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endigo… mendigo… mendigo…
Aquela palavra ecoava em seu pensamento insistentemente. Era um estado. Era isso o que ele era. Um mendigo.
Nunca pensou que um dia estaria ali, com nojo de si mesmo. Seu próprio cheiro lhe causava engulhos furiosos – era assim que fazia para não sentir fome. Mas havia dias em que até seu cheiro era ineficaz contra a fome. Pensava que comeria fezes, embora esse fosse um ato antropofágico para ele.
Aquele monte de sujeira e ódio escondia dentro de si o que um dia fôra um homem. E esse estranho corpo ali oculto ainda não podia olhar para si. Mas sentia nos olhos dos que cruzavam com ele a humilhante piedade – aquele tapa de mão aberta que diariamente o ofereciam nas ruas. Por que tinham que olhar daquele jeito? Será que pensam que sua compaixão ajuda? Pois eu não quero seu sentimento falso como todas aquelas porcarias de camelô. Não queria essas cinzas de compaixão enlameadas pelo comodismo. São ratos. Apenas ratos. Somente ratos que, como eu, vasculham pelas ruas. Se minha miséria é por comida, a sua é por consolo.
Sua revolta com aquele mundo distante e com tudo aquilo que por infelicidade do acaso era obrigado a ver bem de perto o fazia chorar em cada noite solitária em que se esparramava por alguma calçada suja de qualquer rua a espera de mais um dia, maldito como todos os outros.
E, cada vez que uma buzina de carro o despertava dentro de um viaduto, debaixo de uma ponte ou em qualquer esquina onde pudesse encostar-se, lembrava-se de que havia pessoas do lado de dentro daqueles vidros insulfilmados. Estavam tão escondidas em seus covis que nem sequer podia mais identificá-las como pessoas. Eram ratos. Apenas ratos.
Mas todas elas ainda podiam vê-lo. Viam, mesmo não querendo ver. Como alguém que carrega um cadáver nos braços. Era deprimente olhar – garras esmigalhavam-lhes por dentro, derretiam seu duro coração. Lembravam-se, enfim, de que o importante era que estava quentinho ali dentro, a música lhes distraía e suavizava o momento transformando-o em cena de filme visto de poltronas acolchoadas e confortáveis. Bastava voltar os olhos para outro lado quando as garras conseguissem custosamente rasgar-lhes a carne. Até que não restem mais lados para se voltar onde não haja miséria. Essa miséria de almas tão miseráveis quanto a sua própria.