“I Can Resist Everything except Temptation”

Oscar Wilde

ESTRANHOS SONHOS

Filed Under (contos) by Tânia on 29-01-2003

Tagged Under :

         Hoje, quando acordei, não pude descobrir onde estava. Era escuro.

        Realmente sentiu-se perdido num lugar totalmente desconhecido, mas não qualquer lugar que ainda não passara e sim onde jamais passaria porque aquele lugar simplesmente não existia. Era ali que estava. Sabia que se abrisse a porta do quarto, lá estariam pessoas estranhas ou “não-pessoas”. Ou, talvez, não houvesse nada. Um nada do outro lado da porta.

sonho Segundos depois, essa estranha sensação desapareceu. Viu-se na penumbra de seu quarto despertando de mais um daqueles sonhos. Ainda devia estar embriagado pelo sono. O que importa!

Por que mesmo se lembrara disso?

Parou de mastigar a apetitosa refeição… Sim, lembrara-se disso porque notou que não sabia como havia chegado ao restaurante. Está bem, viera em seu carro, mas… não se lembrava de tê-lo tirado da garagem, dirigido pelas ruas, xingado um motorista ou outro no caminho e estacionado ali. Aliás, onde mesmo estava estacionado o carro?

Só se lembrava de ter sentado naquela cadeira e feito ao garçom amarelo e magro de sempre o pedido de sempre. Eh! Assim acontecem os acidentes! Precisava estar mais atento enquanto dirigia. Teve sorte em ter chegado bem. Podia estar morto agora! Ou em coma num hospital todo branco… cheirando a todo tipo de medicamento… cheiro de hospital!!

Acordou. Ainda sentia aquele cheiro e um choro de criança atormentava-lhe os ouvidos.

Foi ao dentista. Na sala de espera, este pensamento prosseguiu sua fluência: não suportava o cheiro de consultório odontológico. Que horror! O que leva alguém a ser dentista?! Bom, eles devem perguntar o mesmo sobre mim… Eles colocam a mão na sua boca! E, ainda pior, conversam enquanto fazem isso. É claro, esperando que você responda! Não quero nem imaginar como limpam toda aquela parafernália barulhenta que mais parecem instrumentos de tortura.

Isso não é coisa para se pensar a hora do almoço. Mas como? Estava agora mesmo no dentista… não, isso foi o que sonhei. Precisava parar de almoçar sozinho!

Tomou sua taça de vinho entre os dedos longos e finos e levou-a até os lábios. Saboreou a bebida vagarosamente. Enquanto fazia isso, de olhos fechados, sentiu algo estranho em sua boca. Mordeu. Era duro. Tateou com a língua. Abriu espantadamente os olhos. Seus lábios tremiam. Queria chorar desesperadamente como uma criança mimada. Seus dentes estavam moles. Sua gengiva parecia não caber na boca. O vinho que ainda não engolira escorreu com a sensação de engulho que teve ao tocar com a língua o interior de sua boca: seus dentes estavam moles e podres, o céu da boca tinha erupções com gosto de pus. Junto com o vinho que espirrou na toalha branca da mesa, estavam alguns dentes que saltaram e espalharam-se por li. Um deles caiu dentro de seu copo. Outros caíram em sua comida. Ele queria vomitar. Quando sentiu que o faria…

Acordou ofegante e suado. Olhou em volta, assustado. Tocou os próprios lábios. Sentiu os dentes. Firmes. Saudáveis.

Soltou o ar vagarosamente pela boca aliviadamente. Sonhos estranhos têm invadido meu sono, antes tranqüilo. Mas essa sensação de que tudo não passou de um sonho era reconfortante… Tornava a realidade tão agradável!

Read the rest of this entry »

INFINITO

Filed Under (contos) by Tânia on 29-01-2003

Tagged Under : ,

      A madrugada caminhava lenta, segundo a segundo, nos ponteiros do relógio da cabeceira. Podia ver as horas se arrastarem na penumbra do quarto. O movimento incessante daqueles pequenos pedaços de metal a passarem vagarosamente por cada um daqueles pontinhos reluzentes, depois tornar a fazê-lo outra vez… outra vez… outra vez… eternamente.

      A cabeça pousada sobre o macio travesseiro… e os olhos fixos no relógio… não o via mais; apenas estavam direcionados para eles, autista… Podia ouvir às batidas do próprio coração… SÍSTOLE… diástole… SÍSTOLE… diástole… Átrios e ventrículos cansados. Sentia o sangue circular por todo o corpo. Podia realmente senti-lo passando por cada artéria, cada veia. Não movia nenhum músculo voluntariamente, relaxamento total do corpo, que pesava sobre o volumoso colchão.

     Ouvia a própria respiração. Lenta. Comprida. Também sentia o ar entrando pelas narinas. Quente e suave adentrando o corpo até os pulmões inflados. Sentia o oxigênio chegar ao cérebro inativo…

     Apenas via o tempo passar naquela posição imóvel. E os ponteiros caminhavam.images

     Inspirava… expirava… sístole… diástole…

     Tudo num mesmo ritmo… hum…ahh…

     Tum… tum… Tum… tum…

     TIC… TAC… TIC… TAC…

     Cessa a respiração.

     Cessa o ritmo cardíaco.

     O relógio continua com seus ponteiros infinitos…

     TIC… TAC… TIC… TAC…

VIOLENTO

Filed Under (Poemas) by Tânia on 14-01-2003

Tagged Under : ,

 

0w-Pieta Essas palavras não são mais

vãs palavras de indignação.

Isso não é um protesto.

Eu não me importo.

Eu não quero saber se existem

Pessoas sofrendo em algum lugar.

Que morram. Que definhem lentamente.

Só o que importa é que eu

Ainda esteja bem.

Que eu esteja sempre

Como minha volúvel vontade desejar.

 

Se existe alguém com fome

Não importa desde que eu

Tenha meu prato preferido no jantar.

Se alguém vai morrer de frio esta noite,

Eu não vou nem pensar

Porque adoro dormir com cobertor.

Se alguém implora para morrer,

Eu não me importo.

A vida não vale muito para mim.

 

Se há guerra – que seja no oriente.

Se falta água – tome coca-cola.

Se não há pão – que comam brioches.

Se ganha pouco – não trabalhe.

Perceba, assim, como era o bastante.

Se essas coisas são caras – prive-se delas.

Se acha que alguém realmente se importa – olhe envolta.

 

Eu não me importo.

Mas, ao menos, sou capaz de admitir.

Não lamento e falsamente me apiedo

Para sentir o quanto sou bondoso e caridoso.

Não creio que isso seja suficiente. É para você?

Não vou apenas sentir-me mal por esse estado de coisas.

Mas, assim como você, não estou disposto

A mover um só dedo ou abrir mão de uma única comodidade

Para que eu não precise mais sentir pesar

Pelo sofrimento de alguém

Que obviamente não seja eu mesmo.