHKFCAB30VA9CA14K2U9CARYSYKOCARSVPKXCAYWXU78CAGVFAXWCASLZ5LCCASIXKVXCA8B0C36CA8A7YYKCA9I5LN0CAQE8C1ZCA9JVYUZCAJZYSB8CAG0146G

             Aquele monte de sujeira e ódio escondia dentro de si o que um dia fôra um homem. E esse estranho corpo ali oculto ainda não podia olhar para si. Mas sentia nos olhos dos que cruzavam com ele a humilhante piedade – aquele tapa de mão aberta que diariamente o ofereciam nas ruas. Por que tinham que olhar daquele jeito? Será que pensam que sua compaixão ajuda? Pois eu não quero seu sentimento falso como todas aquelas porcarias de camelô. Não queria essas cinzas de compaixão enlameadas pelo comodismo. São ratos. Apenas ratos. Somente ratos que, como eu, vasculham pelas ruas. Se minha miséria é por comida, a sua é por consolo.

            Sua revolta com aquele mundo distante e com tudo aquilo que por infelicidade do acaso era obrigado a ver bem de perto o fazia chorar em cada noite solitária em que se esparramava por alguma calçada suja de qualquer rua a espera de mais um dia, maldito como todos os outros.

            E, cada vez que uma buzina de carro o despertava dentro de um viaduto, debaixo de uma ponte ou em qualquer esquina onde pudesse encostar-se, lembrava-se de que havia pessoas do lado de dentro daqueles vidros insulfilmados. Estavam tão escondidas em seus covis que nem sequer podia mais identificá-las como pessoas. Eram ratos. Apenas ratos.

            Mas todas elas ainda podiam vê-lo. Viam, mesmo não querendo ver. Como alguém que carrega um cadáver nos braços. Era deprimente olhar – garras esmigalhavam-lhes por dentro, derretiam seu duro coração. Lembravam-se, enfim, de que o importante era que estava quentinho ali dentro, a música lhes distraía e suavizava o momento transformando-o em cena de filme visto de poltronas acolchoadas e confortáveis. Bastava voltar os olhos para outro lado quando as garras conseguissem custosamente rasgar-lhes a carne. Até que não restem mais lados para se voltar onde não haja miséria. Essa miséria de almas tão miseráveis quanto a sua própria.

           

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EPIFANIA

Filed Under (contos) by Tânia on 13-03-2003

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          Aproveito-me desse doce castigo sem crime para me fatigar em pensamentos torturantes que continuam a rondar-me apesar de tentar esgotá-los repetindo-os exaustivamente. A espera tediosa a que me submeto é inevitável. As horas lentamente escorrem pelos ponteiros do relógio pendurado na parede suja da sala. A espera se prolonga indefinidamente. Permaneço sentada olhando o nada. Incomodo-me na cadeira. Glúteos dormentes simplesmente conformam-se em permanecer ali parados.

           epifania Uma chuva fina, quase imperceptível, lentamente derrama-se do lado de fora. É suave e calma. Incapaz de me perturbar. É somente uma longínqua imagem que ainda me parece favorável. O sol ainda brilha algumas vezes, embora as finas nuvens o encubram delicadamente por alguns instantes. O ar é úmido, mas leve e agradável. Continuo ali inerte mesmo depois de já ter me cansado de olhar a janela. A tola chuva.

             Percebo o quanto pareço patética ali imóvel como a própria cadeira. As pessoas, incomodadas, parecem olhar-me pelos cantos dos olhos, depois voltá-los para as páginas das revistas para que em sua mente suja e perfeita possam concluir o quanto sou medíocre e que, felizmente, não estão em meu lugar. Hesito ao pensar em levantar e pegar uma revista para que possa, eu também, julgá-los por olhares superiores e arrogantes. Condeno minha tolice e, um tanto falsamente, minha crueldade e implicância. Resoluta, levanto e apanho a maldita revista. Os olhares intimidantes me seguem enquanto faço isso. Mostro-me segura e decidida, mas minhas mãos tremem ligeiramente e minha face cora indisfarsavelmente. Indefesa, volto a sentar-me, mas não antes de ter em minhas trêmulas mãos, vitoriosa, a revista.

            Folheio aquelas páginas sem lê-las. O tédio ao fazê-lo é ainda mais sufocante. Ao menos, agora, não me sentia ridícula olhando o nada. Agora, o que era o nada para mim, não o era para os que assistiam ou mesmo fingiam que não o fosse. Tudo estava bem assim. Os olhares cessaram finalmente. O incômodo não. Nunca.

           

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ESQUIZOFRENIA

Filed Under (contos) by Tânia on 11-03-2003

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             Ah! Você finalmente veio para descobrir o que há de errado comigo!!

            Já pensou na hipótese de eu não ter absolutamente nada de errado?!

            Sabe, é incrível o que a solidão pode fazer a uma pessoa! O silêncio ensurdecedor fica impregnado nos ouvidos; a falta de perspectivas assombra e o som do vento se torna mudo… o vazio é o único companheiro. Aquele que nunca o abandonará pelo resto de seus miseráveis dias.

O escuro consola, pois parece se harmonizar com o interior do corpo. Mas, inquieto, não consigo acomodar-me em nenhuma posição; e, assim, mesmo que em pequenos gestos, movo-me a cada exatos cinco minutos durante os quais esforço-me em ficar completamente paralisada até que se complete mais um ciclo.

1204155253 É terrível… terrível, a dor! Onde? Não posso saber onde está a dor! Apenas sinto que dói e simplesmente não quer cessar… Ás vezes parece ser em meu sangue. A dor parece percorrer todo o meu corpo. A dor! Só pode estar no sangue! Ela sempre volta. A dor.

Mas pode ser que esteja só em minha mente… E me engane a cada segundo. Posso senti-la por toda a parte!! É isso… me engana!

O tempo também trai! Pois estes segundos são somente uma inútil tentativa de contê-lo… de agarrá-lo! Mas ele me engana. Desvencilha-se de minhas garras… me esforço arduamente tentando segurá-lo mesmo que seja num desses segundos… Mas o único tempo que posso ter, em migalhas espalhadas pelos meus sentidos e confundidas pelo meu pensamento, são essas lembranças…

Tento retê-las com esta caneta de mil maneiras, mas nunca é o bastante…

Míseras lembranças! Se não as posso ter por completo, de que me servem recortes?! É por isso que as odeio… e não posso separar-me delas! Elas precisam estar aqui. Preciso me lembrar! Preciso! Como era aquele cheiro? Qual era mesmo o sentimento que me despertava? Como não consigo me lembrar daquele rosto, se era dele que provinham aquelas sensações que já não sei bem se eram essas de que me recordo hoje?… É inútil!

O que resta é apenas a autodestruição! Então, fumo mais esse cigarro… trago devagar… sinto lentamente meu pulmão intoxicar, esverdear, apodrecer… Só me resta morrer devagar, já que me falta a coragem para um suicídio mais digno! Morrer aos poucos… como se viver não fosse exatamente isso! Como se tivesse sido pouco cada uma de minhas mortes…

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